Temas de Capa

Vô Chico

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Vô Chico e @kika.pt – Foto: DR

É muito difícil para mim escrever sobre o tema de capa desta semana. Há memórias que me incomodam muito: por um lado são as mais bonitas de sempre, por outro transportam-me para um lugar de saudade tremenda que dói no peito. Mas dói mesmo.

O meu avô Chico é das pessoas mais importantes da minha vida. Sempre foi, sempre será. Cuidou de mim da melhor forma possível. Sempre. Disponível a todas as horas, para tudo. Sempre.

O meu avô Chico era só meu. Sou filha única e, para ele, única neta. Mas ele nunca me fez sentir sozinha. Proporcionou-me uma infância maravilhosa e pela qual serei eternamente grata.

Se eu fechar os olhos, ainda consigo ouvir o som da paz da eira dos meus avós, onde com ele construía as “cabanas dos índios” com os paus de madeira usados para puxar a corda da roupa para cima e uns cobertores a fazer de tenda. As minhas cabanas eram muito modernas porque ele fazia questão de me pôr um colchão lá dentro, para eu estar deitada enquanto espreitava pela frincha e o via a tratar da nespereira.

O meu avô Chico adorava palavras cruzadas. Adorava jogar às cartas. Adorava ver futebol e chutar com os pés enquanto assistia sentado no sofá. Adorava fita cola: partiu a loiça? Fita cola; Precisa subir a bainha? Fita cola. O carro tem uma luz ligada? Dois murros, apaga-se a luz, problema resolvido, e qualquer coisa: fita cola. O homem do verdadeiro desenrasca.

O meu avô Chico era um ser humano mesmo muito bonito. Era querido por mim, mas também por todos os que o conheciam e, sinto muito por todos vocês que não tiveram oportunidade de o conhecer.

Quando numa madrugada a minha avó telefona aos gritos, dizendo que o meu avô estava a morrer, eu não entendi o que se passava. Tinha 16 anos, já tinha capacidade suficiente para entender. Mas creio que nos primeiros instantes eu escolhi não entender. Quando lá chegámos, em pouquíssimos minutos, os meus pais acharam melhor eu não entrar no quarto, então fui eu que, naquela noite escura, fui para o fundo da rua para orientar a ambulância que estava perdida. Viver numa aldeia tem destas coisas. Minutos transformaram-se em horas na minha cabeça. Uma sensação difícil de explicar, mas que nunca se esquece. Fui ainda a correr gritar para que ele me ouvisse a pedir muito para ele ter força, mas infelizmente ninguém chegou a tempo. Acho que o tempo dele tinha chegado. E o meu tempo, ali, parou.

Até hoje não sei lidar com isto, mas lembro-me que na altura, uma psicóloga da minha escola me chamou e durante a conversa ela perguntou-me: “Acabei de ter um bebé, achas que devo evitar que o meu filho esteja com os avós para depois não sofrer como tu agora, ou achas que ele deve aproveitar ao máximo enquanto pode?” … Acho que essa é a mensagem que se transformou no meu lema de vida: fazer tudo o que posso, sentir tudo o que posso, enquanto posso. Controlar o que consigo controlar.

No final das contas, sou uma privilegiada. Tenho a sorte de poder sentir saudades de alguém que me fez tão bem. Fui eu a escolhida, não há maior honra que essa.

Catarina Balça, a “Kika” dele / MS

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