Viagens

Amazónia: Os poderosos rios e a floresta

Fazer um passeio de barco para conhecer um pouco da imensa Amazónia era um sonho antigo. Embarquei, no porto de Manaus, num navio da companhia Iberostar para um cruzeiro de três dias e quatro noites.
Navegámos no Rio Negro, e, no regresso, descemos até ao “encontro das águas”, onde se junta ao Rio Solimões e, a partir daí, é chamado de Amazonas.

Achei linda a saída de Manaus ao pôr do sol, com a catedral do século XVII, branca e amarela junto ao porto, e a passagem debaixo da longa ponte Jornalista Phelippe Daou. Nada me preparou, porém, para a grandeza e o exotismo que iria desfrutar durante os dias do cruzeiro.

Porto de Manaus
Porto de Manaus

O rio Negro deve o nome à água escura do leito que, sem qualquer ondulação, parece um espelho. A subida das águas, por ser época das chuvas, permite-nos observar ilhas inundadas e árvores meio submersas, que irão sobreviver durante meses, sem serem afetadas na sua vitalidade. Foi-me dito que as águas desse afluente do Amazonas são daquela cor devido aos resíduos da sedimentação das plantas e dos minerais, resultado dos ácidos húmidos e fúlvidos da decomposição do húmus do solo que escoam lentamente para o rio.

Na manhã do primeiro dia, em lanchas apropriadas, deixámos o navio para dar um passeio pela região do Igarapé Jaraqui, acompanhados de um guia experiente. Fizemos uma trilha de duas horas pelo interior da floresta, e fomos sendo informados como os indígenas usam as plantas, flores e frutos essenciais para viver e sobreviver dos produtos da natureza. Deles produzem antídotos naturais para picadas ou mordidas de insetos e cobras. De tarde, demos um passeio de lancha pela região de Três Bocas que faz parte do arquipélago de Anavilhanas, o segundo maior arquipélago de água fluvial do mundo. Vimos tucanos, araras e, no regresso, já escuro, os olhos brilhantes de muitos jacarés.

No dia seguinte fomos conhecer a região do Igarapé Trincheira, e observar de perto os botos (golfinhos cor de rosa) em Novo Airão, que nos comovem com a sua simpatia e na forma como interagem connosco. Ao caminhar nas trilhas, junto às margens, veem-se cipós, palmeiras e árvores muito altas refletidas nas águas cintilantes. De vez em quando, surge um macaco, preguiça, papagaio e aves cujos nomes não consegui fixar.

Senti-me meio constrangida quando fomos conhecer uma comunidade indígena no Rio Culeiras, onde vivem cerca de 100 pessoas. Recebidos pelos líderes, foram-nos depois mostrados a escola, o posto de saúde, a casa da farinha de mandioca e as plantas medicinais. Quando dançaram para nós, em trajes pretensamente autênticos (observei, por exemplo, os saiotes feitos de folhagem artificial), aceitei que o turismo é uma forma de vida para essas pessoas.
No terceiro e último dia do cruzeiro, levantei-me de madrugada para ir de lancha observar o nascer do sol no meio do rio. O silêncio e as imagens deslumbrantes ficarão guardados na minha memória para sempre.

Houve oportunidade para a pesca da piranha, e ainda para conhecer uma comunidade cabocla que se dedica ao artesanato. No fim da visita, banhámo-nos numa pequena praia de areia branca e macia, nas águas amenas do Rio Negro.

O imperdível “encontro das águas” deu-se ao amanhecer do último dia. O Rio Solimões barrento e mais forte junta-se ao Negro. A diferença de densidade e cor da água dos dois necessita de um percurso de 10km para deixar de se distinguir. A visão insólita dessas duas poderosas correntes de água, quando se fundem num só leito de rio indiferenciado – o gigante Amazonas –, é realmente digna de admiração.

Numa semana, fiquei apenas a conhecer uma ínfima amostra do que é a Amazónia que, além do Brasil, se estende a mais oito países: Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Guiana, Guiana Francesa e Suriname. A grandeza da maior extensão arborizada do planeta e simultaneamente a sua fragilidade, dadas as ações de desmatamento e destruição, despertam em mim sentimentos de admiração e enorme desassossego.

Manuela Marujo

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Imagens cedidas por Manuela Marujo

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