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Ser emigrante não é tarefa fácil

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Foto: DR

Portugal foi tradicionalmente uma terra de emigração, desde o tempo da colonização, houve uma grande saída e os governantes nunca deram valor ao seu filho que foi obrigado a sair na procura de melhor qualidade de vida, mesmo na altura em que se enviava para a terra uma grande percentagem das poupanças.

Todos temos uma razão para ter saído do país que nos viu nascer. Eu tenho duas experiências – a de sair, quando tinha apenas 16 anos; e a de regressar e depois voltar. Emigrar definitivamente não é uma decisão fácil, não nos podemos esquecer que envolve deixar para trás família, amigos, costumes, hábitos e tudo que nos habituamos durante a nossa infância e adolescência. Mesmo na melhor altura da nossa vida sentimos sempre a saudade, ninguém pensa nas consequências no caso das coisas darem errado. Alguma vez os governantes se preocupam com a perda de um cidadão que até usufruiu do seu país para adquirir alguma aprendizagem, escola por exemplo, que o ajudou na adaptação a uma outra cultura como aconteceu com todos nós? Os governantes adoram que se saia. Alguma vez apoiaram na divulgação dos usos tradicionais que cada um traz? Nunca, se calhar alguns até esperam ser convidados com tudo pago para visitar os pobres que saíram do seu país (há instituições culturais que pagam estadia e viagem a políticos para vir cá). Qual é o lucro ou retorno que se recebe? Zero.

O português é dos imigrantes que mais dinheiro envia para o seu país. Hoje não tanto porque o papel já não rende como rendia no passado, mas os dinheiros enviados pelo emigrante ajudavam e ajudam numa grande percentagem do crescimento do país. Qual é a ligação ou ajuda do Estado português a troco do esforço de todos os pobres que se viram obrigados a sair na procura de melhores dias? Zero. Nós portugueses, uns melhor que outros, fazemos tudo para manter a nossa cultura viva por terras estrangeiras – trabalha-se horas seguidas a troco de nada e até se criam rivalidades e zangas uns com os outros, para transmitir e manter as nossas tradições, usos e costumes vivos no meio onde vivemos, no país que nos acolheu de braços abertos e nos deu muitas oportunidades. E quais são os agradecimentos que se recebem do governo do país que nos viu nascer e nos viu sair? Nenhuns, simplesmente estão de mão estendida à espera que se enviem as poupanças. Hoje é muito difícil contabilizar o número certo de portugueses a viver fora, mas bem contados são uns milhões, já são segundas e terceiras gerações. Alguns nunca mais voltam ao país dos seus pais e avós. Enquanto os pais podiam… lá iam, agora tudo se está a perder. Não houve ligação da parte política de modo a fazer com que as novas gerações se aproximassem. Não fizeram nada pelos lusodescendentes. Hoje uma grande percentagem não conhece a terra dos pais nem dos bens e pertenças e nem querem saber, tudo porque os governos nada fizeram para estabelecer uma ligação próxima das novas gerações. A tendência da emigração portuguesa é de estabilização, o que se vê é o número de saídas do país reduzir e com tendência a estabilizar, embora o número de residentes no exterior irá sempre aumentar, porque os regressos cada vez são menos, muito inferiores às saídas de Portugal.

A diáspora portuguesa no mundo constitui-se por pessoas que são um exemplo e um orgulho para a nação. Por onde passaram e se fixaram souberam adaptar-se e conviver com outras comunidades, contribuíram para o desenvolvimento dos países de acolhimento, na maior parte das vezes em condições menos boas, mas sempre de cabeça erguida para enfrentar os perigos e as dificuldades da vida. Ainda hoje, mesmo que aparentemente sem ligação, qualquer cidadão com sangue português ao ouvir o hino nacional fica emocionado. Que ninguém diga o contrário.

O meu regresso a Portugal depois de uma primeira fase de vida fora do nosso país foi embalado numa “cantiga” e nas promessas falsas dos governantes, porque na altura precisavam de pessoas e prometiam mundos e fundos. A pouco e pouco fui descobrindo que davam com uma e tiravam com duas. Mesmo estabelecido com um negócio, eu a minha família eramos vistos como ex-emigrantes, como que se fossemos de outro mundo. Muita falta de respeito. Nas repartições públicas o atendimento era péssimo. Levou muito tempo e investimento para ser reconhecido como residente, para quem se esforçou duas vezes custou muito. Passados alguns anos obrigaram-me a voltar a sair. Cheguei cá ao Canadá e vi tudo do mesmo no que diz respeito a apoios e ligações com a comunidade da parte dos governantes portugueses. Nada mudou, em certos aspetos parece que piorou.

Não acreditem em promessas falsas. Há sim senhor, verbas para apoio ao emigrante, mas não saem da gaveta.

Mesmo assim eu adoro o meu país, que me viu nascer. 

milenio stadium - augusto bandeira

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