Viagens

Turismo desenfreado e a voz da natureza

Nestes meses de confinamento, viajar e fazer turismo estão obviamente fora de questão. As consequências negativas para a economia de muitos países que dependem, maioritariamente, do afluxo de viajantes, precisam de ser seriamente consideradas. Ao mesmo tempo, surgem notícias que nos fazem pensar nos efeitos positivos da ausência de turistas.

Uma das primeiras notícias, e a que causou a maior sensação, foi o que se verificou na cidade de Veneza, mal o turismo parou. A água turva que enchia os famosos canais da cidade flutuante, agora vazios de gôndolas, “vaporettos”, táxis aquáticos e navios de cruzeiro ficou, em poucas semanas, clara e transparente, deixando ver peixes, algas e até a areia do mar, surpreendendo pela positiva os habitantes dessa cidade.

A cidade de Veneza, ameaçada de se ir afundando devido às mudanças climáticas, é visitada por 20 milhões de turistas por ano. As consequências desse excesso de gente são desastrosas e sobejamente conhecidas. Será que se vai aprender a lição com os erros cometidos antes das proibições de viajar?

Porque fui um dos turistas que não resistiu ao apelo dessa cidade, procurarei tentar explicar a atração que a ela leva esse excesso de turistas.

Foi no século V que os habitantes do nordeste da Itália se refugiaram em ilhotas localizadas numa lagoa de água doce, à beira do Mar Adriático. Veneza resultou da ocupação de 120 ilhotas, cortadas por mais de 170 canais, e foi aumentando ao longo dos séculos por meio de aterros e construção de pontes magníficas. É assim, uma cidade construída sobre as águas, causando a admiração dos que a procuram.

Devido à sua localização, Veneza foi, até ao século XV, uma potência comercial entre o oriente e o ocidente e a sua opulência ainda é visível nos grandiosos palácios, templos, praças com edifícios majestosos, estátuas, e tanto mais.

Fui a Veneza em duas estações diferentes do ano mas, em qualquer altura, a cidade é visitada por milhares de pessoas que caminham pelas ruelas estreitas, atravessam as pontes, e fretam as inúmeras gôndolas que possibilitam transitar pelos canais da cidade. Sendo grande parte da circulação feita por via aquática é obrigatório passear num “Vaporetto” pelo Grand Canal, e observar as fachadas dos palacetes góticos e renascentistas das poderosas famílias venezianas voltados para essa via. Acabado o passeio, vale a pena debruçarmo-nos nas balaustradas da magnífica Ponte do Rialto e observar a paisagem única que dali podemos disfrutar, ainda mais maravilhosa do que a que se vê em livros ou filmes.

Toda a gente vai à Praça San Marcos, sabendo de antemão que tem de aguardar em longas filas para entrar na belíssima Basílica, no Palácio Ducal ou no Campanário – lugares excecionalmente belos e com tesouros inestimáveis que compensam a espera.

Nos anos em que tem lugar a Bienal, toda a cidade se transforma num gigantesco museu. Criada em 1895, a Bienal de Veneza é um dos acontecimentos culturais mais importantes do mundo onde o melhor das artes visuais, cinema, música e teatro é exibido. O cobiçado prémio Leão de Ouro é, nessa altura, entregue à melhor obra da mostra internacional.

Quando fui a Veneza, também me interessou fazer um passeio noutras ilhas: Murano (famosa pelo trabalho artístico em vidro), Burano e Torcello. Essas pequenas ilhas, muito menos frequentadas pelas multidões e com atividades próprias, ajudam a compreender como se foi formando Veneza.

De que maneira iremos encontrar o equilíbrio entre respeito pela natureza e fazer turismo para conhecer alguns dos lugares que são património da humanidade? Calculo que muito menos pessoas irão poder, ou ter vontade, de viajar num futuro próximo. No entanto, tanto os tesouros da natureza, como os resultantes da criatividade do ser humano irão, inevitavelmente, atrair viajantes curiosos. Que lições se terão aprendido durante esta pandemia?

credito que os sinais que a natureza nos está a enviar são um alerta para o nosso comportamento futuro.

 

Manuela Marujo/MS

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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