Viagens

China, no Delta do Rio das Pérolas

Numa das minhas três visitas a Macau, tive uma oportunidade rara de viajar durante um fim de semana, numa carrinha de apoio a um grupo de ciclistas amadores, e poder conhecer uma pequena parte do gigantesco Delta do Rio das Pérolas.

Sei andar de bicicleta, mas não me atrevi a aceitar o convite de acompanhar e atrasar, dada a minha falta de prática, a comitiva de alguns portugueses de um clube de ciclismo residentes em Macau, que tinham o hábito saudável de assim percorrer partes da China. Optei por acompanhá-los na carrinha de apoio, a uma velocidade reduzida, o que me permitiu ir observando, com vagar, pessoas e lugares.

Para sairmos de Macau, foi preciso aguardar, em longas filas, a vez de mostrar o visto e passar a fronteira nas Portas do Cerco. O formigueiro humano é o que mais desperta os nossos sentidos na China. As pessoas acotovelam-se, empurram-se, gesticulam e falam alto. É preciso adaptarmo-nos e seguir as multidões com muita calma.

O grupo juntou-se num lugar combinado, já conhecido de outros passeios por aquela região. A viagem foi feita por etapas e as paragens aproveitadas para se beber água, petiscar e conviver. Alguns membros do clube falavam um pouco de chinês, o que facilitava alguma comunicação, pois não eram lugares turísticos e ninguém aparentava saber inglês.

Ao percorrer aquelas estradas secundárias, chamou-me a atenção, palavras escritas em inglês: nomes de algumas multinacionais conhecidas, instaladas em edifícios que igualavam fábricas e indústrias do ocidente, e de algumas escolas internacionais de arquitetura moderna, com jardins, cercas altas gradeadas e portões.

Por sua vez, as estradas eram frequentadas por todo o tipo de transporte antiquado: carroças velhas e carrinhas a transbordar com mercadorias mal acondicionadas. Viam-se pessoas idosas a puxar, com enorme esforço, carroças de uma só roda, como se fossem animais, e muita gente com cargas pesadas às costas.

Parámos para pernoitar na cidade de Zhongshan, terra natal do revolucionário Sun Yat-Sen, pouco frequentada por ocidentais. As crianças rodearam-nos com grande alarido, a manifestar entusiasmo pelas bicicletas, capacetes e camisolas vistosas dos membros do clube. Pessoas idosas queriam, de forma insistente, vender objetos de toda a qualidade, a troco de preços irrisórios. Caminhando pela zona pedonal, viam-se restaurantes, lojinhas com fruta e quinquilharia colorida.

O jantar, num dos restaurantes chineses do local, já conhecido por uma pessoa do grupo, foi uma aventura. Ele encomendou em chinês, com muitos gestos à mistura. Não sei o que comi, apesar da variedade de vegetais, peixe seco ao sol, insetos e sei lá o quê ser deliciosa e não me ter causado nenhuma indigestão!

No dia seguinte, o passeio junto a um trecho do Rio das Pérolas foi de grande beleza. Esta província de Guangdon é famosa pelos portos que, durante a Rota da Seda, acolhiam os barcos de mercadorias. Avistavam-se muitos templos, jardins bem cuidados, avenidas marginais com passeios pedonais, restaurantes e vendedores de todo o tipo de objetos.

O projeto que a República Popular da China tem para o gigantesco Pan-Delta do Rio das Pérolas é agregar as nove cidades atualmente abrangidas e transformá-las numa megalópole – “cidade sem fim”, segundo um relatório da ONU de 2010. Prevê-se que esse projeto esteja completo em 2047, quando tiver acabado o tempo de transição dos governos de Macau e Hong Kong e estes territórios deixarem de ser considerados Regiões Administrativas Especiais para serem igualmente integrados.

Foi uma felicidade ter passeado, tranquilamente, nesta região antes de ser concretizado esse projeto futuro da potência chinesa que tem tanto de impressionante como de assustador.

Manuela Marujo

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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