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Nilton – “Mr. stand-up comedy”

Nilton, um dos mais (re)conhecidos humoristas da atualidade em Portugal, que esgota salas de espetáculos de norte a sul do país, apresentou o programa 5 Para a Meia-Noite, na RTP1, mas tornou-se também conhecido pelos portugueses devido às suas participações nos programas “Levanta-te e Ri” e “K7 Pirata”, na SIC, e “As Teorias do Nilton”, na Rádio Comercial, que deu origem a um livro com o mesmo nome. Na RFM destacou-se com a assinatura das rubricas “Há pessoas que dizem subrecelente” e “Pastilhas para a tosse”. Os seus espetáculos de stand-up são, para além de um sucesso de bilheteira, sinónimo de incontido riso do princípio ao fim.

Milénio Stadium: A tua terra é Proença-a-Nova, Angola ou Lisboa?

Nilton: Eu, poeticamente, sou de todo o lado e não sou de lado nenhum. Eu realmente nasci em Angola, sou filho de pai angolano e avô angolano – não se nota muito porque eu não tive tempo suficiente para torrar, mas sou de lá. O meu pai, quando se fala em retornados, fica sempre irritado e diz: “eu nunca retornei, na verdade eu era de lá”. Depois vim para Portugal, Beira Baixa, zona centro. Estive em Proença-a-Nova até aos 17 anos e depois estive no Algarve e em Lisboa. Portanto eu, de 10 em 10 anos, sou expulso dos sítios.

MS: Foste expulso do curso de arquitetura?

N: Eu adorava ter tirado arquitetura, cheguei a ter uma empresa de design de interiores. Vou-me vingando porque vou fazendo obras e maluquices e alguns amigos cravam-me! Portanto eu, nessa parte, vou-me vingando, mas serei sempre um arquiteto frustrado. Adoro desenhar e adorava ter tirado o curso, mas acho que já vou tarde.

MS: O Bairro Alto foi uma escola para o início da tua carreira.

N: Sim, eu morava no Algarve e não havia stand-up em Portugal, as pessoas não tinham noção. Hoje em dia nós estamos num palco da Expofacic onde, na última vez que cá estive, estiveram 30 e tal mil pessoas, foi assim uma coisa brutal. Portanto, é natural que, hoje em dia, as pessoas já saibam, já conhecem o formato. Até hoje, em stand-up, eu fui o único que fui à Expofacic e atuei no palco central, mas, felizmente, corre muito bem para todos os artistas porque as pessoas já conhecem o género. No Bairro Alto, em 1998/99, ninguém fazia a mínima ideia! Era do tipo: “quem é este palhaço agora aqui, a contar umas piadas e tal?”.

MS: O humor é um estado de alma ou de espírito?

N: É um estado de espírito. Eu costumo dizer que mesmo que fosse carpinteiro seria humorista porque o humor está em ti, está no dia-a-dia. Este espetáculo, o “Falta de Juízo”, é muito isso: tu teres falta de juízo e teres humor no teu dia-a-dia independentemente de ganhares dinheiro com isso ou não. Eu costumo dizer que antigamente era só um parvo e, a dada altura, as finanças perceberam que dava para passar recibos com isto. Mas, na verdade, é um estado de espírito.

MS: É fácil criar um monólogo em palcos gigantes?

N: Não agarras a plateia tão facilmente porque há muito barulho à volta, não podes parar e é preciso estares concentrado e não te importares com a boca, com o grito. Às vezes as pessoas não têm noção, são milhares de pessoas à tua frente! Em Setúbal, na feira de Santiago, tive um maluco à minha frente a gritar, durante o espetáculo todo: “Ó Nilton conta aquela, ó Nilton conta aquela”. E eu nunca cheguei a saber qual é que ele queria!

MS: Gostas da provocação deles?

N: (risos) Gosto, acho graça. Mas, na verdade, eu estou com uma hora e tal de espetáculo na cabeça, a improvisar e tudo isso, e com uma sequência de vídeos (que este espetáculo tem muito vídeo) e está um maluco ali! Esteve uma hora e tal a gritar “conta aquela”. Isto obviamente que te distrai, mas como já tens tanta estaleca acabas por conseguir ultrapassar isso tudo.

