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Homo Sapiens ou Homo Predador? A escolha é nossa

Vou mantendo o hábito de, ao longo dos anos, ver o programa de entrega dos Óscares. Foi o caso de domingo passado. É um espetáculo longo e por vezes entediante devido aos discursos e a algumas tiradas pouco felizes por parte dos apresentadores. Mas acaba por valer a pena e haver sempre algo memorável a reter. Desta vez, a atribuição dos vários Óscares de melhor filme, ao filme coreano “PARASITAS”, a primeira vez que um filme estrangeiro obteve tanto reconhecimento. Foi um passo gigantesco e globalizante desta venerável instituição, que celebrou o seu 92º aniversário.

Depois de se eleger o melhor filme, e a acabar o programa, foram atribuídos os prémios de melhor ator e atriz. Joaquin Phoenix, que conquistou o primeiro no filme “Joker”, tocou-me profundamente com o seu discurso de 3: 27 minutos. Começando num tom globalista, em que enumerou todos os tipos de injustiças que cometemos uns contra os outros como humanos – baseadas na discriminação sexual, no racismo e na homofobia -, acabou por referir os que são perpretados contra os animais – a “espéciofobia”, termo da minha autoria.

A estes últimos reconhecemos alguma inteligência e sensibilidade ao sofrimento e ao afeto, mas tratamo-los como “coisas”, tendo-se a situação deteriorado com o advento da agricultura à escala industrial, a partir do fim dos anos 1800. Mantemos em gaiolas restritas animais como os porcos (que são tão inteligentes como os cães) e galinhas cujos pintos machos destruímos à nascença, e enchemos de antibióticos para não se contaminarem em ambiente de tão apertada proximidade, e crescerem mais depressa.

Joachin Phoenix deu especial destaque à vaca. Este animal – que pode durar 20 anos, como um gato de estimação -, passa a sua curta e miserável vida presa pelo pescoço sem vida de manada, constantemente prenhe e a ser ordenhada por máquinas; ao fim de cinco anos, fêmea gasta, é mandada abater. Dantes, ainda passava os primeiros tempos com o bezerro que paria, mas era tal o desgosto que ambos sentiam pela separação, chamando-se um ao outro, que passaram a ser separados à nascença para não incomodar a nossa consciência. Se for macho, terá pouco tempo de vida.

Eu, que encomendei leitão para a minha boda de casamento, há mais de trinta anos, seria incapaz de o fazer hoje. Há muito deixei de comprar carne, e hoje debato-me com o problema de como substituir o queijo e o iogurte. Sou neta de lavrador e, na quinta do Joaquim “Canhão”, havia vacas, burra, porcos, coelhos e galinhas. Todos, menos os bezerros, eram abatidos na própria quinta, para meu grande desgosto, menina estudante a passar férias em casa dos avós. Mas tudo acontecia em pequena escala, e só se comia carne em quantidade em ocasiões especiais, sendo a sopa de “misturadas” condimentada com o produto suíno da salgadeira.

A agricultura industrial foi a maneira de tornar acessível a todos a carne e os laticínios, tornando as quintas em “campos de concentração”. Passámos a poder comer esses produtos e ovos com “bacon” todos os dias, mas os mamíferos e as aves a sofrerem muito mais.

Joachin acabou o seu discurso com a belíssima frase, “podemos educar-nos e guiar-nos uns aos outros para a redenção”, que se pode aplicar a todos nós enquanto mamíferos. Durante muitos séculos não tivemos escolha, tínhamos que ser recoletores, caçar e matar. Era matar para comer ou ser morto para ser comido. Temos sido mais Homo Predador do que Homo Sapiens. Hoje só matamos e, em consequência disso, gerámos um desequilíbrio na nossa alimentação e no nosso relacionamento com certos animais. Sejamos mais sábios do que predadores nas escolhas que fizermos face aos nossos companheiros, já que somos dotados da sapiência necessária para o fazer.

Ilda Januário

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