Temas de Capa

Saudades de estar perto, mas ao longe

A minha vida sempre deu cambalhotas e talvez por isso eu esteja sempre com dores no pescoço. Mas também talvez por isso eu esteja já com calo para mais uma ou outra. E é por aí, numa perspetiva de adaptação ao problema, que eu vejo todo este panorama que agora vivemos devido à pandemia que um morcego, literal e figurativamente falando, resolveu criar.

Sempre gostei muito de estar em casa, mas também sempre gostei de sair quando me apetece. Ou seja, gosto de estar em casa por escolha e não por obrigação. E esse conceito tem feito alguns estragos no que à minha sanidade mental diz respeito, ainda por cima porque neste momento vivo num sítio que não me permite ver a luz do dia da forma que gostava. Mas, por outro lado, ter tido a oportunidade de trabalhar de casa fez com que me ocupasse bastante e por isso, só de vez em quando, é que me dá aquela vontade louca de ir até à Torreira ver o mar.

O que não me apetece muito ver são pessoas. Quer dizer, tenho muitas saudades de muita gente – acho até que a saudade devia ser categorizada como doença porque traz danos – mas enquanto não me garantirem que este vírus foi embora ou que há uma vacina que nos proteja, não quero contacto com ninguém a menos de dois metros, porque tenho um bebé a proteger e não sou egoísta ao ponto de o pôr em risco (e sinceramente quero lá saber dos críticos que dizem que a vacina é apenas e só um negócio e que “eles não nos podem controlar assim”, porque, com todo o respeito senhores donos da razão e do saber, eu quero é viver e ver os meus vivos, ok?).

Tenho um embrulho às costas porque agora, neste “novo normal”, a babysitter do meu filho não está a trabalhar e, para ser sincera, não me sinto confortável para deixar o meu bebé numa casa com mais seis ou sete crianças, de famílias que não conheço e que por isso não posso confiar na consciência ou bom senso – e, para ser muito honesta, nem confio essa capacidade aos meus amigos, porque isso da “consciência” de cada um tem muito que se lhe diga, não é?

Vou por isso, focar-me neste acrobático balanço entre ser profissional e ser mãe, com uns puxões de cabelo e uns documentos apagados pelo meio porque, claro, nada com mais piada do que um computador para se mexer no teclado e fazer desaparecer tudo o que está no ecrã da mãe.

Neste nosso “novo normal”, a falta que as pessoas me fazem é quase tanta quanto o medo de contágio da Covid-19. É essa a minha realidade. E não me acho exagerada, paranoica, doida. Acho-me calculista e com muita vontade de ver o meu filho crescer com saúde e gosto muito pouco dos “chico-espertos” que me olham de lado como se eu fosse ridícula por ouvir o que a Organização Mundial de Saúde nos diz, porque no final das contas, são essas mesmas pessoas que fazem com que a minha cautela se pareça excessiva, ao permitirem que este vírus se prolongue no tempo e continue por ai, de pessoa em pessoa, a brincar à roleta russa.

Catarina Balça/MS

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