MS: A realidade tem mais graça do que a ficção?

N: Tem muito mais graça! Eu faço muitos bonecos, gosto de fazer sketches e personagens e adoro ver o telejornal, adoro ver notícias de qualquer jornal. O nosso país é ótimo e muitas das personagens que eu faço surgem de ver pessoas no telejornal porque, na verdade, nós somos um povo muito caricaturável.

MS: No confronto que fazes ao telefone com as pessoas é necessário ter uma carga mental e de improvisação terrível.

N: (risos) Sim, mas eu adoro isso. Os telefonemas dão muito trabalho, as pessoas não têm noção. Um dia inteiro, às vezes! Estou cinco ou seis horas para conseguir um bom telefonema, dá um trabalhão doido. E o gozo que me dá é, precisamente, a rapidez de raciocínio que tens de ter, tens de estar muito atento. Eu costumo dizer que os telefonemas são uma sessão de hipnotismo, em que eu adormeço a pessoa, consigo trazê-la para um sonho e depois é tentar que ela não acorde, manipulá-la para que ela esteja nesse sonho.

MS: E como é que tu reages quando não tens piada?

N: É seres honesto com a plateia. Tu não consegues chegar a uma sala e enganar a plateia. Percebes perfeitamente, não há nada que consiga enganar! Portanto, muitas vezes testo: atiro uma piada que funcionou noutro sítio e ali não funcionou e sou honesto. Eu próprio brinco e digo “boa Nilton, continua assim que vais com uma carreira bonita por aí abaixo”.

MS: E o arrependimento, está sempre contigo? Arrependes-te de alguma piada?

N: Às vezes. Na rádio faço uma coisa chamada “Pastilhas para a Tosse” em que são “bites” da atualidade. Às vezes és um bocadinho cáustico para esta e para aquela pessoa e, obviamente, às vezes ficas triste, do tipo: “coitada da pessoa, estás aqui a cascar”. E, na verdade, até é chato. Mas faz parte, a minha profissão é um bocado isso: faço escárnio e faço humor. Tento deliberadamente magoar alguém? Não, isso não faço, não tenho prazer nenhum nisso.

Por exemplo, arrependo-me sempre quando meto no Facebook uma piada sobre futebol. Estou a publicar e penso: “qual era a necessidade agora?”, porque eu nem tenho clube de futebol tampouco, não ligo nada. Depois levas com o pessoal a “marrar” contigo e dás contigo a arranjar inimigos, e aí arrependo-me. Cada vez que clico digo: “pronto, qual era a necessidade?”.

MS: A saída do “5 para a Meia-Noite” …

N: Não há saída. O “5 para a Meia-Noite” é um ciclo, que durou sete anos. E olha que não há muitos programas em Portugal que durem sete anos! Eu, felizmente, fiquei todos os anos. Sou o único que ficou os anos todos e chega a uma altura em que é um ciclo que se fecha. A RTP queria fazer só uma vez por semana e ficou muito bem à Filomena. O ideal era aquilo ser cinco dias, como é óbvio, quatro comigo e um com a Filomena. Isso para mim era o ideal, mas não podendo ser assim eu acho que ficou muito bem entregue. É um ciclo, é uma pena não haver mais pelos artistas e pela quantidade que se produz mas, para mim, fechou-se um ciclo da forma correta.

MS: Para terminar, uma mensagem tua para os nossos leitores, por favor.

N: Pessoal, um abraço para vocês. Sei que não é fácil estar fora de Portugal, mas também não estão a perder assim tanta coisa! “Tá fixe”, mas também tem dias em que eles se passam um bocado, portanto deixem-se estar. Se estiverem aí bem, também não se chateiem. Vêm cá uma vez por ano “olha que giro o clima e tal”, mas também não é preciso “coiso”, está bem? Um abraço para vocês, estou à vossa espera ok? Não todos de uma vez porque senão depois dá confusão!


Autor(a): Paulo Perdiz
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