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Às que não tem #hashtag

Aida Batista

SOU MULHER! Uma declaração destas, e com maiúsculas, parece desnecessária para iniciar uma crónica, porque todos os leitores sabem a que género pertenço. Foi intencional porque, antecipadamente, já sei que vou levar pancada de outras mulheres, entre elas, algumas amigas minhas.
Pois bem, estou preparada! Sei que vou entrar num terreno muito escorregadio, onde não param de cair queixas e, até em Portugal, uma voz ou outra se fez ouvir. Fácil será adivinhar o tema em causa – Metoo – pois claro, movimento feminino ou feminista (como lhe queiram chamar) que, pela Time foi considerado Personalidade do Ano, em homenagem às mulheres (como se não houvesse também homens) vítimas de assédio sexual.
Como normalmente acontece na de- fesa deste tipo de causas, surge um movimento de sinal contrário, como o “ + e -” matemáticos, sem que entre um e outro exista um terceiro que traduza o bom senso. Ora, a resposta ao Metoo, foi uma carta publicada no jornal Le Monde, encabeçada pela conhecida actriz francesa Catherine Deneuve, a que se juntaram outras 99 mulheres, das mais variadas áreas profissionais, a defender o direito a ser importunado.
Perguntar-me-ão de que lado estou. Pese embora a minha liberdade de expressão e de escolha, dita-me a consciência que não estou com nenhum deles, porque em ambos encontro indefinições semânticas e laivos de fundamentalismos, para não entrar no campo do revanchismo e oportunismo. Ouvi casos que muito bem se inserem na nossa expressão “Maria vai com as outras”, numa romaria em que não se distingue o verdadeiro assédio da pura lisonja..
Como sempre gostei de me apoiar na sabedoria popular, esta diz-nos que “No meio está a virtude”. E o meio significa precisamente saber definir a zona que fica entre o assédio sexual (que é crime) e a mera brincadeira que, até pode envolver aproximação física, mas é reciprocamente consentida. O meio está também em saber a diferença entre violação e sexo consentido, que tanto pode ser uma coisa ou outra, conforme o jeito que der a uma das partes. Perdoem-me a frontalidade, mas também conheci exemplos destes, e não foram tão inocentes quanto isso, porque se transformaram num meio fácil de extorquir dinheiro.
Sejamos claros: o assédio sexual, só deve ser considerado como tal quando acontece numa relação de poder em que mulher/homem, são forçados a satisfazer exigências de terceiros, sob pena de perderem estatuto, posição social ou posto de trabalho. De igual para igual, a tentativa bem pode existir, mas há sempre maneira de a reprimir. Quem cala, consente!
Até legislação criada em 1977, existiu nos nossos registos a figura de “pai incógnito”. A ausência de parentalidade pelo lado masculino, resultou do abuso do conceito de propriedade que os homens tinham para com as mulheres: suas ou outras! Muitas das criadas de servir (como então se chamavam), foram obrigadas a dar o seu corpo a patrões e respetivos filhos, condenadas que estavam a ficar sem o próprio sustento e o da família. Vivia-se o tempo da sinonímia de “fazer a cama” e “ir para a cama”, nas lides domésticas! Muitas situações de dependência do poder (seja ele qual for) permitem que o mesmo fenómeno, com contornos diferentes, continue a existir, o que é absolutamente condenável.
Sei bem que, num passado recente, certas práticas, como: o olhar insistente e inconveniente, a linguagem brejeira, os toques e convites dissimulados, eram socialmente aceites e tolerados. Agora, de um momento para o outro, mulheres poderosas do ponto de vista económico e social, viram uma nesga aberta para confundirem tudo, e deixámos de distinguir o assédio sexual do piropo elegante, do galanteio ou do jogo de sedução.
Não duvido das queixas de muitas destas mulheres, mas conheço casos de oferecidas, que depois se arvoram em virgens ofendidas. A notoriedade e o prestígio não lhes dá o direito de tudo meter no mesmo saco. Prestam um mau serviço à causa e revelam uma enorme falta de respeito por aquelas que, pela sua fragilidade , vivem no silêncio das humilhações que nunca lhes deu voz.
São muitas e não sabem o que é um “#hashtag”!

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