Viagens

Mãe, Amareleja

Estamos em plena primavera, com dias de sol a alegrar o nosso estado de espírito, carente de luz.  Os campos cobrem-se de verde, matizados de flores silvestres. Nesta primeira quinzena de maio, em que se evocam, primeiro em Portugal depois no Canadá, as mães, penso na ausência da minha e não posso deixar de a associar a uma vila alentejana – Amareleja, a terra natal do seu segundo marido.

Na época em que a minha mãe foi viver para lá, a terra era conhecida como a maior aldeia de Portugal. Diz a lenda, que o seu nome terá tido origem na frase proferida por um dos reis de Portugal que, aventurando-se por aquelas terras junto à raia de Espanha, ao olhar para as planícies de horizonte sem fim, terá perguntado: “Que é aquilo que amareleja além?” 

A verdade é que, na primavera, as inconfundíveis papoilas vermelhas do Alentejo quase se perdem num mar imenso de pampilhos – nome que damos aos malmequeres amarelos pequeninos que, por aqueles lados, crescem em grande abundância.

De norte a sul, os portugueses ouvem falar da Amareleja nas notícias, devido às temperaturas excessivamente elevadas que atinge no verão. Por isso, em 2008, foi ali instalada uma central fotovoltaica de painéis solares, cuja extensão daria para 250 campos de futebol, o que deu uma certa notoriedade à vila.

Na Amareleja, a Praça do Relógio, a Igreja Matriz, o Baldio das Ferrarias são lugares que se destacam aos olhares de quem vem de fora. Uns quilómetros mais afastados, podem visitar-se as ruínas do castelo do Noudar ou moinhos no Rio Ardila, onde, no verão, além de nos refrescarmos com um banho, se pode pescar para fazer uma caldeirada de peixe.

As ruas da Amareleja são longas, ladeadas com as características casas caiadas de branco com barras amarelas, ocres ou azuis. Os portões dão acesso a pátios, protegidos por sombras de limoeiros ou latadas de videiras onde as pessoas se sentam fugindo ao calor.

Sempre achei curioso o ritual fúnebre desta vila, que imagino seja conhecido por pouca gente. Há um “oco” usado para cada pessoa, isto é, o caixão é colocado dentro de uma construção abobadada retangular de cimento, que dá lugar a campas “em altura”, à superfície do chão.  Num deles ficou sepultado o meu padrasto, conforme era seu desejo.

Na Amareleja, o que sempre me interessou sobremaneira foram as atividades tradicionais. Com a minha mãe, ia comprar os queijinhos de cabra a uma vizinha que os fazia na nossa frente. Com o meu padrasto, ia provar nas adegas, o vinho de fabrico tradicional, da doce uva Dona Maria.  No lagar, comprava o puro azeite para cozinharmos as açordas e, na padaria, os folhados de gila para a hora da merenda. Na oficina do sapateiro, que fazia botas e sapatos manualmente, sem dar vazão às encomendas de Lisboa, gostava de me sentar a conversar. Passava tempo na loja de artesanato, admirando os objetos feitos de xisto, de ferro forjado, cadeiras de buinho e tanto mais.

A vida, numa vila isolada como é a Amareleja, decorre com muita tranquilidade e alguma tristeza. Quase não se vê ninguém nas ruas e muitos idosos vivem sozinhos, nas casas vazias dos filhos e netos que foram trabalhar ou estudar nos centros urbanos e fazem visitas raras e breves.

Porque a minha mãe viveu muitos anos nessa terra, conheci bem a região: Barrancos, Moura e Monsaraz são exemplos de terras nas proximidades, e que, ainda antes da inauguração da grande barragem do Alqueva, já atraíam visitantes por terem interesse histórico.

Queijo de Cabra

A paisagem mudou radicalmente após a subida das águas da barragem. Testemunhei a submersão da Aldeia da Luz, e vi surgir lagoas em terras dantes áridas. Os castelos de Mourão e de Monsaraz aparecem agora circundados pelas águas claras, onde barcos de pesca e de recreio dão nova vida às terras isoladas.

Para lembrar a minha mãe e os campos amarelejando neste mês de primavera, basta-me fechar os olhos e voar nas asas da minha imaginação. Ao abri-los, posso ver o ácer vermelho que em sua memória plantámos e cujas folhas estão a brotar cheias de vida; conforta-me ela ter concordado que, um dia, as suas cinzas viajassem para perto de mim.

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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