Ambiente

Terra Viva: Estepes

Imensas planícies com plantas rasteiras essencialmente herbáceas, com pouca precipitação, com temperaturas baixas, solos pobres, escassez de árvores, ainda assim contendo uma biodiversidade incalculável.
A palavra estepe deriva do termo russo “stepj” que significa exatamente sem árvores. As realmente dignas desse nome e com maior dimensão situam-se na Mongólia, Sibéria e Rússia, Crimeia, Ucrânia, China e E.U.A., onde este tipo de paisagem se propaga por centenas ou milhares de quilómetros.

Porque estas zonas de planície se encontram afastadas de oceanos, a precipitação é rara, sendo o clima geralmente frio e seco, apesar de durante o verão poder haver temperaturas elevadas. Existem dois momentos anuais nitidamente diferentes: durante o inverno a congelação leva a que a vegetação se encontre como que dormente, e a estação mais quente em que a vegetação cresce e desenvolve. As árvores são raras e ocorrem normalmente apenas perto de rios ou de lagos, existindo algumas plantas com flores, sendo muitas delas espinhosas para evitar os herbívoros.

À primeira vista pode-se pensar que a biodiversidade nestes locais é reduzida, nada mais errado. Nas pradarias americanas, um tipo de estepes ligeiramente mais húmidas do que as existentes na Euro-Ásia, e onde as plantas são também mais altas, existem centenas de espécies de gramíneas, musgos, ervas, etc. As gramíneas, com as suas raízes resistentes, estão bastante bem adaptadas à ausência de água destes locais, sendo as principais responsáveis pela manutenção da vida nestas zonas evitando a degradação do solo superficial e consequente erosão pelo vento.
O animais herbívoros e carnívoros são os mais comuns, sendo normalmente animais com uma capacidade aprimorada de corrida, para se poderem deslocar rapidamente, seja na fuga a predadores ou no intuito de caçar aqueles que fogem. Os herbívoros de médio e grande porte como os bisontes, antílopes e cavalos selvagens vivem geralmente em manada, o que lhes dá a vantagem de proteção de grupo, seja para se manterem mais quentes no inverno, ou para lidarem melhor com os predadores. Os animais mais pequenos, como doninhas e ratos-toupeira vivem normalmente em tocas, pelos mesmos motivos. No topo da cadeia alimentar encontram-se predadores como aves rapinas, raposas, coiotes ou pumas nas similares pradarias americanas.

Em Portugal, na região alentejana, existe uma chamada pseudo-estepe resultante essencialmente da atividade agrícola de culturas extensivas, como o trigo, a aveia ou a cevada, e com a técnica de deixar terrenos em descanso para recuperarem a sua fertilidade, sendo os terrenos usados também nesses períodos de descanso para pastagem. Séculos desta atividade humana permitiram que muitas aves, répteis, anfíbios e mamíferos se adaptassem a este ecossistema dependente da agricultura tradicional. Especialmente as aves denominadas de estepárias atraem centenas de observadores de aves de todo o mundo ao Alentejo, especialmente na primavera. Nas zonas de Castro D’Aire e Mértola consegue observar-se a mais pesada ave voadora europeia, a abetarda. Esta ave, em contagem de 1998, tinha apenas 702 exemplares, estando neste momento protegida e em recuperação, ultrapassando já os 1300 exemplares. Os machos têm até um metro de comprimento, podendo atingir os 2,3 metros de envergadura de asas e chegando a pesar até 16Kg. Outras aves, como o sisão e o peneireiro-das-torres são também observáveis com facilidade.

Os felizardos que já estiveram no Baixo-Alentejo no mês de abril, sabem bem a beleza que é a paisagem das planícies, com impressionantes manchas de flores roxas, amarelas, brancas e todas as outras que puder imaginar. Esta pseudo-estepe é absolutamente dependente de uma específica e sustentável atividade agrícola – este ecossistema inadvertidamente criado pelo homem demonstra que por vezes as ações humanas são favoráveis à natureza. Os equilíbrios são possíveis, haja vontade e sapiência.
Desfrutemos da natureza com respeito e admiração.

Paulo Gil Cardoso/MS

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