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A fiabilidade dos testemunhos

Aida Batista

Fomos esta semana surpreendidos pela notícia da morte de Kevinttaligen, cujo corpo foi encontrado coberto de sangue, numa propriedade inglesa. O nome passaria em branco, não tivesse sido ele o detetive privado contratado pelo casal MacCann, a quem cobrou 330 mil euros, para que investigasse o desaparecimento da filha Madeleine (Maddie), ocorrido num aldeamento da Praia da Luz, no Algarve.
Todos estamos bem lembrados dos dias que se seguiram: uma tremenda mobilização policial e de meios, nunca antes vista em Portugal; o envolvimento diplomático ao mais alto nível, tendo mesmo chegado ao círculo do Primeiro-Ministro, e beneficiado da sua intervenção pública; a compaixão que despertou em toda a população vizinha, que foi solidária na dor daqueles pais, e a mais cerrada mediatização alguma vez obtida por parte de toda a comunicação social. As testemunhas mais próximas – pais e amigos do casal, que com eles jantavam nessa noite – de imediato congeminaram a tese do rapto, excluindo, à partida, qualquer outra ponta do novelo da investigação. Foi esse o primeiro caminho seguido pela polícia, que começou a receber notícias de imensas pistas falsas, que davam o paradeiro da Maddie neste ou naquele país. Sabemos que este tipo de informação não é inocente e, na maior parte dos casos, serve para eliminar outras hipóteses e desviar a atenção dos investigadores.
Funcionários do aldeamento e pessoas da vizinhança foram igualmente ouvidas, com descrições muito vagas, dado que, o ser noite e o adiantado da hora, fizeram com que a escuridão reduzisse pessoas e lugares, a vultos e sombras difusas, bem diferente do que se tivesse ocorrido à luz do dia. Passados mais de dez anos sobre a fatídica noite de 3 de maio de 2007, ainda se ouve falar, de vez em quando, de um ou outro lugar onde a menina, agora adolescente, tenha sido vista. Nada é impossível, quando o mundo já nos confrontou com casos bizarros de gente aprisionada durante anos em caves, anexos ou quintas, quando todos os davam como desparecidos para sempre. Lembrei-me deste, a propósito do que se passou comigo a semana passada, e que diz bem do que pode ser a fiabilidade de um testemunho. Morando um pouco afastada do centro, decidi ir de manhã tomar café a pé, como forma de fazer exercício. Ao passar junto do quartel dos bombeiros (moro por trás), ouvi a sirene e, quase em simultâneo, um carro a sair. Confesso: sou vizinha deles há muitos anos, mas ainda não conheço o código dos toques – se é acidente ou incêndio!
Continuei o meu caminho e, mais abaixo, logo após a rotunda que dá cesso à avenida onde se situa o café, apercebi-me de um enorme aparato de veículos: ambulância, carro e jipe da GNR e o corpo de intervenção dos bombeiros. Continuei a marcha, quando me deparei com um carro ligeiro, cuja frente se enfeixara numa árvore de grande porte. Pelos estragos, o embate não pudera ser de grande impacto, mas o suficiente para ter acionado o “airbag”, reduzido a plástico branco ao longo do tabliê, já sem a vítima lá dentro. Apesar de mais reduzida, mantive a marcha do lado contrário porque, nestas situações, os mirones são uma espécie que só atrapalha.
Falei do assunto no café e, no meu relato, a árvore ficava em frente da entrada para o Centro de Saúde. Um jovem, movido pela curiosidade, foi certificar-se e tentar obter alguma informação. Quando regressou, nada de oficial conseguira mas, em seu entender, ao contornar a rotunda, quem conduzia deve-se ter distraído ou perdido o controlo do carro que, quando entrou na reta, foi contra a árvore.
Fiquei confusa! Se fosse constituída testemunha, eu juraria perante qualquer juiz que a árvore estava bem mais abaixo!
No regresso, frente o mesmo cenário, dei-me conta de que o jovem tinha razão – o acidente dera-se logo a seguir à curva! Interroguei-me sobre a fiabilidade de tantas testemunhas que, nos tribunais, proferem afirmações como certezas. Ou seja, pode acontecer que a nossa verdade mais não seja do que uma mal elaborada construção que, a qualquer momento, pode ruir e, na derrocada, arrastar vítimas inocentes!

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