Lifestyle

Viajar em “Low Cost”

Aida Batista

Uma das tarefas que mais me agrada fazer, de tempos a tempos, é abrir arcas, gavetas de certos móveis que há meses não são mexidas, folhear alguns dossiês onde arquivei páginas de recortes considerados importantes, dar uma vista de olhos por álbuns fotográficos a preto e branco e a cores, abrir caixas de cartas, outras de fotografias avulsas sem datas, por a catalogação continuar adiada «sine die»… enfim, na minha idade, poderia reduzir isto à frase: «gosto das minhas velharias».
Por razões, que agora não vou desvendar, passei a última semana a ver álbuns de fotografias e a abrir algumas dessas caixas. Memórias atrás de memórias começaram a saltar de cada imagem ou objeto que tocava. Apesar de todas elas me remeterem para momentos e lugares por onde vivi, passei ,e em que fui feliz, a verdade é que também me encontrei com amigos que muito cedo me deixaram. Da lista, e por razões que a própria natureza nos dá como adquiridas, retiro os familiares que partiram, cumprindo o ciclo normal de cada uma das nossas vidas.
Encontrei pilhas de envelopes com cartas e recordei selos, carimbos, datas, moradas, de tempos em que a comunicação escrita apenas se fazia em papel. Não os abri, como devem calcular, mas um deles, pela sua espessura, despertou-me a atenção. Era dirigido ao meu filho, a partir de Helsínquia, onde vivi oito anos, estando ele no terceiro ano do ensino superior. A espessura explicava-se pelo facto de ter um postal lá dentro e, a partir daí, a curiosidade foi mais forte e abri-o. Tinha o formato de uma camisa de marca Lacoste, datado de 27/02/92 e, como era duplo, permitiu-me escrever três páginas, o equivalente a uma carta.
Quase no início, encontrei a frase:
“(…) fico sempre desconsolada quando telefonas, pois compreendo que não podes gastar muito em telefone e, por isso, pouco me podes dizer.”
A correspondência epistolar tem a grande vantagem de, ao ser datada, nos dar a radiografia de um determinado tempo, mesmo quando, aqui e ali, nos aparecem sombras, que só os próprios conseguem descodificar. Em 1992, só se falava à distância por telefone, e era muito caro manter uma conversa, por muito curta que fosse. Hoje chamar-lhes-ia meros telegramas verbais. Seguiam-se outros assuntos, impondo-se os que se relacionavam com a sua vida cadémica, mas a parte mais interessante é a que, agora, passo a reproduzir textualmente:
“Como sabes, este ano é bissexto e o mês de Fevereiro tem 29 dias. Sabes qual é a tradição finlandesa? No dia 24 de Fevereiro dos anos bissextos (portanto, só de 4 em 4 anos), as finlandesas podem pedir a um homem que case com elas. Se por acaso ele recusar, é obrigado a comprar-lhe o tecido para uma saia. Não penses que é tanga! Tenho uma aluna casada, que foi ela quem pediu o marido em casamento e não o conhecia de lado nenhum. Encontraram-se pela primeira vez a 24 de Fevereiro, num bar, há oito anos. Depois de três horas de conversa, ela propôs-lhe casamento e ele aceitou. Não penses que é velha e feia. Tem 30 anos e é bem gira! É mais uma faceta finlandesa que ficas a conhecer.”
Juro que já não tinha a menor ideia desta tradição, nem fui fazer nenhuma busca à internet para saber se ainda se mantém, pelo menos em determinadas zonas da Finlândia. Sei é que me senti muito bem porque, em catadupa, recordei muitas outras tradições e, apenas com uma Lacoste a servir-me de bilhete, comecei o ano a viajar. Em “low cost” e sem carregar bagagem!

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