Viagens

Do Alentejo à Escandinávia, uma história de amor

Antes de conhecer a Suécia, tinha a mais romântica das ideias sobre o país –  governado por um rei, com florestas e lagos, o sol da meia-noite e mulheres loiras e lindas como as princesas dos contos de fadas. Nesse país longínquo, encontrara refúgio um casal da minha aldeia alentejana: uma humilde professora primária e o filho de um rico latifundiário. O amor proibido, devido à diferença de classe social, obrigara-os a fugir para lá, onde viviam felizes. Ainda adolescente, e impressionada pela extraordinária coragem e força do seu amor, jurei que iria visitá-los um dia.

Passaram-se muitos anos, fiz várias viagens ao estrangeiro, mas levou algum tempo até conseguir ir à Escandinávia. Um dia, surgiu-me um convite para ensinar um curso de Português Língua Estrangeira, durante um mês, numa pequena ilha nas proximidades da cidade de Västerås, na Suécia. Mal podia acreditar na minha sorte, e aceitei com todo o entusiasmo a oportunidade de poder reencontrar aquele casal cuja história eu nunca esquecera.

Estabeleci contacto com pessoas da família dela e fiquei a saber que dava aulas de português a crianças filhas de imigrantes, na capital do país. Escrevi-lhe cartas, fiz-lhe telefonemas e, um dia, dei comigo a bater à porta deles, num dos bairros da cidade de Estocolmo. Reencontro de saudade, com algumas lágrimas e muitas risadas de alegria.

Voltei outras vezes à Suécia para dar cursos de Português, numa altura em que esse país formava cooperantes que enviava para as ex-colónias portuguesas. Médicos, engenheiros, professores e técnicos de várias especialidades aprendiam português antes de serem recrutados para Angola, Moçambique ou Guiné-Bissau. Estabeleci amizade com alunos suecos e voltei algumas vezes para passar férias.

Viajei numa dessas ocasiões até à cidade de Uppsala, onde tinha amigos que me foram mostrar a famosa universidade e a catedral. À noite demos um passeio de trenó pelas ruas geladas, seguido de sauna acompanhada de cerveja fresca. Surpreendiam-me esses costumes diferentes e fui aprendendo a gostar cada vez mais do país.

Conheci também as cidades de Gotemburgo, Karlstad, Lund, Malmõ e a capital, Estocolmo, onde a presença da água domina, ao ponto de muita gente a chamar “Veneza do Norte”, construída sobre catorze ilhas ligadas por cinquenta pontes. De Estocolmo lembro o Palácio Real, a Catedral, o Museu Nobel e a Gamla Stan, a cidade histórica. Não foram, porém, as cidades suecas que me deixaram as melhores lembranças desse país.

O que me deslumbra na Suécia é beleza da natureza. No inverno, caminha-se sobre os lagos gelados, frequentam-se as estâncias de ski, anda-se de trenó, e faz-se sauna depois de mergulhar na água gelada dos lagos.

No verão, os dias longos e luminosos – que podem ir até às 18 horas de sol – convidam a passear pelos bosques, a andar de barco nos lagos, a pescar e a tomar banho nas águas refrescantes dos rios e dos lagos. Durante a festa de “Midsummer” há uma alegria contagiante nas pessoas que, vestidas de cores claras e alegres, ficam mais comunicativas, e convivem com vizinhos e amigos.  Uma vez, também eu dancei à volta do mastro enfeitado, pus na cabeça uma grinalda de flores e bebi demais.

A Suécia continua a ser uma monarquia, e é um dos países com um nível de vida bastante elevado, em que o Estado proporciona educação, saúde e bem-estar social para todos.

A história de amor dos meus amigos alentejanos teve um final feliz – trabalharam na Suécia até atingirem a idade da reforma, e regressaram à aldeia onde juntos e enamorados, viverão a sua velhice, até que a morte os separe.

Manuela Marujo

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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