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Ser português no mundo

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Arte Stella Jurgen

 

Poderíamos ter aqui testemunhos de alguém a viver algures na Índia, ou na Austrália, ou na Venezuela… enfim de qualquer canto deste mundo, porque é realmente verdade – há sempre um português em qualquer esquina deste planeta. Ao que parece aos 10 milhões de portugueses contabilizados como residentes no território nacional, há que somar, pelo menos, dois milhões, espalhados por aí. Dois milhões que um dia, por circunstâncias várias, escolheram sair e procurar outra vida. Nesta semana em que tentamos entender se existem redes que os interliguem entre si e, se sim, quais são e quem as criou, falámos com dois portugueses com histórias de vida bem distintas, mas com um ponto em comum – ambos escolheram um dia partir e estabelecer a sua vida fora do país que os viu nascer. Um escolheu uma das potências europeias e, há 10 anos, optou por se instalar no centro do velho continente. Tiago Pinto Pais é atualmente um jovem empresário que se dispersa por vários setores de atividade, incluindo a comunicação social. Tiago é o proprietário e diretor do único jornal português que se publica na Alemanha – o Portugal Post. Alexandre Ascensão optou pelo calor e beleza de África e centrou aí toda a sua atividade como empresário, em Moçambique, desde há já 25 anos. Duas realidades bem distintas, duas visões do que é ser português no mundo.

Comecemos por Alexandre Ascensão que é, atualmente, o presidente da Associação Portuguesa de Moçambique. Tomou posse nessas funções no início do ano que agora está quase a findar e tem um objetivo principal para o seu mandato – recuperar a sede fazendo as obras necessárias para a tornar mais condigna e transformar a Associação Portuguesa no ponto de encontro de todos os portugueses que vivem em Moçambique. Alexandre ao falar do seu percurso de vida na antiga colónia portuguesa, explicou que depois da descoberta de reservas de gás o país mudou. Tornou-se mais aberto e foi possível “fazer a nossa vida”. Hoje é mais difícil porque também há mais concorrência, “há muitos países interessados e a olhar para Moçambique com outros olhos. Entretanto, também cresceu muito a nossa comunidade e está muito bem integrada. É uma comunidade bem vista. Já chegámos a ser 25 mil portugueses em Moçambique, agora devemos andar perto dos 20 mil.” As ligações entre a comunidade vão acontecendo, muito graças às atividades promovidas pela Associação tendo como ponto alto, há já 15 anos, a organização de “uma grande Festa de Natal” entre outros eventos. Alexandre sublinha que há uma “grande união entre os portugueses, muito estimulada também pelas redes sociais que nos permitem estar em contacto com portugueses que residem noutras grandes cidades deste país, como Beira e Nampula, por exemplo. E temos, de um modo geral, uma boa relação com a nossa Embaixada e Consulado. Podemos dizer que sim – é uma comunidade unida. Este é um país difícil. Não é fácil integrar as famílias, há várias infraestruturas que não funcionam bem – saúde, ensino, as escolas portuguesas praticamente só funcionam na Beira e em Maputo…”. Quanto ao apoio, ou à “presença” do Estado português em Moçambique, Alexandre prefere falar do apoio que devia ser mais efetivo quando um português pretende regressar a Portugal. “Com a instabilidade que se tem sentido no país, alguns raptos que têm acontecido, há portugueses que querem regressar e precisam de apoio. Porque os portugueses que andam pelo mundo, sejam empresários ou trabalhadores por conta de outrem, são sempre uma mais-valia. Têm muito saber. Porque não é fácil emigrar, não é fácil lutar diariamente contra as adversidades. Acho por isso que o Estado português devia criar programas fáceis, rápidos e menos burocratizados para acolher esses portugueses que querem regressar.”

De Moçambique voamos para a Alemanha e partimos para a conversa com Tiago Pinto Pais. Tiago tem um percurso muito semelhante a muitos dos que pertencem à chamada nova geração da emigração portuguesa. Chegou à Alemanha para fazer um mestrado, mas a vida acabou por lhe desenhar o caminho de uma forma diferente da que tinha imaginado. Fez da Alemanha a sua casa, enveredou pelo mundo dos negócios e aceitou o desafio de dirigir o único jornal português desse grande país do centro da Europa – o Portugal Post. Voltando à história de vida deste emigrante (ou expatriado, como muitos preferem ser chamados) Tiago sentiu-se atraído pela Berlim, cidade da liberdade, cosmopolita e internacional e resolveu ficar. Até que a sua vida profissional o levou para um Banco português que o aproximou da comunidade. Depois veio a oportunidade de através do jornal se ligar ainda mais aos portugueses residentes na Alemanha. Tiago afirma que há uma clara distinção entre a emigração de primeira e segunda geração, que mantém uma ligação a Portugal muito assente no folclore e nos espetáculos de música popular e a emigração mais recente que tem uma outra postura, encarando a saída de Portugal com muita naturalidade e conseguindo uma integração plena e rápida.

No que diz respeito à relação que se estabelece entre os portugueses que vivem fora do território nacional e o Estado português, Tiago Pinto Pais considera que o número de portugueses emigrados tem uma relevância política que não pode ser descurada e, por outro lado, há também cada vez mais o sentimento de orgulho pelo sucesso que os portugueses têm conquistado em todo o mundo. “O facto de a Constituição atribuir 4 lugares de deputado na Assembleia da República eleitos pelos emigrantes, de o governo ter uma Secretaria de Estado dedicada às Comunidades Portuguesas, já é uma afirmação política da diáspora. Em relação à Alemanha, relativamente a outros países da Europa, é um bocadinho o parente pobre das comunidades portuguesas na Europa. A concentração é menor, a comunidade está bem mais dispersa relativamente ao que acontece, na França ou na Suíça, por exemplo. Portanto, do ponto de vista político há muito mais atenção as essas comunidades e a Alemanha politicamente é o parente pobre.”

Madalena Balça/MS

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