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Vitorino: A sociedade transformou a música em “sabonetes”

Paulo Perdiz

Vitorino Salomé, o artista mais representativo do Alentejo e da sua música, considerado a voz maior do cante alentejano. A sua longa carreira conta com mais de 30 discos editados que alcançaram, na grande maioria, ouro e platina. A obra musical de Vitorino é reconhecida como uma das mais importantes, tanto pela originalidade, como pela grande qualidade estética e musical.
Emigrado em França, a fazer tudo e mais alguma coisa, um dia um amigo disse-lhe para cantar. Entretanto passaram 44 anos de canções.
Já nem sei se são 43 ou 44 de canções formalmente. Eu faço 43 anos de edição de disco, porque eu canto desde pequenino. Vivo numa terra que tem as características importantes que é o canto. O canto é um elemento importantíssimo no convívio das pessoas no Alentejo. Tenho sorte de vir de uma família de músicos e isso determinou também que eu estivesse muito íntimo da música popular e das músicas mais eruditas. Fui aprendendo com grandes mestres sobretudo como o Zeca Afonso, de quem me tornei amigo. Um mestre para mim inspirador.

Sente que é o artista mais representativo do Alentejo?
Não. Eu não sou cantor da pátria alentejana. Sou um cantor do mundo. Tenho a sorte é de ter vivido uma cultura musical muito forte que tem muito o Alentejo. Mas não é só o Alentejo…é um Portugal. Este país tem uma riqueza e uma diversidade muito grande a nível musical espantosa dada à dimensão que é pequeníssima. É um mosaico bonito de culturas, de cozinha, de vinhos, modos de estar e de falar, de sons…etc. ainda ninguém me surpreendeu a nível de governos e Estado ou até do Ministério da Cultura, um reconhecimento que somos dos países da Europa com uma riqueza cultural popular mais fresca e viva…acho que destas coisas nós todos poderíamos viver.

Considere-se um resistente da música?
Sou porque nós temos um ataque muito forte da cultura da massa, convencional ou mainstream anglo-saxónico. Este mainstream no ponto de vista de mercado, de divulgação- promoção, esmagou completamente as músicas populares do sul da Europa. Quem canta em português a partir de uma determinada altura é um resistente dessa avalanche mainstream anglo-saxónico que é de exportação e descartável. Estamos aqui neste cantinho a resistir com toda a força a tentar sempre divulgar…mas é muito difícil porque não temos dimensão.

Não tem dimensão para o seu pedaço de mundo rural que apresenta no palco?
O mundo rural é muito pequenino e está como disse dividido em bocadinhos. O mundo rural alentejano é completamente diferente do que o mundo rural doutras zonas de Portugal. Do Tejo para cima as pessoas são mais ricas porque tem mais água que é fundamental.

O tema “Menina estás à janela” é dos mais conhecidos. Sente que está “amarrado “ a esse tema ou será o tema que está “amarrado a si”?
O tema é uma moda alentejana que eu adaptei. Sim o tema de qualquer forma ficou muito agarrado à minha vida. É uma menina que não me larga. É uma canção com uma extrema qualidade como poética como melódica. Dá para viajar e imaginar, é por isso que ainda a canto.

Um tema tem tempo de vida?
Este é intemporal, vai viver para sempre seguramente.

Como vê o negócio da música em comparação há 40 anos?
Por exemplo quando comecei a cantar era quase sacrilégio colocar uma bateria ou algum instrumento eléctrico. Na altura era difícil explicar isso à sociedade neste formato de cantar. No Maio de 68 com a agitação das universidades no meio social, a viola era muito transportável e acompanhava q.b o que tinhas para dizer e o que tinhas para cantar. O grande mestre era o Zeca. Ele era muito copiado por cantores espanhóis… desenvolveu-se um certo Folk. Esse tempo que vivemos, posso lhe chamar uma vivência sonora que hoje em dia já não existe. A música deixou de ser um estado espiritual uma coisa dos povos para passar a ser um produto de grande dimensão comercial. Para que saibam nos anos 70 a música mexia mais dinheiro do que as armas. Tinha força social. Nos dias de hoje ainda tem mas ela foi sendo esmagada agressivamente pelo poder financeiro. A sociedade tornou a música como “sabonetes”.

Como foi cantar depois do 25 de Abril?
Foram dez anos de grande pedagogia das coisas e das pessoas. O povo português não estava habituado a ouvir música para além daquela que era imposta nas rádios e tv do Estado Novo. De repente, ficou livre, para o povo todas as músicas do mundo. Todos os cantores do mundo que por aqui passaram, ofereceu-se a eles toda a grande música portuguesa que estava “esmagada” pelo Estado. De repente desabrochou. Foram dez anos maravilhosos a cantá-la e a ensinar coisas e aprender.

Nos anos 80 havia mais divulgação nos Media da música como a sua?
Até aos anos 80 houve. Antes organizava-se secções de música interventiva forte e com muito coração. Lembro me que a divulgação era feita de boca a orelha e resultava nos media. Agora temos os meios todos mas a mobilização é completamente diferente.

Disco novo para quando?
Tenho três discos para sair. Para atirar para o mundo. Mas tenho tido dificuldade com as Majores. Tenho feito com edição de autor mas são mais incapazes de se promoverem do que com uma editora por trás. As grandes editoras têm nas suas mãos os media. A Media não se disponibiliza para mim individualmente.

A 9 de Junho de 1994 foi feito Oficial da Ordem da Liberdade.
Até tenho a medalha neste momento ao peito (risos). Reconheceu-me a mim e a outros companheiros meus. Sérgio Godinho , o Zeca ( a família dele não quis receber porque era uma condecoração abrilista, criada depois do 25 de Abril). Claro que senti honra…qualquer dia volto a colocá-la ao peito (risos).
Mensagem para o Canadá.
Gosto de ver em Toronto as ruas com nomes em português, tascas, tabernas e ver os portugueses ao canto numa pose bem portuguesa. Eu conheço os portugueses só pela pose…sei logo ver de que região são. Tenho essa capacidade. Isso vê-se calmamente numa rua de Toronto. Nunca deixem de falar português em casa…somos ricos em tudo, o português é das línguas mais faladas no mundo. Falem ou cantem nesta nossa língua.

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