Música

Sara Tavares – Viver para cantar e sempre a chamar a música

Portuguesa e cabo-verdiana ao mesmo tempo, mas com o coração no mundo, Sara Tavares é hoje reconhecida como uma das melhores vozes femininas da comunidade lusófona. A cantora regressa agora com um novo álbum – Fitxadu.

Milénio Stadium: A Sara vive para cantar e chamar sempre a música?
Sara Tavares: (risos) A música é que vem ter comigo. Eu vivo e tenho a sorte e o privilégio de viver com esta profissão que é música. E essa coisa de chamar a música já passou muito à história, já foi há muitos anos atrás.

MS: Mas a Sara ainda é reconhecida pela menina da Chuva de Estrelas?
ST: Não. Tenho 40 anos, é uma boa idade em que já se tem uma certa história para trás, muitos amigos, muitas experiências bonitas em que sou uma verdadeira lusófona e uma verdadeira pessoa do mundo. Já não sou aquela menina do Chuva de Estrelas, nem do Festival da Canção. Desde aí, são incontáveis as viagens que eu já fiz e as viagens mais importantes foram ao país dos meus pais. As histórias e a riqueza maior vão para além da música – vão ao encontro da minha cultura, da minha verdadeira identidade que é assumidamente lusófona e não só lusa; que é a identidade não só de Camões, mas de Amílcar Cabral; a identidade de uma África que me diz muito respeito e que me fez sentir muito ligada ao mundo. Embora tenha nascido e crescido em Portugal, muitas vezes em criança quando existia alguma briga mandavam-me para a minha terra e então eu chorava muito e dizia “mas a minha terra é aqui”. Então as viagens a África fizeram-me fazer as pazes com esse assunto.

MS: Qual a razão da escolha do nome do álbum?
ST: Por acaso é uma boa pergunta. Diz-se “fitxadu” e a palavra em crioulo não quer dizer fechado, quer dizer guardado. Serve para as coisas boas que estão guardadas no nosso peito. As nossas mães, os nossos carinhos, as nossas coisas queridas ficam guardadas no nosso peito – então decidi dar esse nome a este disco. Engraçado que quase todos os meus discos têm nomes em crioulo: “Mi Ma Bô”, “Xinti”, houve um que era o “Balancê” e este de nome “Fitxadu”. E o “Fitxadu” é isso, é uma volta à música depois de oito anos sem gravar originais meus, assim um conjunto de originais todos dentro de um disco, de uma caixinha de música. Ando desde os 15 anos a fazer música sem parar, houve uma grande parte da minha vida que eu deixei para trás: a minha família, os meus sobrinhos cresceram, os meus amigos casaram, tiveram filhos e eu falhei a muitos batizados, a muitos casamentos, a muitos aniversários. Aproveitei para viver um bocadinho a minha vida e só quando senti muita vontade de fazer música, música que acrescentasse alguma coisa, porque às vezes quando não se acrescenta nada mais vale estar calado. Eu decidi fazer uma coisa que significasse, para mim, alguma coisa e eu reencontrei uma paixão, senti saudades dos músicos que tocavam comigo, senti vontade de conhecer outros músicos.

MS: Neste trabalho onde engloba muita equipa, nota-se que a Sara tem um som mais elétrico, mais eletrizado, é verdade?
ST: Sim está mais electrizado. Eu inspirei-me quer no som urbano dos dias de hoje, mas também a ir pesquisar isso, a deixar-me contaminar pelo som actual, pelos sons que a minha sobrinha ouve. Eu tenho pessoas mais jovens em casa que me vêm sempre mostrar “tia ouve lá isto, ouve lá isto” e eu tipo “é muito bom”, ou oiço qualquer coisa na rádio e estou com pessoas mais jovens ao lado e pergunto “ o que é que é isto?” e eu fico a gostar muito, e a sentir uma vitalidade incrível. Acho que os jovens hoje com a facilidade que têm em ter acesso aos computadores, às novas tecnologias, conseguiram o poder de fazer música com mais facilidade. Eles não dependem de editoras, nem de estúdios estúdios, nem de managers, nem de nada. Depois ainda fui pesquisar mais e encontrei sons muito parecidos com os sons retro dos anos 70, 60. O mundo dá voltas e voltas e inspirei-me nisso. Também antigamente nos sons, principalmente de Cabo Verde e de Angola, havia esse mesmo som urbano com as guitarras, com os teclados.

MS: Como recebeu a nomeação para o Grammy Latino?
ST: Quando me deram a notícia fiquei surpresa porque, lá está, quando as pessoas estão habituadas ao “Chamar a Música” levam tempo a habituar-se ao “Balancê”. O reconhecimento do “Balancê” vem só sete anos depois deste ter sido feito, quando eu já estou no “Fitxadu” – e o reconhecimento deste só vem um ano depois. E não foi campeão de vendas, nem passa na rádio. Então, quando vem uma nomeação para os Grammys, tem um sabor bom. Às vezes as pessoas viram lendas depois de morrerem e já cá não estão para usufruírem dos louros. Foi muito bom receber a nomeação do Grammy. Eu gostava de ter mais concertos no estrangeiro e de voltar ao Canadá.

Paulo Perdiz

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