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Viagem para além das vidraças

De quarentena há uma semana, após o meu regresso do Brasil, olho através da janela e avisto, na minha frente, o majestoso edifício “St. Lawrence Hall”. Localizado na King Street, em estilo renascentista, é a sua cúpula verde, decorada com quatro relógios na direção de cada um dos pontos cardeais e assente em colunas coríntias, que chama particularmente a atenção. A bandeira do Canadá no topo, desfraldada ao vento, diz-me ser um edifício público. Nas suas traseiras, vislumbro as obras de reconstrução do antigo “farmers’ market” e do outro lado da rua Front, a fachada do St. Lawrence Market, um dos mais antigos e apreciados edifícios da cidade.

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Aquando da minha primeira visita a Toronto, vai fazer 40 anos, levaram-me ao St. Lawrence Market, na Front Street, num sábado de manhã. A companhia não podia ter sido mais apropriada – a conhecida escritora portuguesa de livros sobre culinária, Maria de Lurdes Modesto. A genuína admiração dela a exclamar nomes desconhecidos, de ervas aromáticas, especiarias, legumes, queijos, frutas exóticas, etc., marcou-me de maneira inolvidável. Nunca vira no mesmo espaço tanta diversidade de oferta.

Fiquei para sempre apaixonada por esta zona antiga da cidade. Na altura, soube que Front Street – a “rua da Frente” – era assim chamada porque, durante muito tempo, delimitava a cidade de York (hoje Toronto) fundada em 1793, à beira do lago Ontário. Ao longo dos anos, com o processo de aterro, o lago ficou cada vez mais afastado e, hoje em dia, quase nos esquecemos da sua relevância para a localização e desenvolvimento da cidade.

Vou com frequência ao mercado de St. Lawrence, justificadamente integrado no percurso turístico do centro histórico de Toronto. Grupos barulhentos de turistas manifestam o seu agrado, tomando café, provando as famosas sanduíches de “peameal bacon”, as “bagels” com salmão e queijo e outras delícias ali servidas. Com atividade iniciada em 1803, o mercado alberga atualmente cerca de 120 comerciantes e artistas. A reputada revista “National Geographic” qualificou-o como o mercado número um do mundo na oferta de produtos frescos de qualidade.
Há uma galeria de arte, no segundo andar do edifício, que, pelas exposições apresentadas, convida o público a passar algum tempo, alimentando o espírito em dia de compras. Fotografias antigas da cidade e do edifício, que serviu de primeira Câmara Municipal, adornam as paredes ilustrando acontecimentos relevantes da sua história.
Aos fins de semana, há muita gente que procura a parte do mercado conhecida como “farmers’ market”. Na verdade, ao sábado há venda de fruta, legumes, ovos, pão, queijo e outros produtos frescos do sul da província, que são trazidos das quintas ao redor de Toronto. Mas, ao domingo, transforma-se numa feira de antiguidades, de entrada livre, atraindo dezenas de visitantes que ali podem encontrar à venda um pouco da história do país, sob a forma de postais, livros, objetos de porcelana, prata e tanta outra bugiganga.

O edifício “St. Lawrence Hall” destaca-se pela sua arquitetura do século XIX, numa zona da cidade cada vez mais moderna e descaracterizada, e foi o primeiro a ser construído em 1850, depois do grande incêndio de 1849, com a finalidade de ali serem realizados eventos públicos políticos e culturais. Os seus três salões foram restaurados em 1967 e hoje são usados para casamentos, espetáculos de gala, e outros eventos especiais. O incêndio destruiu a baixa da cidade e foi pretexto para a construção dos edifícios históricos que ainda restam.

Quando queremos viajar, sem poder sair de casa, podemos fazê-lo de muitas maneiras. Pegar num livro ou abrir o computador e, com a ajuda da internet, escolher um local. Desta vez, bastou-me olhar para além das vidraças. A porta principal do mercado mantém-se aberta. Uma pessoa entra e sai de cada vez, faltando-lhe o movimento habitual, o que denuncia bem a anomalia dos dias que estamos a viver.

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www.donate.utoronto.ca/Marujo

Imagens cedidas por Manuela Marujo

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