Temas de Capa

Tudo se compra

O PAPEL DA BIG PHARMA EM TESTES CLÍNICOS

Como as empresas compram os estudos, os investigadores e, por fim, a indústria e a tua saúde.

Os dados recolhidos em testes clínicos são importantes para a aprovação de novos medicamentos e descoberta de novos tratamentos. Considerando que é a Big Pharma que garante os fundos para a maioria dos testes clínicos, as empresas farmacêuticas têm a possibilidade de fabricar resultados falsos ou esconder efeitos secundários perigosos, apenas para conseguir a aprovação do medicamento e aumentar as vendas. A cada ano que passa existem menos estudos independentes, e o custo para aprovar um novo medicamento varia entre $160 milhões e $2 biliões.

O New England Journal of Medicine publicou 73 estudos clínicos de novos medicamentos. Desses, 60 foram financiados por empresas farmacêuticas. 50 tinham funcionários de empresas farmacêuticas entre os autores e  37 investigadores tinham aceite dinheiro de empresas farmacêuticas. O que significa que a maioria das empresas farmacêuticas dominam e influenciam a informação médica que é disponibilizada ao público.

O principal motivo que leva as empresas farmacêuticas a financiar estes estudos é para garantir que cumprem as regras necessárias para que esse medicamento seja aprovado nesse país. Ao financiarem os estudos, conseguem manipulá-los para uma visão mais positiva e favorável ao seu medicamento. Com uma indústria dominada por estudos manipulados, os próprios médicos não sabem o que estão a recomendar aos pacientes. Por exemplo, o medicamento Avandia mostrou-se efetivo para a Diabetes Tipo 2, no entanto esconderam o facto que aumenta o risco de ataque cardíaco.

O CONTROLO CORPORATIVO DA ALIMENTAÇÃO

A abundância de escolha nos supermercados não passa de uma mera ilusão

Por detrás de milhares de marcas estão algumas multinacionais que controlam todo o mercado, ou seja, aquilo que comemos. A falta de jurisdição por parte do Governo conduziu ao monopólio da alimentação. A falta de competição e a compra de pequenas/médias empresas que vão aparecendo no mercado aumentam significativamente o lucro dessas multinacionais. Com o controlo do mercado, estabelecem os preços das colheitas, tendo grande impacto no setor agrícola.

O Departamento de Agricultura dos EUA estima que por cada um dólar que os consumidores pagam, apenas 11.6 cêntimos vão para os agricultores que forneceram a matéria-prima.

Sabias que apenas quatro empresas controlam 80% da oferta de cereais? E outras quatro dominam 90% do mercado de criação de galinhas nos EUA?

Antes de acreditares em algum estudo, vê quem o financia

A manipulação de estudos não se desenvolveu apenas na indústria farmacêutica. E ao longo dos anos vamos vendo as versões serem alteradas. Antes beber leite era fundamental, hoje já é prejudicial. Antigamente era a gordura que causaria o aumento de peso e problemas cardiovasculares, hoje já se vê que o açúcar tem o mesmo efeito. E sim, a tecnologia desenvolveu-se, existe um maior acesso a informação, contudo o papel de uma empresa é sempre o mesmo: ter lucro e, algumas, a qualquer custo.

Em 2015, o professor de nutrição Marion Nestle, da Universidade de Nova Iorque, reviu 168 estudos da indústria alimentar, chegando à conclusão de que 156 estudos mostravam resultados tendenciosos a favor dos interesses do patrocinador. Existe uma forte correlação entre o patrocínio e os resultados dos estudos.

Declarações recentes comprovam que a indústria do açúcar tem vindo a pagar a cientistas desde 1960 para que estes mostrassem a gordura saturada e não o açúcar como a causa de doenças cardiovasculares.

Em 2015, a Coca Cola pagou a cientistas para divulgarem a mensagem de que o exercício físico era mais benéfico para a perda de peso do que a contagem de calorias. Criou inclusive uma organização não governamental – Global Energy Balance Network – para promover essa mensagem.

Em 2016, o Supremo Tribunal dos EUA considerou que a empresa de sumos POM Wonderful apresentava uma mensagem enganosa. A empresa pagou cerca de $35 milhões em estudos para demonstrar que o consumo do sumo POM Wonderful de Romã trata, previne e reduz o risco de doenças cardiovasculares, cancro da próstata e disfunção erétil. No entanto, não existem provas dessa capacidade.

A empresa Monsanto e outras empresas de biotecnologia têm vindo a recrutar investigadores académicos, com incentivos monetários, para que estes defendam a utilização de herbicidas empregues em colheitas geneticamente modificadas. Há ainda quem os acuse de fornecer guiões específicos.

Numa sociedade onde o sucesso, o estatuto e o dinheiro assumem o ponto mais importante das nossas vidas, tudo se vende e tudo se compra. E ninguém toma tão bem conta de nós como nós próprios, daí a importância de questionarmos e pensarmos sobre assuntos tão importantes como a nossa saúde e alimentação.

Inês Carpinteito/MS

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