Ambiente

Terra Viva – Luzes vivas cintilantes

Das imagens mais incríveis e espetaculares da natureza é com certeza um campo cheio de pirilampos numa noite amena de verão. Incrivelmente mágico é também nadar no mar à noite e a cada braçada ou movimento deixar um rasto de luz na água, coisa que já tive a felicidade de experimentar na Praia da Costa Nova em Ílhavo, faz muitos anos. Foi uma noite mágica em que toda a família fascinadamente participou. Bioluminescência é o nome que se dá à luz produzida pelos pirilampos e por muitos outros seres vivos. As cores da luz produzida podem ir do verde (o mais vulgar), ao azul e até amarelo.

A luminosidade é usada pelos seres vivos para os mais diversos fins, pode servir como apetrecho de caça para atrair presas, para baralhar adversários e predadores, para cortes de acasalamento ou para comunicar.

Existem muitas espécies que produzem luz, desde o vulgar pirilampo, passando por peixes, polvos, bactérias, insetos, fungos, etc.. Nos oceanos é onde existem mais seres bioluminescentes, a maior parte em profundidades onde não chega a luz do Sol.

Existem inúmeras bactérias que dependem de meios aquáticos salinos para produzir luz – na maior parte destes seres vivos a luminosidade é constante, oxidando compostos químicos conhecidos por substratos utilizando oxigénio e enzimas de nome luciferases transformando energia química em energia luminosa. Ao longo da interminável viagem de adaptação evolutiva houve muitos peixes que desenvolveram órgãos que funcionam como bolsas onde essas bactérias existem: chama-se a este tipo de luminescência, bioluminescência simbiótica. Outra forma de luminescência é a bioluminescência intrínseca – alguns peixes têm órgãos conhecidos por fotóforos, que têm células especializadas na produção de luz, usando também elas enzimas para a produção luminosa. Neste caso os animais têm um controlo maior sobre a intensidade, duração e momento de produção de luminosidade.

A natureza surpreende-nos a cada descoberta ou observação que fazemos e a bioluminescência é dos mais incríveis fenómenos naturais. Este meio artigo desta semana surge na sequência de um amigo me ter enviado uma notícia sobre a diminuição aparente da quantidade de pirilampos observados – não me surpreendeu a notícia, é perfeitamente óbvio que com a redução e destruição do seu habitat, este pequeno parente dos besouros tenha a sua vida dificultada. Voltamos ao mesmo assunto: o impacto das ações humanas altera as peças deste imenso e complexo puzzle que é a nossa Terra Viva.

Em Portugal sempre existiram muitos pirilampos, porém com os incêndios, com a ausência das pequenas ervas de crescimento espontâneo (que rotulamos de daninhas), com a diminuição de humidade (essencial para este inseto), com poluições diversas, este amigo vaga-lume vê reduzida a sua possibilidade de existência.

Um dia contaremos aos nossos netos que assistíamos a espetáculos de luzinhas cintilantes em noites quentes de verão explicando-lhes que ficávamos fascinados de os vermos piscarem na escuridão, e teremos de explicar que não eram dispositivos eletrónicos, que não necessitávamos de qualquer moderna tecnologia para assistir ao espetáculo da vida, à magia da natureza, e que tristemente destruímos por incúria. Teremos que lhes explicar que por desconhecimento apagámos as luzes vivas cintilantes da Terra.

Paulo Gil Cardoso

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