Viagens

Caminhos e trilhas

A Ilha de Santa Catarina, no sul do Brasil, atrai amantes da natureza, dispostos a caminhar e conhecer recantos da ilha só possíveis, depois de percorridos caminhos e trilhas usados pelos nativos, ou abertos há muitos anos pelos habitantes da ilha. O acesso a alguns lugares de beleza ímpar só se pode fazer a pé. Há registadas trinta e seis trilhas e caminhos que ajudam a escolher percursos, conforme a localização, o acesso e o grau de dificuldade.

Não me lembro de ter feito alguma até à minha estreia da Trilha da Praia do Saquinho. Cheguei à Ilha de Santa Catarina no dia 2 de maio de 2000, para passar a noite no sul da ilha, na Praia da Solidão. Os meus anfitriões brasileiros disseram-me que se realizava nessa noite uma festa especial, a Festa da Cruz, na comunidade do Saquinho. Perguntaram-me se eu gostaria de assistir pois era uma caminhada de cerca de 30-40 minutos após subir o morro junto da praia.

Sentia-me cansada depois da viagem de avião de dez horas de Toronto a São Paulo, e de ter que mudar de aeroporto para um voo doméstico de cerca de uma hora para Florianópolis. Mas, como resistir a conhecer uma tradição anual tão querida de Franklin Cascaes de quem ouvira falar com tanto respeito e admiração?

A Cruz, enfeitada com símbolos, fora doada em 1972 a essa comunidade pelo famoso estudioso da ilha que via as cruzes como “proteção contra as coisas que andam à noite”. Franklin Cascaes esculpiu, desenhou, pintou e escreveu sobre os povoadores mas também sobre os seres fantasmagóricos, crendices e bruxarias – mitos e histórias trazidas pelos açorianos que vieram povoar a ilha no século XVIII, por ordem do Rei de Portugal. Foi ainda Cascaes quem anotou a presença de mais de trinta das cruzes açorianas espalhadas por toda a ilha.

Subimos o morro ao entardecer dado a festa ser à noite. Nos primeiros dez minutos a subida é íngreme, compensada por uma panorâmica de sonho. Aos nossos pés, fica a Praia do Rio das Pacas ou da Solidão. Ao longe, avista-se o morro que abriga numa enseada o Pântano do Sul e a Praia do Balneário dos Açores. No seguimento da trilha, há zonas mais fáceis de percorrer, entrecortadas de pequenas subidas e descidas. O oceano está sempre à vista, com as Ilhas dos Moleques do Sul e as Três Irmãs bem delineadas ao longe. A certa altura, desce-se e entra-se numa zona muito arborizada com riacho e pequenas cachoeiras. Encontra-se logo a seguir uma praia pequena, de areia branca e suave, entremeada de rochedos de formatos variados.

Borboletas azuis, amarelas, vermelhas pintalgadas de negro, muitas flores e algumas árvores de fruto anunciam a proximidade da comunidade que habita a Praia do Saquinho. São meia dúzia de casas dispersas habitadas por pescadores, artistas e um ou outro com espírito de ermitão na busca de silêncio e paz.

Uma noite por ano, a comunidade é invadida por curiosos como eu que chegam com o mesmo desejo – assistir à tradicional cerimónia da Festa da Cruz. As rezas feitas por um padre convidado são simples e poucos os devotos. O Bar da Marli e do Quirino, ele residente nascido e criado ali, enche-se de gente que bebe guaraná fresco, cerveja ou algum suco.

Depois dessa experiência inesquecível, fiz muitas mais vezes a trilha da Praia do Saquinho. Também palmilhei outras mais difíceis como a da Lagoinha do Leste, a da Praia dos Naufragados e o Caminho do Canto dos Aráças à Costa da Lagoa. Admirei pinturas rupestres, passei por ruínas de sobrados, engenhos de moagem de mandioca e de cana do açúcar deixados pelos primeiros açorianos a povoar esta ilha. É, todavia, a preservação da natureza, a essência da beleza do oceano, das cachoeiras, do mangal e tantas outras maravilhas que nos atraem quando se caminha a pé por esses caminhos e trilhas.

Manuela Marujo

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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