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O artesanato português e a estilista norte-americana

De enorme riqueza cultural e de grande potencial artístico, turístico e económico, o artesanato português diverso e de enorme beleza, é largamente apreciado dentro e fora de portas, sendo por isso algumas vezes objeto de cópia não autorizada. Foi o que aconteceu à conhecida Camisola Poveira, peça de artesanato local da Póvoa do Varzim, que foi replicada sem qualquer autorização pela estilista norte-americana Tory Burch. No site da estilista podia ler-se que a camisola feita em lã branca e de fio grosso, idêntica às tradicionais inicialmente bordadas pelas mães, esposas e noivas dos pescadores, era de inspiração mexicana e resultado da criação da estilista, que a comercializa a cerca de $600.00, 10 vezes mais que o valor de comercialização das originais em Portugal.

O artesanato português e a estilista-portugal-mileniostadiumEstas camisolas decoradas a ponto de cruz, com motivos de inspiração visivelmente marítimos, para além do escudo nacional, da coroa real, onde somente é utilizada lã de cor preta e vermelha nos bordados, têm ainda a singularidade de serem bordadas com as siglas do nome das mulheres que as tecem. Esta peça que integrava o traje masculino de romaria e festa do pescador poveiro, cuja origem remonta ao primeiro quarteirão do século XIX, é uma peça de imensurável valor e de grande singularidade. São um património vivo da história das gentes da Póvoa, das mulheres que brindavam com esta camisola a alegria de ver chegar os barcos depois de longos dias no mar, rezando e tecendo, pedindo proteção para os seus maridos e filhos, à pesca, no ganha-pão, no largo e extenso mar. Foi este sentimento de luta e dor que foi ignorado por Tory Burch que replicou as camisolas plagiando a sua forma, mas ignorando a sua essência. Confrontada com a denúncia, Tory Burch terá retirado do site a informação de que se tratava de uma camisola de inspiração mexicana, “Baja Inspired Sweater”, mantendo-a ainda assim à venda.

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Jarra-Beethoven-1895 – Créditos: DR

Para além da camisola poveira, onde até os pontos em relevo, tremidinhos e castelinhos, foram replicados nas golas, punhos e cós, Tory Burch plagiou também uma das peças mais emblemáticas do artesanato português. Falamos das peças em faiança de Rafael Bordalo Pinheiro, que replicam folhas de couve em conjuntos de chá e café, bem como em pratos e travessas de mesa. Arriscando mais uma vez a usurpação de um património que nos é tão caro, a estilista brindou os seus seguidores com as belas peças de Bordalo como sendo suas. Estas peças, de inspiração de um dos personagens mais relevantes da cultura portuguesa oitocentista, com uma produção notável, designadamente nas áreas do desenho humorístico e satírico, tão largamente difundidos no seu jornal “António Maria”, “crónica da vida política, vida social e artística portuguesa”, mas sobretudo notável pelo esplendor do seu traço e comunicação. De espírito inquieto e personalidade interveniente, Rafael Bordalo Pinheiro, irmão do não menos talentoso pintor, Columbano Bordalo Pinheiro, este mais recatado e sombrio, era um homem alegre, comunicativo, talvez até tendo aguçado esta sua característica nos anos em que viveu no Brasil.

Diz-se à luz dos dias de hoje que a sua obra revela tal criatividade e genialidade que foi singular no seu tempo e abordagem. Tendo criado os dois irmãos, em 1884 funda a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, onde criou obras de forte expressão plástica, jarras, pratos, travessas, perfumadores, lavatórios, todos eles com forte inspiração na fauna e na flora. Rafael ganha mesmo vários prémios pela sua criação artística e em Saint Louis, nos EUA, conquista até uma medalha de ouro com uma das suas obras, a majestosa Jarra Beethoven. A sua obra chegou aos nossos dias estando a Fábrica de Faiança das Caldas a laborar, dando vida à criação do génio.

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Camisola Poveira – Créditos: DR

Com museu na cidade de Lisboa, onde podemos encontrar os seus trabalhos de cerâmica, decoração, design, desenho de humor, banda desenhada e ilustração, a sua obra continua atual e singular, tal como reconheceu Tory Burch ao copiar e vender como suas algumas das criações de Bordalo. Este homem notável de sorriso largo criou ainda o icónico Zé Povinho em 1895, símbolo da resistência do povo português, sempre ingénuo, modesto, sensível e um pouco desconfiado. Até hoje o Zé Povinho, com o seu gesto particular que todos conhecemos, é profusamente produzido e continua a ser uma das representações mais satíricas e cómicas do que caracteriza a essência do povo português. Este, por tão cru e verdadeiro, não foi motivo de cópia da estilista Tory Burch! Na coleção para casa, a estilista vende peças em cerâmica com inspiração na natureza, mais precisamente em alimentos como vegetais, muito parecidas com as míticas e centenárias louças Bordalo Pinheiro. Acreditando que as queixas apresentadas pelos autarcas quer da Póvoa do Varzim, quer das Caldas da Rainha, em resposta a esta usurpação da genialidade e obra alheia, sejam motivo dissuasor, para que em breve não vejamos as Sete Saias das Nazarenas à venda no seu site!

É a beleza do artesanato português e das suas tradições a embelezar o Mundo!

Luísa Silva Geraldes/MS

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