Temas de Capa

Ser artista, em português, no Canadá

A música portuguesa no Canadá é um assunto muito subjetivo e sujeito a várias opiniões, e por isso esta semana abordamos o assunto junto de quem melhor conhece esta realidade – os artistas locais.
Tivemos a oportunidade de conversar com a fadista Clara Santos e o cantor e promotor de espetáculos em Montreal, Joe Puga.

Clara Santos

Milénio Stadium: Sei que a Clara lançou agora um novo álbum. Que expectativas tem em relação a este novo projeto?
Clara Santos – Eu acho que o principal é que o público se sinta bem enquanto o meu álbum toca, essa é a minha maior expectativa. Como artista, acho que é muito importante que eu possa trazer um certo conforto ou até que inspire aqueles que me ouvem. Através da minha arte, que é o fado, eu espero essencialmente inspirar as pessoas.

M.S.: No que diz respeito ao panorama da música portuguesa na comunidade – como classifica a recetividade que tem tido por parte do público? Tanto a nível de músicas originais, como de espetáculos.
C.S.: Sim, sim. O fado é uma área assim mais especializada, digamos – não são todos que entendem ou apreciam, isto é como o caviar (risos). Mas de qualquer forma eu sinto-me bem. Temos que olhar para cada situação de uma forma positiva e acreditar em nós mesmos, para que nos seja possível continuar e concretizarmos aquilo que desejamos. O público tem me recebido muito bem, eu acho que isso tem sido ótimo porque a verdade é que nós não somos nada sem eles.
Mas isto depende também da expectativa da pessoa. Há muito trabalho e dedicação por trás. Nada cai do céu. Eu passo horas e horas a ensaiar, de maneira a ver de que forma posso integrar-me melhor na minha arte e na nossa comunidade. Eu tenho que lhe confessar que, embora a minha experiência esteja a ser positiva, tenho consciência que quando vem, por exemplo, um artista de Portugal, é aquela alegria toda, aquela atenção toda, e por vezes o mesmo não acontece com os artistas locais. Temos que nos apoiar uns aos outros. Porque já é muito difícil manter a cultura viva aqui, no Canadá, agora se o público ainda não aderir, vai acabar tudo – só que nós, sozinhos, não conseguimos, precisamos desse apoio por parte da comunidade. Não nos é possível levar a nossa cultura para fora de Portugal, se as pessoas que estão fora de Portugal não nos apoiarem.

M.S.: A nível de rádios locais, por exemplo, sente que há apoio pelos meios de comunicação portugueses na comunidade?
C.S.: Eu acho que tanto as rádios, como televisões, têm-me apoiado bastante. Quando eu, por exemplo, organizo a minha Gala – este ano foi a quinta vez e foi especial porque lancei o meu trabalho novo – e desde o início, desde o primeiro ano, fui sempre muito bem recebida e apoiada pelos órgãos de comunicação social. Claro que nos primeiros anos foi mais difícil, mas entretanto esta Gala tem sido reconhecida e devidamente apoiada por todos os meios de comunicação social portugueses e fico muito feliz, tem sido fantástico.

M.S.: Sente, então, que o seu trabalho está a ser devidamente reconhecido pela comunidade portuguesa no Canadá…
C.S.: Acho que sim. Em termos do meu novo projeto vou ter que esperar para ter algum feedback, mas se correr como o meu primeiro trabalho discográfico – “O Destino” – vai ser muito bom. A minha paixão e dedicação é igual ou até ainda maior neste segundo álbum. Vamos evoluindo e aprendendo, tanto quanto artistas como seres humanos e eu penso que a comunidade vai reconhecer esse progresso.

M.S.: Alguma vez teve oportunidade de mostrar o seu trabalho, enquanto fadista, em Portugal?
C.S.: Eu estive em Portugal há uns três ou quatro anos e, numa brincadeira, fui a uma casa de fados e cantei lá. Claro que é muito diferente, o tipo de pressão que senti foi muito maior… Estar numa casa de fados em Portugal tem um certo peso. Eu só pensava “Ai meu Deus, eu sou do Canadá, será que isto vai dar certo” (risos). Mas correu bem… Foi só uma brincadeira! Nunca tive a oportunidade de mostrar o meu trabalho discográfico lá.

M.S.: Será esse um objetivo seu a concretizar?
C.S.: É! Vou fazer com que isso aconteça. Eu gostava de ir a Portugal cantar e também gostava de ir para aprender mais. Acho que temos sempre espaço para aprender – é essencial para melhorar e crescer.

Joe Puga

M.S.: Joe Puga, como classifica a recetividade da música portuguesa na comunidade lusófona no Canadá? Tanto a nível de músicas originais, como de espetáculos.
Joe Puga – Muito bem, o povo português, tenha nascido em Portugal continental, nas ilhas, ou nos países lusófonos, aprecia e apoia a nossa música e os nossos artistas. O público adere e em grande número, seja quando recebemos artistas de fora, seja quando sobem ao palco os nossos luso-canadianos. Certíssimo, todos gostam de música original, mas uma boa canção é sempre apreciada.

M.S.: Sente que o seu trabalho, enquanto artista, é devidamente reconhecido pela comunidade portuguesa no Canadá?
J.P.: Tenho que dar graças a Deus. Sempre tive o reconhecimento esperado, para alguém que, como eu, fala e canta a língua de Camões, por amor às suas raízes. O meu público sempre me foi fiel desde a primeira hora em que comecei a cantar. A todos agradeço de alma e coração.

M.S.: Enquanto promotor de festivais, qual o feedback que tem da comunidade portuguesa no Quebec em relação à música produzida por portugueses no Canadá?
J.P.: Não conheço todos os produtores musicais, mas aqueles com quem trabalhei, ou que fizeram as minhas músicas são de grande qualidade, aqui e pelo mundo, posso referir, como exemplo, Hernâni Raposo, foi no estúdio daquele grande mestre que foi musicado o CD Viva, o meu último trabalho. O que posso acrescentar é que temos bons profissionais no ramo musical e artístico. Todos os artistas que têm vindo cantar para o Festival são génios em palco e trazem músicas de qualidade.

M.S.: Alguma vez teve oportunidade de mostrar o seu trabalho em Portugal?
J.P.: Sim, claro, estive em S. Miguel numa tournée de promoção e também fui ao continente. Cantei na Praça da Alegria e dei várias entrevistas, uma delas marcou-me bastante, na RDPI, porque amei a forma como a radialista formulava as perguntas, com grande carinho pela diáspora portuguesa, nomeadamente pelos lusodescendentes. Nessa altura tive outros convites para apresentar a minha música no programa Portugal No Coração e noutros programas da concorrência, mas recordo-me que a companhia aérea tinha tido um valente atraso e não cheguei a tempo e horas. Felizmente sei que as portas ficaram sempre abertas, assim é a nossa televisão.

M.S.: Quais os objetivos futuros para Joe Puga, enquanto artista?
J.P.: Tenho muitos objetivos para concretizar, o primeiro é mais um desejo profundo – que haja paz no Mundo. O que quero concretizar no imediato é um novo trabalho discográfico, que está pensado, e que se quer realizado em breve. Também desejo ver concretizados outros Festivais portugueses aqui em Montreal, onde a juventude se possa reunir à volta de uma mesa e conversar, ou balancear o corpo e dançar com a nossa música portuguesa. O meu último desejo, como lusodescendente, transformado em objetivo, é dar asas ao sonho de nunca ver morrer as nossas tradições e a nossa língua pois, com tudo e bem se completa – neste grande país do Norte da América – a nossa identidade.

Catarina Balça

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