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Saúde mental na pandemia

Aprender estratégias para um melhor futuro

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Crédito: Aziz Acharki

O ano que passou trouxe ao mundo uma nova forma de ver o dia a dia. A incerteza passou a traçar-nos o caminho e milhares foram aqueles que se viram em situações de grande preocupação, tristeza, desespero, insegurança, medo e depressão. No entanto, há agora a esperança de termos, em breve, uma vida próxima de quem amamos, sem medos de abraços, sem constrangimentos nos beijos e todas as outras demonstrações de amor que, infelizmente, nos foram privadas durante estes tempos estranhos de pandemia. Mas esse “em breve” é ainda, também ele, incerto e é por isso que o sentimento de esperança é aqui tão crucial. Esperança na vacina que agora começa a imunizar populações, esperança nos bons resultados da ciência, esperança num futuro semelhante ao passado – numa perspetiva de vida mais “normal”, voltando às rotinas que nos pareciam tão básicas e que agora, talvez pela privação das mesmas, se mostram tão importantes.

Foi precisamente sobre a esperança, sobre a necessidade de acreditar num futuro melhor e da importância da saúde mental que falámos com o psicoterapeuta Tiago Souza.

Milénio Stadium: Estudos recentes indicam que houve um aumento da ansiedade e da depressão durante a pandemia. A saúde mental tem sido, portanto, particularmente afetada. Considera que o impacto da pandemia na saúde mental será duradouro?

Tiago Souza: A história nos mostra que eventos em escala mundial, como a pandemia, são catalizadores de dificuldades latentes, e também de mudanças de hábitos. Os efeitos na saúde mental serão duradouros, mas também isso nos trará o desenvolvimento de estratégias inovadoras e mais eficientes para lidarmos com o impacto. Sem dúvida nós viveremos as consequencias desta pandemia, emocional, relacional e socialmente. Por exemplo, as perdas de entes queridos e as mudanças na vida social não serão revertidas, mas nós podemos e devemos aprender com estas experiências.

MS: A esperança em melhores dias é fundamental para se garantir um certo equilíbrio mental?

TS: Sem dúvida. A esperança é a projeção de melhores cenários e perspectivas a nossa frente, e quando buscamos meios de concretizar essas projeções nós nos sentimos mais energizados e perseveramos enquanto vivemos os períodos difíceis.

MS: Como se pode alimentar a esperança em tempo de pandemia?

TS: Vamos definir primeiramente a esperança. O educador e filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella nos fala do verbo esperançar, que é agir frente as dificuldades, com trabalho ativo em prol do bem e saúde, tanto individual como comum. É diferente de esperar que as coisas melhorem, enquanto não colaboramos. Esperançar nos tempos da pandemia é a ação no auto-cuidado e no cuidado dos que se relacionam conosco, alimentar bons hábitos, e selecionar muito bem o que lemos, e as fontes de informação as quais estamos sendo expostos. Toda atividade e pensamento que nos nutrem bons sentimentos são necessários neste período, e fazermos a nossa parte para que nos sintamos participantes ativos da recuperação da saúde coletiva. Por exemplo, seguir as recomendações dos profissionais que estão incansávelmente trabalhando para que nos protejamos, é um meio de alimentarmos a esperança, ativamente.

MS: Em princípio, os mais jovens conseguem encontrar mais razões para ter esperança no futuro. E os mais idosos? Como podem acreditar que o amanhã será melhor?

TS: A situação enfrentada pelos idosos é muito delicada, porque a pandemia dificultou a busca de conforto, cuidado e preservação das relações essenciais, tão importantes nos momentos de vulnerabilidade e para o bem envelhecer. Os idosos carregam um legado de vida, e podem transmitir as experiências e lições aprendidas na sua história, para as gerações futuras. O amanhã do idoso é cada dia vivido com dignidade e conforto, e o sentimento de deixar frutos de suas experiências para os mais jovens. Infelizmente não estamos vendo isso ser respeitado e preservado, mas o que estiver em nossas mãos deveremos fazer, inclusive reassegurando-os de que continuaremos trabalhando por um mundo melhor.

MS: Por outro lado, os mais novos estão a formar a sua personalidade num período crucial – infância e juventude – com imensos pontos de interrogação na cabeça. Que adultos serão? Mais fortes ou mais frágeis emocionalmente?

TS: Como em tudo na vida, o mais importante é aprendermos como solucionar os problemas e tirarmos proveito das experiências. Os jovens têm um desafio e oportunidade, de aprenderem novas formas de lidar com os desafios, e construir um mundo bem diferente do qual vivemos hoje. O quanto antes deveremos incentivar as crianças e adolescentes a tirar vantagem da plasticidade, flexibilidade e adaptabilidade características desse período de desenvolvimento. Gerações mais recentes são incrivelmente inteligentes, mas pouco resilientes emocionalmente, e com pouca tolerância a frustrações. Os desafios da pandemia devem ser utilizados para o desenvolvimento de habilidades de suportar, aprender com e contornar dificuldades a longo prazo, o que é crucial para a vida adulta mais saudável. As interrogações sempre estiveram em nossas cabeças, e hoje, mais do que nunca, é o dia de escutarmos nossas indagações e dilemas internos, para que possamos aprender a dar sentido para nossas vidas, daqui para diante. O passado, em muitos aspectos, já não nos dá as respostas que necessitamos. Precisamos nos reinventar, e ajudar os jovens a fazerem o mesmo.

MS: Qual é o papel dos psicólogos e psicoterapeutas na sociedade pós-pandemia?

TS: Os profssionais da saúde mental em geral serão fundamentais, para que ajudem as pessoas a encontrarem sentido para as experiências pelas quais passaram. Vivenciarmos o luto por tantas perdas, integrarmos estas experiências críticas e redefinidoras, e nos reconhecermos como seres renovados e construtores da nova vida serão grandes desafios para o futuro, e com auxílio profissional poderemos navegar estes terrenos ainda não explorados com mais coragem e resiliência. É preciso também que redefinamos os conceitos como depressão e ansiedade, hoje tão banalizados, para que não nos fixemos nestas experiências, mas aprendamos com os estes sentimentos. Eles são uma maneira de comunicar a necessidade de mudança em nós, e o trabalho da saúde mental é parte ativa deste processo.

MS: Acha que a classe política está consciente da necessidade de se dar mais atenção à saúde mental? Agora mais do que nunca?

TS: Acredito que está consciente, mas isso não é necessariamente o suficiente para que implementem mudanças significativas, que garantam o acesso a saúde mental adequada e especializada em auxiliar a população em face da pandemia. É parte da responsabilidade e do mandato de profissionais da saúde mental reivindicar, junto a população, pelo acesso e financiamento de serviços que nos aproximem. A classe política nem sempre acompanha ou prioriza o progresso e as demandas sociais, e ainda engatinhamos na implementação de iniciativas alinhadas com as reais necessidades de atendermos a saúde mental, para a prevanção, promoção e recuperação da saúde mental.

MS: Tem esperança no futuro?

TS: Sim! Uma esperança realista, fundamentada em trabalho constante em prol do próximo, e em fazermos tudo o que podemos hoje, pois hoje é a semente do futuro que plantamos em cada ato, pensamento e sentimento. Tenho o esperançar!

Catarina Balça/MS

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