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Lisboa e a “outra banda”

Vivi muitos anos na margem sul do Tejo. Quando em 1967, deixei Santa Clara-a-Velha, uma das aldeias mais bonitas do Baixo Alentejo, para ir estudar na Faculdade de Letras de Lisboa, foi em Almada que a minha família se fixou. Cacilhas, Cova da Piedade, Amora, Corroios, Seixal, e tantas outras localidades da margem sul alojavam os migrantes, vindos do sul que se fixavam por ali, sem precisarem de atravessar o rio para encontrar trabalho.

Grandes patrões como os dos estaleiros de construção e reparação de navios da LISNAVE (1964-1999) ou os da Siderurgia Nacional (1951-2002) necessitaram, a partir das décadas de 1950 até ao seu encerramento, de muitos milhares de operários. Muitas famílias alentejanas se fixaram, por essa razão, na “outra banda”.

Aprendi a usar o barco cacilheiro para chegar ao Terreiro do Paço e ao Cais do Sodré. Aquela viagem de cinco minutos para atravessar o rio sempre me deslumbrou, estivesse bom ou mau tempo. Nos dias de céu sem nuvens e sol luminoso, com a água azul de reflexos doirados, Lisboa surgia branca com seus telhados vermelhos atraentes. Nos dias de chuva ou nevoeiro, era uma aventura atravessar num barco que balançava, sem nos assustar demasiado, pois todos sabíamos que a distância era curta e seríamos salvos se o barco não conseguisse chegar ao outro lado. Lisboa surgia misteriosa e romântica na bruma, mal se adivinhando a cúpula da Basílica da Estrela ou a do Panteão Nacional.

De cacilheiro era fácil chegar à Baixa de Lisboa e à Faculdade. Caminhar do cais do Terreiro do Paço até ao Rossio para apanhar o metro, era uma brincadeira para as pernas jovens. Aos nossos amigos e colegas que moravam em Lisboa fazia-lhes confusão, parecia-lhes uma viagem morosa e complicada, mas nós, os da outra banda, apenas sorríamos da santa ignorância. Lisboa e Almada sempre ficaram muito perto; com a inauguração da Ponte 25 de Abril a 6 agosto de 1966, as viagens entre as duas margens ficaram muito facilitadas. Hoje em dia os cacilheiros, embora continuem a ser usados, perderam muitos utentes; só se pode fazer viagens entre Cacilhas e o Cais do Sodré e já nem se faz transporte de viaturas, que têm de vir pela Ponte.

A cidade de Almada, conquistada aos mouros em 1147, exatamente no mesmo ano que Lisboa, pelo nosso primeiro rei Afonso Henriques, conserva poucos registos de séculos antigos. Os turistas portugueses e estrangeiros procuram em Almada a estátua e o magnífico miradouro do Cristo-Rei, poucos ficando a saber, por exemplo, que está ligado a Almada o famoso Fernão Mendes Pinto, o nosso mais famoso viajante e aventureiro do século XVI, autor da obra clássica de viagens “Peregrinação” de 1538.

A “outra banda”, como nós familiarmente lhe chamamos, tem grande apelo não só para mim, mas para todos os que adoram o mar. É ali que se encontra a Costa da Caparica com o seu areal extenso de dezenas de praias protegidas por mata verdejante ou falésias protetoras. Da Trafaria até à Fonte da Telha, as praias convidam os privilegiados que se podem deslocar de carro, mas também os operários e demais povo trabalhador pois há meios de transporte regulares e acessíveis que a todos levam à praia.

Eu sinto-me com raízes almadenses, foi nessa cidade que a minha família se fixou, ao sair do Alentejo. Se não atravessar o Rio Tejo, de cacilheiro, pelo menos duas vezes parece-me que não passei tempo nenhum em Portugal.

 

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