Viagens

Cusco e o Vale Sagrado dos Incas

Lembro-me ter ouvido dizer que, se alguma vez fosse a Machu Picchu, deveria planear passar algum tempo na cidade de Cusco, uma cidade nos Andes peruanos, digna de visita.

Urubamba no vale

Cusco fica a 3 400 metros acima do nível do mar. Para ver as ruínas incas da fortaleza-templo Saqsaywaman, sobe-se um pouco mais, até 3 800m. Eu nunca tinha estado a tal altura e sofri de “soroche”, o mal de altitude. Toda a gente nos aconselha a mascar folhas de coca, a tomar chá ou chupar rebuçados de coca – mas de pouco me valeu. A minha respiração tornou-se ofegante e cansava-me muito depressa, mesmo a andar normalmente.

Compreendi, todavia, que passar algum tempo, a ver, devagarinho, as maravilhas da cidade histórica de Cusco, é absolutamente indispensável para compreender melhor o que se viu, ou se vai ver, em Machu Picchu. A cidade, capital do Império Inca até à chegada dos espanhóis em 1534, liderados por Francisco Pizarro, foi construída na primeira metade do século XIII. Depois de derrotados os incas, os conquistadores tornaram Cusco uma das cidades mais importantes da colónia e de toda a América do Sul. A Plaza das Armas de Cusco, com suas arcadas e edifícios com varandas de madeira trabalhadas, a catedral, os conventos e inúmeras igrejas são testemunhos do poder colonial. Vale a pena caminhar pelas ruas antigas da cidade, qualificada como património da humanidade, e admirar igualmente as construções antigas dos incas, recuperadas e transformadas, em parte, pelos espanhóis.

Uma das maravilhas arquitetónicas é a catedral pela riqueza barroca dos altares, uns em prata pura, outros decorados com muito ouro. Adorei ver, num dos altares principais, um Cristo preto, o Senhor dos Tremores (Cusco sofre muito de abalos de terra), apresentado de modo que me chamou a atenção: com uma saia muito colorida, bordada a ouro e pedras preciosas. A guia explicou-nos que, semanalmente, lhe mudam a saia, peça de roupa usada pelos homens incas. Há mais de 3 000 exemplares, oferecidas em promessa pelos crentes. Fez-me lembrar o ritual da mudança dos mantos do Senhor Santo Cristo dos Milagres, em Ponta Delgada, no convento da Esperança. Tanto nos Açores, como no Peru, os fiéis deixam pequenos tesouros como pagamento pelas graças concedidas.

Cusco possui, nos seus arredores, algumas ruínas bem preservadas e que nos deixam admirados pelos conhecimentos de arquitetura e engenharia dos incas: Saqsaywaman, Tambomachay e Qorikancha foram as que consegui ver, receando a todo o momento que me faltasse o ar. Pedregulhos que pesam toneladas, foram perfeitamente encaixados uns sobre os outros. Alguns, com mais de 9 metros de altura, serviram de muralhas e continuam a surpreender os estudiosos. Como foram ali parar? Que técnica usaram para os sobrepor daquela maneira? Vale a pena subir para se admirar, em baixo, a cidade de Cusco, ela própria situada num planalto elevado; a vista dos seus telhados vermelhos e construções medievais baixas é encantadora.

É de Cusco também que se viaja para o Vale Sagrado dos Incas. Durante dois dias, visitei pequenos povoados, como Pisac, Chichero e Ollantaytambo, sempre com o poderoso rio Urubamba por perto. Dezenas de comunidades peruanas dedicam-se ao artesanato e à tecelagem. A lã do lhamba, alpaca bebé e vicunha é usada em têxteis coloridos, atraentes e por vezes muito caros. Ponchos, mantas e outros tecidos decorativos são vendidos em lojas, mercados, nas ruas, na verdade, por todo o lado onde haja um turista.

Muita gente sonha em ir a Machu Picchu por ser um lugar mítico. Levou-me muitos anos a planear essa viagem. Aconselho a ir com tempo e a visitar outros lugares no Peru, um país desconhecido para a maioria e que surpreende pelo seu passado e civilização avançada.

Manuela Marujo

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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