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Quando o racismo e a discriminação se sentem à flor da pele, a dor penetra. É funda porque as feridas têm séculos de história. Reavivam a cada olhar enviesado, a cada expressão de desprezo, a cada atitude orientada pelo preconceito. E depois há o medo, a raiva, o desespero. Não há forma de entender porque um ser humano considera o outro inferior, menor… só pela circunstância de ter uma cor de pele diferente.

  • Carlos Ferraz

Milénio Stadium: O que significa racismo para ti?

CF: O racismo como ideologia não pode ser visto como uma condição natural. Ela não vem sedimentada no nosso DNA. Ninguém, mas absolutamente ninguém, nasce racista. As pessoas tornam-se racistas porque o fator meio à sua volta como geografia, cultura, meios de comunicação, instituições, religião e muitos mais fatores influenciam essas mesmas pessoas em direção e/ou mesmo a abraçar as ideologias do racismo. O racismo é uma condição que é o resultado de uma engenharia de caráter social. A sua doutrina ideológica assenta na ideia e princípios de que dentro da imensidão da complexidade e variedade do mosaico humano a cor da sua pele, a cor de seus olhos, do cabelo e muitos mais fatores por si só, os tornam superiores em relação a alguns ou mesmo todos os demais seres humanos. Logo, a eliminação dos alicerces de construção das doutrinas da engenharia social do racismo e que consequentemente sustentam e alimentam tais ideias requer de todos e qualquer um de nós um empenho e compromissos sociais coletivos e individuais. Só assim é possível pensar que possamos ser capazes de inverter a trajetória de tais políticas para que possamos criar um ecossistema social mais abrangente e também mais inclusivo para todos e aonde ninguém se sinta discriminado.

MS: Será que ainda existe racismo?

CF: Dois dos fatores ou denominadores mais comuns na perpetuação do racismo são sem dúvida a intolerância e a discriminação. Sem dúvida, são dois fatores ou catalisadores que estão intrinsecamente ligados pelo cordão umbilical ao racismo para e na propagação da intolerância e discriminação. Talvez sejam as duas ferramentas sociais mais cruciais na perpetuação da existência do racismo.  Talvez se possa mesmo dizer que sem esses dois ingredientes na nutrição da consciencialização de quem professa e acredita na superioridade de um grupo sobre outrem, talvez o racismo não existisse.  Seria quase impossível porque não haveria como alimentar o sentimento de ódio que conduz e impulsiona ao racismo. 

MS: A intolerância/discriminação no seu dia a dia

CF: Embora maior parte das vezes o racismo seja ocasionado pela cor da pele, qualquer um de nós pode ser afetado ou ser vítima de outros tipos de racismo como o racismo político e económico que também acaba segregando de uma ou de outra forma.  Por exemplo, um sem-abrigo de cor branca independentemente da cor de sua pele também pode facilmente ser vítima de intolerância e discriminação social e económica porque acabará recebendo o mesmo desprezo que qualquer outra pessoa de cor preta ou outra etnia na mesma condição que a sua. Talvez uma das formas para que se elimine será a aplicação de reformas sérias e sustentáveis.  Reformas como revisões editoriais dos livros, sistema social de educação que vão desde os livros de ciência aos de sociologia aos de história, por exemplo, é uma necessidade.  E onde as outras etnias possam se ver representadas como contribuintes da nação e da história da humanidade como termo de referências, por exemplo.


  • Pedro Malungo

Milénio Stadium: O que significa racismo para ti? 

PM: Infelizmente, muitos já morreram e alguns irão ainda morrer, pois não há nenhuma vacina nem remédio eficaz. No entanto, as medidas preventivas que se adotaram (distanciamento social, lavar as mãos com sabão mais frequentemente, máscara facial, gel desinfetante, etc.) certamente tiveram um impacto positivo, na contenção do vírus. Por outro lado, também se implementou a quarentena domiciliária. Mas, entretanto, a economia parou! As nossas vidas foram perturbadas, as nossas despesas não pararam. A questão agora é: por quanto tempo podemos viver sem pagar as nossas despesas? Por agora, este é o dilema e a vacina não parece estar num horizonte próximo. É extremo dizer-se que iremos “morrer da cura”, mas é um facto que muitos já entraram em depressão…e nem seis meses se passaram desde que a economia parou. Este quadro é alarmante, senão assustador!

MS: A intolerância /discriminação no seu dia a dia

PM: Mantenho-me ocupada, tanto quanto possível: lendo, estando em contacto frequente com família e amigos, fazendo uma caminhada de 30 minutos por dia, ouvindo música, assistindo documentários educativos, meditando, ajudando quem precisa da minha ajuda sem a minha presença física, etc.

MS: Como acabar com o racismo?

PM: A história do mundo foi forjada e manipulada para apagar vestígios das civilizações negras. O mapa geográfico usado vastamente no mundo deveria refletir a verdadeira dimensão de África, tanto em extensão como em diversidade, pelo simples fato de ser também o berço da negritude. Como acabar com isto numa sociedade que foi criada simplesmente com valores do homem branco europeu? A mudança não vira se continuarmos fingindo que está tudo bem, se não apontarmos os erros e se não começarmos a exigir inclusão e diversidade em todos os níveis e áreas da sociedade.

Francisco Pegado/MS

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