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O que é que a baiana tem?

Numa das estantes do meu escritório, onde agora passo a maior parte do tempo, estão duas estatuetas de baianas garridas, compradas no Mercado Modelo, durante uma das minhas visitas a Salvador da Baía. Sempre que o olho para elas, vem-me à cabeça a canção de Dorival Caymmi, popularizada pela carismática Carmen Miranda: “O que é que é que a baiana tem?/ tem graça como ninguém/como ela requebra bem…”.

Estive em Salvador, há três anos, a participar num dos congressos dedicados à temática “A Voz dos Avós: Família e Sociedade” em que se juntaram cerca de duas centenas de outros participantes. Nesse encontro, mais uma vez constatei duas facetas dos brasileiros que sempre me encantam: a qualidade da preparação académica e a amabilidade extrema com que se relacionam com as pessoas.

Fui com cinco congressistas amigas, e passámos os três dias do congresso nas instalações da Universidade Católica. A qualidade das apresentações, bem como as atividades e convívio com colegas e artistas convidados retiveram-nos, de bom grado, no agradável espaço da instituição, bem equipado e com ar condicionado, pormenor importante dado o clima excessivamente quente e húmido desta região nordestina.

Terminados os trabalhos, ficámos mais uns dias, com o objetivo de conhecer a cidade. Salvador, na Baía de Todos os Santos, faz parte do imaginário português por ter sido a primeira capital da então colónia, de 1549 a 1763.
No centro histórico, maravilham-nos os altares das igrejas em talha dourada, os imponentes edifícios históricos, as praças com as estátuas dos heróis, as calçadas, as coloridas lojinhas de artesanato, a música dos berimbaus e tambores nos jogos de capoeira, os trajes das baianas com os tabuleiros de acarajés na cabeça, e tantas outras marcas de um passado colonial.

No casarão de frente para o Largo do Pelourinho, pode fazer-se uma visita à Fundação Casa de Jorge Amado, escritor de renome mundial. É centro de documentação e de pesquisa, com exposições, ciclos de conferências, oficinas, e muitas atividades de âmbito cultural. Gostei muito mais, no entanto, de ir à Rua das Alagoinhas, no bairro boémio do Rio Vermelho, e percorrer, com vagar, a casa e o primoroso jardim onde Jorge Amado e Zélia Gatai viveram mais de 40 anos. A casa está mobilada e decorada com obras de arte e objetos pessoais; fotografias e muitos vídeos ajudam a recriar o percurso literário dos dois escritores baianos. Devo, aos livros de Jorge Amado, a minha iniciação ao português do Brasil. Não pude deixar de me emocionar por estar sentada à sombra das árvores, nos mesmos bancos de jardim, onde também ele se protegia do sol escaldante.

Não se anda em Salvador sem nos sentirmos tocados pela herança africana trazida pelos escravos. É a cidade brasileira mais marcada, religiosa e culturalmente, pela presença de africanos vindos do Golfo do Benim e do Sudão. Testemunho disso é o Dique do Tororó onde oito estátuas de orixás (divindades da natureza) parecem flutuar no espelho de água da lagoa. Nas proximidades há alguns dos mais de dois mil “terreiros” onde se dança candomblé (nome que se dá às práticas religiosas trazidas pelos africanos). Foi comovente assistir a uma missa africana cantada na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, com batuque, partilha de pão e outras práticas que nos deixaram emocionadas.

Do Palácio do Rio Branco, não se pode deixar de admirar a paisagem deslumbrante sobre a Baía de Todos os Santos. Muito perto fica o Monumento da Cruz Caída e, junto dele, o Memorial das Baianas onde vestimos todas o traje baiano, com o turbante de frutas na cabeça, e fingir, por breves momentos, sermos vendedoras do famoso acarajé, fazendo também jus à canção: “tem saia engomada tem/ sandália enfeitada tem/tem graça como ninguém…”.
As risadas que demos, ao olharmos umas para as outras, provaram que também nós tivemos graça como ninguém!

Manuela Marujo/MS

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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