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“Shecession”

Quase meio milhão de mulheres canadianas que perderam os seus empregos durante a pandemia não regressaram ao trabalho em janeiro. E mais de 100.000 entraram na lista dos desempregados de longa duração – o número é três vezes maior do que em relação ao ano passado. A tendência mantém-se nos EUA e o New York Times apelidou o fenómeno de “Shecession”.  Mas será que depois de perderem o emprego o regresso ao mercado de trabalho é fácil ou nem por isso? Segundo a história a tendência é para que quanto mais tempo alguém está afastado do mercado de trabalho, mais hipóteses tem de ficar desempregado para sempre.

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Nicol Kalman, Fundadora & CEO da AIP connect desde 2007-DR

Pela primeira vez na história do Canadá, uma ministra das Finanças vai apresentar um orçamento. As expectativas são elevadas para 19 de abril e os economistas dizem que a aprendizagem e os cuidados infantis têm que ser questões centrais neste documento. De acordo com uma análise do RBC publicada recentemente, quase 100.000 mulheres canadianas em idade produtiva deixaram completamente o mercado de trabalho desde o início da pandemia. Estas mulheres já não estão à procura de emprego e os números nos homens são 10 vezes menores.

Há 14 anos Nicol Kalman despediu-se do seu emprego corporativo para criar a AIP Connect, o acrónimo de Anything Is Possible (AIP). A empresa ajuda clientes a encontrar talentos excecionais sem a ajuda de algoritmos e através de entrevistas em pessoa. Rogers, Samsung, Crayola, Tim Hortons, UPS, Maple Leaf, Kraft e Coca-Cola são apenas alguns dos clientes que fazem parte do portfólio de 500 empresas que a AIP Connect ajuda a construir as suas equipas. “Em janeiro de 2021 juntámos mais de 1.600 candidatos com quase 200 clientes, crescemos para uma equipa de oito pessoas e expandimos a nossa oferta para abranger todas as coisas de marketing, digital, análise, tecnologia, hospitalidade, parcerias e venda”, disse a empresária ao Milénio Stadium.

Agora com a COVID-19 as entrevistas são menos humanas porque acontecem virtualmente e “sem aperto de mão” e as pessoas precisam de ajuda com o networking. “Os candidatos são liderados pela emoção. A prioridade já não é o salário, as pessoas querem trabalhar para uma empresa que tem preocupações, que faz algo de bom, a ligação emocional à empresa é enorme’, conta.

Nicol diz que sempre se sentiu como uma terapeuta, mas garante que agora essa sensação aumentou ainda mais. “Toneladas de candidatos entram em contacto connosco e já perdi muitos que receberam contrapropostas. Os períodos de recrutamento são mais longos e os candidatos precisam de serviços e de ferramentas para reconstruir o seu perfil de Linkedln. A atual conjuntura é uma grande oportunidade para os life e career coaches e na AIP Connect diria que trabalhamos com o mesmo número de mulheres e de homens, a maioria entre os 20 e os 50 anos, sobretudo com ensino superior e com presença no Linkedln. Agora 50% dos meus clientes quer contratar mais BIPOC (Black, Indigenous, and people of color)”, explica.

O relatório do RBC mostra também que o desemprego feminino é maior em determinados grupos demográficos como é o caso de mulheres que são mães, jovens e novas imigrantes. Setores onde a distância física é difícil de manter e onde não é possível trabalhar a partir de casa empregavam sobretudo mulheres. É o caso de áreas de alimentação nos centros comerciais, agências de viagens, cabeleireiros, esteticistas, manicure, bares, etc. Esta é parte da explicação para percebermos o impacto desproporcional do desemprego nas mulheres.

O relatório alerta também que mesmo depois de todos os grupos estarem vacinados, alguns empregos podem não voltar porque as empresas podem tentar cortar custos e exigir menos trabalhadores. Outro dos problemas pode ser a mudança de hábitos que pode ser permanente. As pessoas habituaram-se a fazer a maioria das coisas em casa: refeições, cortar ou pintar o cabelo, fazer a própria manicure, ginásio, fazer compras online (mercearia e roupa), online banking, etc. 

As mulheres já ocupavam 35% dos empregos que corriam o risco de vir a ser substituídos por máquinas. A pandemia acelerou o fenómeno porque as empresas foram obrigadas a apostar forte nas tecnologias digitais para sobreviver. Sem pandemia o processo teria sido mais lento e poderia ter demorado anos ou décadas. O mercado do trabalho do futuro é diferente e a aposta em formação para manter as mulheres empregadas deve ser importante para a economia.

A fundadora da AIP Connect deixa-nos aqui alguns conselhos que podem ser importantes para quem perdeu o emprego. “Estejam abertos a propostas, aproveitem as oportunidades em vez de fecharem a porta porque neste momento o mercado é duro e as ofertas de emprego não são abundantes, encarem isto como uma oportunidade para se reinventarem, aprendam novas skills, façam voluntariado, reconstruam o vosso perfil de Linkedln e preparem-se para trabalhar remotamente. Antes da COVID-19 existia muito ceticismo sobre o teletrabalho, mas agora cada vez mais empresas adotaram este modelo. Twitter, Facebook, Google, etc.”, exemplificou.

Nicol acredita que os empregos do futuro vão ser mais flexíveis porque “as pessoas precisam mais do que nunca de flexibilidade” e acha que os dias de ir para o escritório vão ser cada vez menos comuns. “As empresas vão propor soluções criativas para continuar a impulsionar os negócios e, ao mesmo tempo, respeitar as necessidades pessoais dos trabalhadores mais do que nunca”, avançou.

Ficar aberto a novas oportunidades, ser otimista, tirar cursos para se diferenciar dos outros, acrescentar valor todos os dias e “can-do attitude” são elementos-chave para a especialista em recrutamento que trabalha com grandes nomes do mundo empresarial canadiano.

Joana Leal/MS

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