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Trabalhar em quarentena

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Crédito: DR

Costumo dizer que gostaria de ter nascido e crescido noutra época da história. Por volta das décadas de 70 ou 80. É um sentimento nostálgico que me vem quando ouço a música desse tempo ou vejo a cultura retratada num filme, num livro, nas artes. Esse romantismo fez-me durante muito tempo esquecer de apreciar verdadeiramente as glórias de viver na minha própria época: o século XXI.

Fico feliz que uma série de eventos recentes na minha vida tenham vindo a enraizar-me cada vez mais naquilo que é a minha localização temporal no mundo. Marcada por um florir constante de nova tecnologia, avanços na medicina, o consolidar da globalização e o sem fim de inovaçōes que criam atalhos para resolver os nossos problemas e tornam a experiência humana mais confortável. Claro, este não é o quadro perfeito. Mas é um privilégio usufruir do caminho que os nossos antepassados pavimentaram para que hoje, face ao surto de COVID-19, uma boa parte do mundo e da sociedade possa continuar a fluir. É um luxo ao qual sociedades de outros tempos não se poderiam dar ou sequer imaginar possível.

Eu senti pessoalmente essa vantagem quando, num ponto de quarentena, de lockdown, pude continuar a fazer rádio, entregar um programa diariamente ao mundo, e até escrever para o nosso jornal Milénio! Ter a possibilidade de fazer em casa tudo o que se faz em estúdio é incrível, é cómodo e uma experiência profissional desafiante. Com a ajuda da equipa, instalámos um mini-estúdio na minha secretária da sala e foi dali que saiu a emissão durante várias semanas. Em termos de organização surgiu o desafio de formular uma nova rotina em que as linhas profissionais e pessoais se fundiam, até porque a minha casa, de repente, se transformou também no meu local de trabalho. Significa que ir para o estúdio era na verdade acordar, tomar o café da manhã e ir para a sala. E que tomar um chá ou um snack a meio do dia significa dar uns passos até ao armário da cozinha. Significa que durante o programa um dos meus gatos decidiu que queria atenção e não importa se eu estou a relatar o estado do tempo para hoje ao microfone – ele até quer participar…! Significa que regressar a casa no final do dia deixou de existir e passou a ser mais um sair de casa no final do dia para poder ver um pouco de diversidade, apanhar um ar fresco. A quarentena foi boa nos primeiros dias, pois tudo era novidade! Com o decorrer do tempo, estar sempre em casa foi-se tornando naquela mesmice e, quebrando estigmas de saúde mental, o meu estado de espírito foi caindo gradualmente. É especialmente difícil para quem se debate com questōes de ansiedade ou até depressão. E um dia eu senti-me tão em baixo que decidi que não era isso que queria para mim.

Pensei em soluçōes. Tracei um plano e falei com uma amiga de longa data que me incentivou a fazer exercício físico em casa. Procurei seguir pessoas nas redes sociais que me inspiram e formulei uma lista de atividades que me fazem sentir bem, como a meditação, o yoga, ler um livro, escrever, comunicar mais com os amigos de quem sinto saudades, partilhar ideias com pessoas que me transmitem positividade, cozinhar refeiçōes saudáveis e outras práticas que normalmente me elevam. Sim, ginásios estão fechados, mas há milhares de youtubers que são personal trainers e têm vídeos nos seus canais com workouts perfeitos para fazer em casa. Assim como encontramos aulas de yoga e meditaçōes guiadas em várias plataformas de streaming. Não, não tinha em casa livros para ler, mas procurei um Kindle que me permitiu ter qualquer livro do mundo na palma da mão à distância de um clique. Não podia sair de casa para estar com amigos e as únicas vezes em que tinha contacto humano fora de casa era para ir comprar comida uma vez por semana, mas tinha o Skype, o WhatsApp, o Facebook e passei a fazer chamadas de vídeo que enganaram muito bem a saudade e a necessidade de conviver.

A tecnologia quebrou todas estas barreiras e não teria tido esta oportunidade nos anos 70 ou 80. A oportunidade de trazer o mundo até minha casa e levar a minha casa até ao mundo.

Por isso cada vez mais tenho este sentimento maravilhoso: desfrutar da nostalgia do passado ao mesmo tempo que me deixo fascinar pelo meu presente. Obrigada 2020!

Telma Pinguelo/MS

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