Ambiente

Terra Viva – Espécies invasoras à boleia

Muitas espécies, de todos os reinos da natureza, espalham-se pelo planeta à boleia dos veículos humanos e das mercadorias que circulam em todas as rotas e direções imagináveis.

A difusão e propagação de muitos seres vivos, providenciadas pelas atividades humanas, constituem um problema de escala planetária que raramente aparece nas notícias. A alteração de habitats e ecossistemas é uma consequência evidente. O movimento de transportes derivado do comércio global, permite boleias nos cascos de navios, em aviões, comboios, camiões, automóveis e também nas cargas e embalagens transportadas. Milhares de espécies acabam em locais muito distantes dos seus habitats naturais, sendo que muitas têm impactos diretos na saúde pública (transmissão de doenças, por exemplo), na produção agrícola, e com certeza no equilíbrio de ecossistemas, onde as espécies invasoras competem e prejudicam as espécies autóctones, comprometendo a biodiversidade no planeta.

Exemplos são mais que muitos: insetos como a vespa asiática, a barata americana ou o escaravelho das palmeiras que, provavelmente, viajaram em cargas. Vermes como o nemátodo da madeira do pinheiro, que foi ajudado na sua proliferação na Europa pelos transportes que utilizam paletes de madeira. Bivalves como o mexilhão zebra, espécie europeia que viajou agarrada a cascos de navios para o continente americano. Bactérias, micróbios, pequenos invertebrados, ovos e larvas de inúmeras espécies, sementes de plantas, esporos, etc., viajam por todo o planeta à boleia dos nossos transportes internacionais. Caso paradigmático é a água usada como lastro em grandes navios de carga que é despejada para o mar quando não necessária e, muitas vezes, a um continente de distância do local onde foi carregada. A dispersão de espécies invasoras através do tráfego marítimo, já bastante documentada sobre moluscos, é um problema global que atualmente merece bastante atenção e estudo por parte da comunidade científica. A bioincrustração em cascos de navios abrange uma enorme quantidade e variedade de fauna e de flora marinha. É necessário que haja preocupação e medidas para contrariar a dispersão de espécies para longe dos seus habitats naturais, senão corremos o risco de uniformizar todo o planeta com as mesmas espécies, destruir ecossistemas e reduzir significativamente a biodiversidade. Em 2017 existiam mais de 100 mil embarcações comerciais no mundo.

Apenas na União Europeia em 2017 houve cerca 31 mil milhões de viagens rodoviárias de transporte de mercadorias, ou seja, 31 mil milhões de boleias disponíveis para inúmeros seres vivos – imaginamos o número anual astronómico que será a nível global em todos os tipos de transportes.

Nos dias que correm, mais uma possibilidade de pandemia assombra o mundo: também eles, os vírus, como o Coronavírus, apanham boleias nos nossos transportes. Podem chamar a estes efeitos colaterais da atividade humana – o preço do desenvolvimento. Duvido que possamos chamar desenvolvimento à aniquilação de determinadas espécies por incúria de ações irrefletidas, duvido que possamos chamar desenvolvimento à promoção de epidemias globais que causam a morte a milhares de humanos, só porque temos de continuar a vender e a faturar. São necessários controlos e regras mais sapientes nos transportes internacionais, desde desinfeção e limpeza de cascos de navios, passando por esterilizações e limpeza de produtos, embalagens e veículos de todo os tipos.

A continuarmos a agir sem uma maior reflexão e cautelas, dificilmente poderemos usufruir da natureza nos próximos séculos e milénios.

Paulo Gil Cardoso

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