Temas de Capa

Vó Arminda

Chamava-se Arminda Moreira dos Santos: “Vó Arminda!”. São muitas e boas as lembranças que tenho da minha avó, lembranças que me levam para uma viagem a um tempo que não volta…São 6.30h numa manhã de agosto. Em modo capitão, a minha avó Arminda acorda tudo e todos para ir para a terra apanhar o milho, tinha de ser cedinho para escapar ao tórrido sol de verão. Se existe coisa que não esqueço é a voz dela, peculiar, única e marcante a acordar-me e a dizer-me: “É garoto!!! Anda que conduzes o trator… isto não é para mim é para vocês!!!!” (isto dito com um alto timbre de voz).

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Eira da vó Arminda. Foto: DR

As terras de milho da avó eram gigantes, a quantidade de milho que conseguia colher nelas era tanta que enchia a chamada “Eira da Arminda”. O que para o comum mortal não passavam de terras de cultivo, para mim eram um paraíso para ser explorado; havia lá um grande poço onde morava a “Maria da Grade”, essa mulher que raptava todas as crianças que se aproximavam do poço; era o limite. – “Ó garoto!!! Não chegues perto do poço, vem aí a Maria da Grade”. Na terra do milho chegava a hora da merenda. Havia uma trégua minha ali com coisas que eu não comia em casa, não sei o porquê, talvez o ar puro da terra ou a mesa posta no chão perto da vala de água cristalina no sombreado das árvores… o cenário diferente abria-me o apetite. Volta e meia sinto essa voz, mas sem a ter por perto.

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Avó de Paulo Perdiz. Foto: DR

Tenho saudades do seu meigo olhar e sinto falta da maneira dela dar mimo e carinho, apesar de ela nunca ter sido pessoa de o demonstrar muito. A minha avó andava muito a pé, sempre por caminhos sinuosos, contornando ladeiras plenas de odores silvestres das acácias e dos pinheiros “feridos com as latas das resinas”. Tinha uma pena muito grande de não saber andar de bicicleta, mesmo com as minhas aulas teve sempre medo de aprender. Antes de ter as mãos gretadas da vida no campo foi o mar o seu campo de cultivo. Foi peixeira com muito orgulho. Para me dar um exemplo de vida dizia-me sempre que ia a pé pela floresta e pelas encostas descalça com a canastra à cabeça cheia de peixe para vender no concelho vizinho; a lição era mais ou menos assim: (atenção, ler bem alto) “É GAROTUUU…CANDANÁDOOOO NEGROOOO!!! DEVIAS ANDAR DESCALÇO NO TOJO COM A CANASTRA NA CABEÇA COMO EU ANDEI”. Na aldeia da minha avó havia o ritual das ordenhas. De madrugada e ao final da tarde as estradas transformavam-se em romarias bovinas até à ordenha da aldeia. A Mimosa era a amiga da Arminda e a principal ferramenta de trabalho no campo. Era uma vaca muito elegante, limpa, bonita e das poucas que sabia os trajetos todos sem auxílio da dona. Quando a Mimosa dava à luz, a Arminda ficava muda e nervosa, muitas vezes até chorava de tanta alegria de ver a Mimosa a lamber o filhote, enquanto eu ficava a ver tudo escondido atrás da erguedeira de milho com o velhinho amigo Quinito, o cão branco lá de casa. Via com espanto e alegria a Mimosa a amamentar o filhote e a Arminda a preparar com rapão (agulhas secas dos pinheiros) a cama de ambos enquanto tentava, ao mesmo tempo, esconder os seus olhos marejados de lágrimas. São apenas algumas das muitas lembranças da minha avó que aqui partilho. Quando me sinto mais apreensivo olho para os retratos dela e vou visitá-la onde ela agora descansa. É bom olhar para trás. Ao escrever este pequeno texto dei por mim a sorrir e por breves momentos quase até que senti a companhia da minha Vó Arminda.

Paulo Perdiz/MS

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