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Uma solução para quando não há muita escolha

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Uma solução para quando não há muita escolha. Foto: DR 

 

As casas de financiamento alternativo não são um elemento novo na sociedade e provavelmente já se deparou com algum anúncio a tentar aliciar clientes para os seus serviços. O que é certo é que numa economia cada vez mais frágil, a sua popularidade tem vindo a aumentar. A comunidade portuguesa, e principalmente os emigrantes ilegais, utilizam frequentemente estas casas para levantamento de cheques. O Milénio Stadium esteve à conversa com um antigo ‘cliente’.

Milénio Stadium: Como é que ficou a conhecer estas casas de financiamento alternativo?

António Santos: Quando cheguei ao Canadá, estava aqui a trabalhar ilegalmente. Aí pagavam-me a dinheiro, mas tentaram convencer-me a aceitar cheque e depois trocar nessas casas, como o Cash Money… não sei se era para declararem despesas. Apesar de não ter aceitado, foi aí que me explicaram que essas casas tiram uma percentagem do valor do cheque e que como eu não pagava impostos, podia ver isso como o meu desconto. No entanto, eu já recebia menos exatamente por estar aqui a trabalhar ilegalmente, por isso nem achei que fizesse sentido, mas muita gente não tem outra hipótese. No meu caso, continuei a receber a dinheiro.

MS: Quando é que recorreu a essas casas?

AS: A primeira vez, fui à mais conhecida, ao Cash Money. Mas foi uma coisa pontual, nessa altura ainda estava aqui com estatuto de visitante e precisava de depositar o cheque do seguro devido a uma despesa médica. Como não tinha conta no banco, essa foi a forma mais rápida de receber o dinheiro.

MS: Lembra-se do que lhe pediram para fazer o levantamento do cheque?

AS: Pediram-me um documento de identificação, o número de telefone, a morada e que me recorde foi só isso. A percentagem que pediram não tenho a certeza, mas acho que era 3% do valor do cheque. 

MS: O que acha do valor que cobram para as prestações de serviços?

AS: Achei uma roubalheira, pelo menos para quem tenha que o fazer regularmente. No meu caso só lá fui uma vez nessa altura, mas achei um ambiente que inspira pouca confiança. Talvez por não estar habituado, nunca vi nada assim em Portugal, nem sei se existe. Acho que as pessoas que recorrem a esses serviços devem ser principalmente pessoas que querem enviar dinheiro para outros países porque as taxas são mais baixas, pessoas que estão ilegais, mas acho que usam como ultimo recurso, quando não querem “deixar rasto” numa instituição como um banco ou simplesmente pessoas que precisam urgentemente de dinheiro.

MS: Teve que recorrer a estes serviços mais alguma vez?

AS: Quando me legalizei, além do meu trabalho full-time, tinha outro emprego a limpar neve numa empresa contratada pela Câmara de Toronto. Nessa altura, a empresa pediu-nos o SIN Number e até viram se tínhamos registo criminal, mas pagavam à nossa equipa de cinco pessoas um único cheque em nome de uma pessoa fictícia. Depois, um dos nossos colegas tinha conta numa dessas casas de levantamento de cheques, onde pagávamos entre 2% a 3% do valor, já não me recordo… E trocávamos esse cheque por dinheiro. Naquela empresa funcionava assim, fosse legal ou ilegal, pagavam sempre dessa forma. Acho que por ser uma coisa temporária e estar, muito condicionada pelo clima, umas semanas íamos outras não era preciso. Sinceramente na altura nem quisemos muito saber, aquilo eram só umas horas e desde que pagassem tudo bem, para nós era vantajoso porque não tínhamos de descontar sobre aquele dinheiro, mesmo que pagássemos pelo serviço acabava por ser menos do que descontar para o Governo. Até porque já descontávamos no nosso emprego a full-time.

MS: E recorreu à mesma casa? 

AS: Isto já foi há uns anos, não me lembro do nome, mas sei que é uma casa mais pequena e também mais conhecida pela comunidade, foi aí que nos disseram que a percentagem era mais barata. Um dos nossos colegas legais criou lá uma conta, com os documentos dele e toda a informação. Depois a empresa dava-nos o cheque, o cheque tinha o nome da empresa e tudo certinho, mas o nome da pessoa era fictício. Depois trocávamos para dinheiro e dividíamos para cada um de nós.

MS: Acha que essas casas são bem controladas pelo Governo? Ou deveriam existir mais requisitos para recorrer a estes serviços?

AS: Para recorrer a estes serviços pedem-nos bastante informação e isso também era algo que me deixava pouco confortável, terem o meu nome, morada, número de telemóvel, até por uma questão de proteção dos meus dados.

Não sei se são controladas o suficiente pelo Governo, mas também acho que essas casas acabam por ser necessárias simplesmente para quem está ilegal e precisa de trocar dinheiro. Uma pessoa ilegal se não receber em dinheiro, ou tem que se arriscar a meter no banco e eventualmente ser penalizado pelo Governo ou tem de pagar essa pequena percentagem e recorrer a estes serviços.

MS: Acha que o sucesso dessas casas vai aumentar?

AS: Acho que vai depender da crise, mas provavelmente agora com os efeitos do vírus vão ter mais clientes. É uma solução para quando não há muita escolha.

Inês Carpinteiro/MS

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