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Intercomunicador de cordel

 

 

Ao toque do amor,

todas as pessoas se tornam poetas.

 Platão

 

Por: Dra. Aida Batista

 

A maior parte dos que me estão a ler, devem, tal como eu, ser do tempo em que se vivia de portas abertas ou com a chave na parte de fora da fechadura. Era absolutamente normal os vizinhos irem entrando, embalados já pela pergunta «Ó da casa, está alguém?», o que quer dizer que, muitas vezes, as pessoas até se ausentavam por curtos períodos para irem fazer compras ou tratar de qualquer assunto nas redondezas.

Quando as portas se fechavam apenas com o trinco, havia também uma modalidade que era a do cordel preso ao puxador interior da fechadura e, de cada vez que precisávamos de entrar, bastava que o morador da casa puxasse o cordel para a porta se abrir de imediato.

Conheci muitas destas portas, e ainda hoje existem casas de aldeia em que os proprietários utilizam o mesmo método. Já não quando se ausentam – que os tempos não nos merecem a mesma confiança -, mas que continua a dar muito jeito quando se anda pelo quintal a jardinar ou a fazer qualquer outra tarefa, que permita ter sempre a porta ao alcance da nossa visão. Fechaduras com canhão de segurança ou dupla fechadura, com mais do que uma volta e barras verticais fixadas no chão e no batente superior da porta, não fizeram parte dos meus hábitos de menina, nem de adolescente e mesmo da primeira fase da minha adultez. Digamos que é algo com que comecei a conviver bem mais recentemente.

Ferro de engomar

Há, de facto, pequenas práticas que foram tão corriqueiras na nossa infância que nunca nos interrogámos sobre a eficácia do seu funcionamento. Por exemplo: apesar de, em Benguela onde cresci, ter visto tantas vezes a nossa lavadeira engomar com ferro de brasas, nunca me ocorreu pensar como o faziam sem que caíssem fagulhas ou cinza para cima da roupa? É certo que os abanavam de vez em quando para perderem alguma daquela que se ia formando mas, mesmo assim, de onde lhes vinha a destreza de nunca queimarem uma peça de roupa? Hoje, estas peças são muito procuradas nas casas de velharias, recuperadas e transformadas em objetos de decoração.

Estas recordações chegam-me por via de um episódio ocorrido há uns meses, quando cá tive os meus netos – dois adolescentes de 21 e 16 anos. Levava-os comigo quando precisei de tratar de um assunto com uma senhora que toda a vida fora modista. Saí do carro, dei duas pancadas com o batente da porta e, quase de imediato, apareceu um vulto por trás da porta envidraçada da varanda do primeiro andar, para se certificar de quem se tratava. Ao ver quem eu era, puxou um cordel e a porta abriu-se.

Ambos se mostraram muito surpreendidos quando lhes expliquei como funcionava aquele mecanismo, tanto mais que se tratava de um primeiro andar. E mostrei-lhes o cordel atado ao puxador, que depois seguia preso à parede, mas com folga suficiente para poder deslizar de cada vez que era puxado. Acrescentei que, tendo ela aquela profissão, não poderia estar a descer e a subir escadas de cada vez que uma cliente batia à porta.

Ficaram tão surpreendidos que me parecia estarem perante a mais sofisticada invenção tecnológica. Ou seja, a geração que já nasce familiarizada com as virtualidades do digital, é a mesma que se espanta com este ancestral mecanismo de cordel que, sem recurso a cliques ou ao toque de um dedo, permite a abertura de uma porta.

Como não podia deixar de ser, brinquei com eles e disse-lhes que estes tinham sido os protótipos dos primeiros intercomunicadores. Riram-se, mas, ainda hoje, sempre que passamos por aquela rua, identificam a casa como a do intercomunicador de cordel.

Se, para Platão, «Ao toque do amor, todas as pessoas se tornam poetas», eu diria que continua a haver muito de poético quando, ao toque da aldraba, uma porta se abre com o movimento de um cordel.

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