Viagens

Malaca e o “Papa” Joe

Há certos lugares do mundo aonde se vai, uma vez na vida, para se concretizar um sonho. Malaca, na Malásia, é um desses lugares. A cerca de 150km da capital Kuala Lumpur, Malaca é um porto de mar onde, em 1511, Afonso de Albuquerque estabeleceu uma colónia.

Malaca atrai-nos imediatamente pela mistura etnocultural deixada por portugueses, holandeses, ingleses, chineses, hindus, árabes e malaios. Os legados são visíveis por toda a cidade, quer na construção das habitações, das igrejas e dos templos, quer na diversidade dos produtos à venda nas lojas e mercados. Os restaurantes apresentam uma mistura infindável de sabores e cheiros dado o exotismo das especiarias, frutos e outros ingredientes.

Para uma portuguesa como eu, o mais atraente da cidade foi, sem dúvida, visitar a fortaleza mandada construir por Albuquerque, conhecida como “A Famosa”, de que apenas resta a Porta de Santiago. Também gostei de visitar a Igreja de São Paulo e o Museu Umno bem documentado sobre a invasão e presença dos portugueses com pinturas, esculturas, modelos de barcos, moedas antigas e outros objetos preciosos.

Na informação turística da cidade, é recomendado ir conhecer o “bairro português”, um pouco afastado do centro histórico, localizado junto a uma praia. Como se explica existir um bairro português em Malaca? Os holandeses conquistaram a colónia aos portugueses, em 1641, destruíram a fortaleza e permaneceram até 1824, sendo depois substituídos pelos colonizadores ingleses que dominaram até 1956.

A curiosidade de conhecer o bairro era irresistível. Ao sair do táxi, o cheiro a peixe grelhado, nos vários restaurantes junto ao mar, trouxe-nos, imediatamente, os odores familiares da comida portuguesa. O empregado que me atendeu e à minha amiga, ao dizermos que éramos portuguesas, mudou de inglês para “kristang” (a língua dos cristãos) e nós compreendemos praticamente tudo o que dizia! Olhávamos uma para a outra sem quase poder acreditar.

Ao sair do restaurante, era imprescindível ir dar uma volta pelo bairro. Encontrámos um bairro de pescadores malaios pobres, casas de construção humilde, com azulejos na fachada: a Nossa Senhora de Fátima, a Sagrada Família, o São Pedro. As portas estavam abertas e as famílias sentadas ao fresco, na entrada, dado o calor ser imenso.

A certa altura deparámo-nos com o bar-restaurante “Papa Joe”. Chamou-nos a atenção um cartaz a cobrir uma das paredes onde um homem malaio, vestido de ribatejano, tocava viola. Não se via ninguém, e posámos para uma fotografia. Nesse momento, surge de dentro do estabelecimento o modelo da fotografia: o dono, o Papa (papá) Joe. Convidadas a segui-lo até ao bar, não hesitámos. Além de gerir o restaurante, era o ensaiador e dirigente do grupo folclórico do Clube Português. Chamou a esposa, a Fátima, e um dos filhos, o Sebastião que estavam por perto, pegou na viola e cantou para nós cantigas portuguesas antigas: “Olha o cochicho”, “Uma casa portuguesa”, “A samaritana”… Gravámos um pouco, comovidas, e sem querer quebrar a espontaneidade daqueles momentos tão especiais. O Papa Joe falava também “kristang”, que não é mais do que o português antigo, deixado pelos portugueses que lá se fixaram há mais de 500 anos, casaram com raparigas malaias, e ali constituíram as suas famílias.

Não fomos as primeiras a comover-nos com a presença dos colonizadores portugueses na Malásia. Tinha lido e ouvido falar sobre a existência desse pequeno grupo “kristang” e queria verificar com os meus olhos. Mas uma coisa é ler e outra é experienciar. A Malásia fica na costa sudoeste do continente asiático, muito longe da Europa. Comprovar a força que tem a nossa herança cultural, passados tantos séculos e a essa distância considerável, deixou-me simultaneamente orgulhosa e com certos sentimentos de culpa.

O “Papa Joe” (Emmanuel Joseph Lazaroo), idealizava poder um dia conhecer Portugal que “fica tanto muito longe”, como nos disse. Mandei-lhe vários CD’s de música portuguesa num gesto de simpatia, e soube da sua morte recente, sem que tivesse podido ajudá-lo a realizar seu sonho.

 

Manuela Marujo
Imagens cedidas por Manuela Marujo

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