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Aquecimento global. Mal de muitos, bem de alguns.

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Muito se fala sobre a perda de biodiversidade com o aquecimento global, será porventura uma consequência, mas onde uns sentem dificuldades, outros prosperam.

Algumas espécies estão em franca expansão devido ao aquecimento generalizado da Terra, sendo as medusas e alforrecas um exemplo evidente. No Oceano Pacífico, a frota de pesca japonesa tem dado conta de imensas populações de alforrecas que têm dificultado a atividade piscatória, tanto pela ausência de peixe, pela ocupação massiva dos mares por esses seres, como pela contrariedade de virem em grandes quantidades nas redes. As Nomuras, águas-vivas gigantes dos mares do Japão, têm provocado o rebentamento de inúmeras redes de pesca, provocando enormes prejuízos. A ocupação de espaço por uns, reduz a possibilidade de expansão de outros. Muitas espécies de peixes, que já veem a sua proliferação dificultada devido ao aquecimento e acidificação das águas, ainda têm de lutar por espaço, alimento, e fugir aos urticantes e mortais tentáculos desses cnidários.

A proliferação de medusas, além do impacto sobre outras espécies, tem também impacto em muitas atividades humanas. Em julho de 2011 os reatores da central nuclear de Torness na Escócia tiveram de ser desligados devido à quantidade massiva de águas-vivas na captação de água para os sistemas de refrigeração. Já em janeiro deste ano, apenas em sete dias houve 857 acidentes com banhistas nas praias brasileiras de Santa Catarina, devido ao contacto com alforrecas.

Animais como as baratas, mosquitos e ratos, prosperam com o calor, e com eles, vírus e bactérias. Nas últimas décadas, parasitas (plasmodium) como os causadores da malária, o vírus do Nilo, o vírus do Dengue, são detetados e provocam mais casos, cada vez mais em latitudes afastadas do Equador e dos trópicos.

Na edição do Milénio Stadium de 22 de novembro de 2019, dediquei um artigo a um vírus que só existia no Oceano Atlântico e que desde 2004 passou a proliferar também no Oceano Pacífico (www.mileniostadium.com/vida-vidas/ambiente/terra-viva-lontras-do-alasca-com-virus-do-atlantico/), recordo aqui uma passagem dessa publicação: “O Morbillivirus, vírus da cinomose, também conhecido como vírus da “esgana” nos cães, e que afeta outros animais, no caso de focas e lontras na variante “Phocine morbillivirus” (PDV), até há poucos anos, apenas infetava mamíferos marinhos do Atlântico. Em 2002 ocorreu um grande surto no Atlântico, durante o qual morreram cerca de 21,700 focas, essencialmente nos estreitos de Kattegat e Skagerrak, entre a Suécia e a Dinamarca. Apenas dois anos depois foram detetados anticorpos em mamíferos marinhos no Alasca e no ano passado foram encontradas centenas de focas vítimas deste vírus na costa americana do Pacífico. Cientistas suspeitam que esta propagação está relacionada com o derretimento dos gelos do Ártico, provocado pelo aquecimento global e consequentes alterações climáticas (…)”

Com o aquecimento global haverá condições propícias a espécies mais adaptadas ao calor ou com a capacidade de se adaptarem mais rapidamente às alterações dos habitats.

À medida que a temperatura vai aumentando, as faixas de climas temperados e frios irão diminuindo, obrigando as espécies adaptadas a esses climas a deslocarem-se para mais próximo dos polos, ficando o seu espaço vital cada vez mais reduzido. Enquanto isso, outras espécies proliferarão nos novos espaços onde as temperaturas aumentaram e condições climáticas se modificaram. Todo o ambiente e ecossistemas se irão alterando, sejam plantas ou animais, florestas, desertos, pradarias ou glaciares, se alterarão. A colonização de novos territórios por outras espécies, dependerá das suas capacidades de adaptação e mobilidade, de competição em novas áreas com outras espécies, mas isto terá de ocorrer em pouco tempo (considerando as escalas de tempo que a vida tem tido para a adaptação até aqui). As estações e sazonalidade, os ciclos de reprodução, acasalamento, migração, tudo está em profunda e rápida mudança, de imediato, nas próximas décadas, uma em cada quatro não conseguirá adaptar-se e extinguir-se-á. Esta é a obra humana.

Paulo Gil Cardoso/MS

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