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Adão e Eva no dicionário

Aida Batista

Há cerca de meia dúzia de anos, num Congresso na Universidade dos Açores, o orador convidado era o Professor Onésimo Teotónio Almeida, que não carece de apresentação por ser bem conhecido na comunidade portuguesa de Toronto.
Ao cumprimentar o público, começou por dizer: “Bom dia a todes”. Escrevi bem, é “todes”. Não se trata de gralha! Conhecendo nós a faceta humorada de quem gosta de brincar com as palavras, percebemos aonde queria chegar mas, para um outro mais desatento, ele não tardou a explicar-se: “Sintam-se saudados, sem que eu tenha de usar “todos” e “todas”.
Talvez por já ter alguma idade e uma certa familiaridade com as palavras, que me habituei a usar, sem que elas arranhassem a minha pele feminina, pertenço ao grupo das que considera ridícula esta história de rotular a morfologia das palavras e exigir que, quando esta existe no masculino, se reivindique a correspondente no feminino.
Contudo, e apesar da minha posição e opinião, vejo-me obrigada a cair na mesma exigência do socialmente correto, como acontece nas cartas de caráter oficial ou oficioso, em que não sei quem é o destinatário. Apesar da relutância, tenho de utilizar a fórmula “Exmo (a) Sr. (a)” – como o artigo escondido entre parêntesis -, não vá do lado do recetor estar alguém cujo radicalismo não admite que o seu género não seja respeitado.
Sou da geração que lida bem com as palavras, sejam elas femininas ou masculinas, e nunca me dei ao trabalho de saber quantos Adões e Evas vivem no meu dicionário. Para me ficar só por estes exemplos: a palavra Homem, em determinadas frases, significava Humanidade e, quando os altos dirigentes se dirigiam a nós como “Portugueses”, sempre me identifiquei com o povo e não com o género da palavra.
Por isso, e partilhando da opinião do colunista Miguel Esteves Cardoso, não alinho de forma alguma nestes modismos de “Portugueses e Portuguesas”, “Cidadãos e Cidadãs”, e por aí adiante. Imune a esta síndrome de exclusão, não participo nesta guerra em que a linguagem deve ser promotora da igualdade entre homens e mulheres, esquecendo-nos que existem línguas em que a maioria as palavras é do género neutro! Ora, lá ficam essas mulheres com uma arma a menos do que nós – a da língua -, o que também gera desigualdade!
Nestas lutas, cai-se depois no ridículo de surgirem situações em que as suas protagonistas revelam um total desconhecimento da gramática da língua, como é o caso das Presidentas! Se em Dilma Roussef, ainda era aceitável por ter formação académica na área de Economia, já Pilar del Rio (a viúva de Saramago) é jornalista e, como tal, tem obrigação de saber que é o artigo que determina o género, ou seja: o presidente, a presidente.
Dilma já não é presidenta, mas Pilar, pese embora todo o respeito que me merece, continua “resistenta”,”persitenta” e muito “cienta” de que, como bem “pensanta”, pode manter-se “contenta” na condição de “amanta” do cargo de “presidenta”. “Comoventa”, não é?
Vem isto a propósito de, na passada semana, ter ouvido no programa humorístico “Governo Sombra”, Ricardo Araújo Pereira fazer referência a um caso bem mais caricato. “Hesitanta”, fui ao Google fazer a busca e lá estava: Irene Montero, porta-voz do “Unidos Podemos” a discursar, introduziu no léxico feminista “porta-vozas” e “elementas”.
O humorista não perdeu a oportunidade de, perante tal disparate, sugerir que as palavras femininas deveriam ter como identificação uma vagina, ou seja, no fim de cada uma, ser acrescentado o sufixo “pipi”.
Estamos no domínio do humor, mas que o movimento feminista está a levar a questão ao extremo, está. E a pôr-se a jeito de perder credibilidade e sujeitar-se ao ridículo, também!
Pode ver o vídeo em: https://elpais.com/elpais/2018/02/09/opinion/1518204303_683402.html

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