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Ser avó, portuguesa.

Ambas absolutamente envolvidas na comunidade portuguesa, ambas muito dedicadas ao próximo, ambas mães – mães duas vezes.
Celina de Melo é avó e professora no First Portuguese. Maria Melo é avó e um dos membros mais dinâmicos da Associação Cultural do Minho de Toronto.

A conciliação do mundo familiar e do envolvimento comunitário acontece de forma quase perfeita e, por isso, tentámos perceber que repercussões se sentem na família, quando a dedicação à cultura portuguesa e movimento comunitário é tão evidente.

Celina de Melo

Milénio Stadium: O que é para si ser avó? Aquele dito popular que defende que ser avó é “ser mãe duas vezes”, tem algum fundamento?
Celina de Melo: Para mim ser avó é realmente isso – ser mãe duas vezes. Dedico-me muito, muito, aos meus netos. Apesar de ter o meu tempo extremamente ocupado, vou praticamente cinco dias por semana a casa da minha filha tomar o pequeno-almoço com eles. A minha neta, por exemplo, vem quase todos os dias a minha casa. Eu levo-a à escola e faço-lhe o almoço. Tudo é possível! Eu não me sinto cansada. Para o que realmente queremos, arranjamos sempre tempo!

MS: É mãe e avó, mas manteve sempre um grande envolvimento em atividades comunitárias – como conseguiu conciliar esses dois mundos?
CDM: No início é um bocado difícil, mas eu tenho este “defeito”: sou muito organizada e pontual. Digo sempre à minha neta – “nós não chegamos à escola às 9, chegamos às 8:45”. Eu sinto-me orgulhosa porque mesmo trabalhando, levanto-me sempre às 6 da manhã e tomo conta da escola do First Portuguese, com quase 300 alunos, e mesmo assim tenho tempo para a família.

MS: Isso só é possível porque a Celina é realmente uma pessoa que consegue organizar bem o tempo, não é?
CDM: É. Sou realmente muito organizada e isso permite-me fazer tudo! Às vezes perguntam-me como consigo e eu sinto-me até orgulhosa, porque sei que muitas pessoas não conseguem conciliar tudo. Ainda por cima o meu marido é um pouco mais velho que eu e tenho que lhe dar alguma atenção, mas tudo se consegue.

MS: Há um cuidado da sua parte em envolver também os seus netos em atividades ligadas à comunidade?
CDM: Sim, sim. O meu neto já não tanto, ele já é mais velho e já está a trabalhar, mas a minha neta ainda o ano passado fez o programa de verão no First Portuguese, por exemplo. A minha filha é portuguesa, é até secretária no First Portuguese, mas o meu genro é inglês. Ele ainda fala algumas coisas em português! Mas claro que em casa a comunicação é feita na língua que todos entendem – inglês. No entanto interessam-se muito por falar português. A minha neta até canta connosco as canções que ouve na rádio!

MS: Nota que eles se interessam mais pela cultura portuguesa do que os netos de outras pessoas, que não estão envolvidas como a Celina está?
CDM: Não posso dizer que os meus netos estejam muito, muito envolvidos. Não estão nem 70, nem 80 por cento… tenho que ser realista, talvez uns 60 por cento. Acredito é que se eu não estivesse assim tão envolvida, eles não iriam estar mesmo. Mas acredito que tem que haver um esforço por parte dos pais e, claro, dos avós para manter essa ligação à cultura e à língua portuguesa.
Mas olhe, eu não sei se foi o Cristiano Ronaldo, não sei se foi essa questão do futebol, que desenvolveu um sentimento de orgulho e vontade nos mais novos de aprender português, mas eu noto que realmente há muitos miúdos agora a querer aprender. Nem que seja para quando vão de férias a Portugal terem a oportunidade de falar com os primos e com os avós. Muito diferente do que acontecia no início, quando cá cheguei – não havia interesse nenhum em falar português. Mas ainda bem que agora isso mudou.

