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Batem leve, levemente…

Não é só a “Balada da Neve” do poeta Augusto Gil que me vem à mente quando a neve cai “branca e leve, branca e fria”. Lembro-me, em particular, do meu tio Emílio. Foi ele quem me ajudou a memorizar, com sucesso, o longo poema quando eu tinha quatro ou cinco anos. Não me foi difícil fazê-lo, pois vi nevar, no meu Baixo-Alentejo, quando tinha essa idade, num inverno que ficou memorável. 

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Sempre que nos encontramos em Portugal, seja qual for a estação do ano, eu e o tio Emílio fazemos coro e recitamos a balada. A lembrança da neve e as risadas que se seguem, são momentos preciosos. Neste dia 6 de dezembro, sem poder festejar com ele os seus 87 anos, gostava que soubesse que lhe estou grata por, em pequenina, me ter sensibilizado para a poesia e a magia da neve.

Ao cair o primeiro grande nevão em Toronto esta semana, não pude deixar de recordar o meu tio e as palavras de Augusto Gil “Fui ver. A neve caía/ do azul cinzento do céu/ branca e leve, branca e fria… /Há quanto tempo a não via!/E que saudades, Deus meu!”.

O nosso longo inverno canadiano serve de motivo de conversa para andarmos sempre atentos ao boletim meteorológico, porque precisamos de estar preparados com roupa e calçado adequados. Serve também para constantemente nos queixarmos do mau tempo, justificando assim as escapadelas curtas ou longas para países com clima tropical, onde podemos disfrutar do sol e do calor.

A verdade, porém, é que quando chega o inverno, e caem os primeiros flocos, parecemos crianças deslumbradas a contemplar a transformação da paisagem. É impossível não ficarmos sensibilizados com a magia da brancura que tudo cobre e envolvendo em mistério o que nos era familiar.

A cidade de Toronto tem parques com colinas e vales, lagoas e lagos, bosques com abetos, pinheiros e outras árvores de grande porte– em suma, temos o privilégio de poder, a alguns passos de casa ou do trabalho, contemplar a natureza.

Na Baixa da cidade, com os seus prédios antigos e modernos, estátuas e outras obras de vários artistas, a transformação é fascinante. Mantos brancos, coroas e chapéus cobrem as construções de betão, o bronze, a madeira e o plástico, ao ponto de apenas vislumbramos pequenos pormenores, tentando adivinhar as formas. É uma descoberta constante e maravilho-me com isso.

Quem mora ou tem casa fora da cidade vivencia experiências ainda de maior beleza. Onde passo os fins de semana há uma floresta que no inverno fica ainda mais bela.  Quando acontece um desses nevões em que a neve fofa fica suspensa, e o sol cintila nos ramos dos pinheiros cobertos de branco, não se deve quebrar o encanto com palavras. Fico quieta e silenciosa a encher os olhos e o coração da pureza dessa brancura de linho.

Tenho pena de ter vindo para o Canadá numa idade e circunstâncias que não me permitiram tirar partido de passatempos como esquiar, patinar ou outros desportos de inverno.  Contento-me em ver a alegria de crianças, jovens e adultos a patinar no ringue da Câmara Municipal ou no Harbourfront! Para pessoas que vieram de países onde a neve nunca cai, a cidade de Toronto é um sonho tornado realidade, não obstante as temperaturas baixas que fazem cair a neve branca, leve e fria.

Manuela Marujo

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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