Ambiente

Ilhas – ilusão de isolamento

Terra Viva

Por definição uma ilha é uma porção de terra rodeada por água, e na nossa mente surge imediatamente a imagem de isolamento. A própria palavra “isolamento” tem exatamente a mesma origem no Latim: “insula”. Porém essas apartadas porções de terra são tudo menos desligadas do mundo que as rodeia.

Apesar de muitas ilhas terem fauna e flora muito próprias e únicas, as influências e contacto com a realidade à sua volta são intensas e imensas. É evidente que muitas espécies, devido ao confinamento e proteção pela distância e barreiras físicas, existem inalteradas, evoluíram divergentemente de congéneres continentais, assim como espécies beneficiaram da separação, ao longo de milhares de anos, de situações adversas ocorridas noutras paragens e que levaram suas semelhantes ao desaparecimento.

Caso emblemático são os Lémures de Madagáscar. Esta ramificação de primatas apenas acontece em diversidade nesta ilha africana. Até há cerca de 2.000 anos viveram sem impacto humano. Atualmente, porém, estão preocupantemente ameaçados. A destruição da floresta tropical, por abate de árvores, queimadas e a substituição de floresta por campos agrícolas ameaça espécies e subespécies de Lémures. A juntar a isto, a caça para consumo humano e a captura ilegal, para o abjeto comércio internacional de animais selvagens para servirem de animais de estimação, ameaça de extinção praticamente todas as espécies. Das 111 espécies e subespécies, existentes apenas em Madagáscar, 105 correm o perigo de desaparecerem.

Na ilhas portuguesas dos arquipélagos dos Açores e da Madeira (que fazem parte da Macaronésia, a par com as Ilhas Canárias e Cabo Verde), já pouco resta da sua fauna e flora originais devido a muitos séculos de atividade humana, no entanto podemos ainda encontrar exemplos de algumas espécies endémicas. Plantas como o Azevinho dos Açores, o Patalugo, a Uva da Serra, a Ginjeira do Mato, o Folhado, a Urze dos Açores, o Cedro do Mato, o Sanguinho, o Pau-branco, a Espigos de Cedro, a Hera Açoriana ou o Louro da Terra podem encontrar-se nalgumas ilhas do Arquipélago dos Açores.

Um estudo levado a cabo por especialistas em plantas da Macaronésia da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) adianta que pelo menos 50 espécies têm algum grau de ameaça. Durante um ‘workshop’ em “Métodos de avaliação de espécies ameaçadas seguindo os critérios da IUCN” realizado em maio, em Ponta Delgada, o biólogo Luís Silva, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos da Universidade dos Açores, alertou para que algumas destas espécies desempenham um “papel muito importante nos ecossistemas porque mantêm a sua estrutura” e se forem destruídas “todas as outras deixam de existir”. Referindo ainda que algumas espécies são “muito raras” e necessitam de planos específicos de preservação, como é o caso da Alfacinha, legume da família da alface, à beira da extinção, que ainda se pode encontrar na Terceira, São Miguel, Faial, Pico e nas Sete Cidades.

Por limitação de espaço não me alongarei sobre os Açores. Olhando ao Arquipélago da Madeira, e referindo também alguns animais da já referida Macaronésia, destacam-se na Madeira cerca de sete espécies de aves. O emblemático pombo-trocaz (Columba trocaz) é considerado um dos exemplares mais antigos da avifauna da Macaronésia e o semeador das árvores da Laurissilva (floresta húmida composta essencialmente por plantas da família das lauráceas, endémicas da Macaronésia, com a maior área ocorrente nas terras altas da Madeira, cerca de 15.000 hectares, considerada Património da Humanidade, pela UNESCO desde 1999). Destaca-se também o Bis-bis (Regulus madeirenses), uma pequenina ave insetívora, essencial ao equilíbrio dos ecossistemas. Não poderia deixar de assinalar a Freira-da-Madeira (Pterodroma madeira) que nidifica no Maciço Montanhoso, exclusiva da Ilha da Madeira e que é uma das aves marinhas mais ameaçadas do mundo.

Com a dispersão e colonização irracional da espécie humana o isolamento de uma ilha passou a ser ilusão. Para preservar a vida da Terra temos de conhecê-la, percebê-la, admirá-la, e acima de tudo respeitá-la.

Paulo Gil Cardoso/MS

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