Maria Melo

Milénio Stadium: O que é para si ser avó?
Maria Melo: Para mim ser avó é um prazer. É uma das melhores coisas do mundo! É ser mãe segunda vez. Sinto mesmo que é ser mãe “duas vezes”.

MS: Qual é então a maior diferença entre ser mãe e avó?
MM: Quando tinha os meus filhos pequenos eu tinha que trabalhar. Há contas para pagar e tinha que lutar por aquilo com que sempre sonhei aqui no Canadá. Por isso, não tinha muito tempo nessa altura: chegava a casa já cansada, com comida para cozinhar, roupas para arrumar, preparar as coisas para que, no dia seguinte, estivesse tudo pronto para eles irem para a escola, etc. Não havia o tempo, nem a disposição, que há agora para os netinhos. Já tenho a vida organizada, as coisas estão mais calmas. Agora pronto, aqueles amorzinhos que aparecem já podem ocupar mais o nosso tempo, porque já há muito mais paciência, mais experiência… É um amor que não há explicação, não há palavras.

MS: A Maria esteve sempre envolvida em atividades comunitárias – como conseguiu conciliar a vida familiar com a função de mãe e, entretanto, de avó?
MM: Na minha opinião o mais importante é termos boa vontade. Quando temos gosto por aquilo que fazemos, há sempre tempo – conseguimos tirar sempre tempo para aquilo que queremos fazer. É possível estar num lado e no outro – eu nunca deixei a minha família pelas atividades extra das quais fiz parte e, por outro lado, também nunca deixei as coisas que eu gostava por causa da minha família. Sempre tentei estar um bocadinho num lado e um bocadinho no outro. Pode não ter sido sempre uma conciliação perfeita, mas fi-lo da melhor forma que consegui e estou feliz por isso.

MS: Há um cuidado da sua parte em envolver também os seus netos em atividades ligadas à comunidade?
MM: Sim, sim. Eu envolvi a minha neta Jéssica no rancho e, entretanto, ela pertenceu à direção da Associação Cultural do Minho. Envolvi também o meu afilhado, porque o criei como neto, andou lá no rancho também e o meu neto Damião está também integrado! Já para não falar da minha filha, que esteve lá desde nova até se casar. Eu tentei sempre fazer com que a minha família se interessasse por atividades comunitárias. Acho importante que representemos a nossa cultura aqui. Claro que estamos num país que nos acolheu muito bem, foi aqui que construímos a nossa vida, mas adoro o meu país – acho que não devemos deixar a nossa cultura para trás. O facto de estarmos noutro país não significa que tenhamos que nos esquecer das nossas origens. No meu caso, prefiro sacrificar-me, mas fazer aquilo que posso pelos dois países.

MS: Nota que eles assim se interessam mais pela cultura portuguesa do que os netos de outras pessoas, que não estão envolvidas como a Maria está?
MM: Eu acho que sim, realmente. Eu penso que por iniciativa deles não se iriam envolver. Até poderia acontecer quererem participar em certas coisas porque alguns amigos da idade deles os chamavam, uns puxam os outros, mas acho que isso, por norma, vem das famílias. Aquele gosto que os pais e avós têm de fazer parte de certas atividades é que os traz para o meio. Alguns até estão um bocadinho contrariados, mas pronto a família tenta! Por acaso, na minha situação, nunca tive que insistir com os meus – eles é que até me pediam para ir comigo e tinham aquele prazer de lá estar comigo. Neste momento o meu neto mais novo, o Damião, é que me puxa para ir! Eu agora às vezes estou mais cansada e é ele que insiste comigo para irmos – “avó, agora que eu estou lá é que tu queres deixar?”. E eu agora sinto que, tal como ele me apoiou a mim antes, tenho que ser eu a fazer isso por ele agora e ir. É assim que funciona: temos que nos apoiar uns aos outros.

Catarina Balça

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