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Saia uma “geringonça” para o Canadá!

As eleições federais que se aproximam estão por estes dias ainda muito envoltas em incerteza. Ninguém pode afirmar quem vai sair vencedor, nem mesmo os mais fervorosos militantes de um dos dois partidos políticos que podem, teoricamente, ambicionar uma vitória – liberais ou conservadores. E tudo aponta (as projeções são disso reveladoras) que o quadro político que se vai desenhar vai basear-se numa vitória sem maioria absoluta. Seja ela pintada de vermelho, seja em tons de azul.

E depois? Eis a questão… como vai ser governado o país que, aos olhos do resto do mundo é um gigante exemplar, quer na perspetiva económica, quer na perspetiva social?

Só me ocorre que há, lá para os lados da Europa, um país que, há uns anos, solucionou um problema de aparente ingovernabilidade com aquilo a que se veio a chamar “geringonça”. É certo que o povo desse país, que dá pelo nome de Portugal, é especialista na “arte do desenrascanço” e a verdade é que quando se encontrava naquilo que todos diziam ser um beco sem saída, este pequeno retângulo, situado no extremo ocidental da Europa, conseguiu encontrar uma solução, evitando o que parecia inevitável – a realização de novas eleições. E lá nasceu um governo do qual só se esperava que, tal como qualquer “geringonça” que se preze, fosse trabalhando, mas “avariasse” a qualquer momento.

Aos soluços às vezes, agitada com a turbulência que as peças mais extremistas sempre geram, a verdade é que a “geringonça” lá foi andando e, de forma surpreendente para muitos, conseguiu um desempenho muito acima do expectável. Efetivamente, Portugal e os últimos quatro anos de governo minoritário do Partido Socialista, têm sido apontados como um exemplo para o resto da Europa. Um bom exemplo. Aliás, recentemente, o muito conceituado jornal económico Financial Times afirmou categoricamente “o exemplo português é uma esperança para a Europa”. Nessa edição descreve-se Portugal como “ilha ladeada por tormentas várias. Desde os engasgos do motor do crescimento europeu – a economia alemã – à instabilidade política e também económica de Itália, passando pelo Brexit que pode pôr em causa, por muitos anos, o relacionamento do Reino Unido com a União Europeia”.

Ainda na análise do Financial Times “é no meio deste mar revolto que surge um Portugal brilhante com indicadores de fazer inveja. Salários em níveis pré-crise, um défice próximo do zero, uma taxa de desemprego de 6,7% que contrasta com os 14% de Espanha. Para além dos indicadores económicos é também salientada a baixa taxa de criminalidade e uma atmosfera acolhedora”.

António Costa surge assim como o salvador da pátria e é destacada a sua “hábil capacidade de dar a volta à situação difícil em que se encontrava o país”, quando tomou posse como primeiro-ministro.

Nesta análise, no entanto, sublinha-se que o primeiro-ministro português teve a ajuda da subida exponencial do turismo como elemento fundamental para alavancar uma economia que acabava de sair de um estado de coma, entre a vida e a bancarrota. Que a recuperação da economia mundial foi um aliado importante para a “geringonça” funcionar. Que o trabalho mais difícil de enfrentar uma troika implacável já tinha sido feito pelo seu antecessor, Passos Coelho, mas para o jornal britânico António Costa teve o mérito indiscutível de mostrar à Europa que era possível escolher outra via, que não apenas a da austeridade cega e insensível. A verdade é que Costa soube levar a água ao seu moinho liderando uma “geringonça” que podia resvalar numa gestão económica desastrosa. Terá feito “as escolhas políticas acertadas” e soube usar bem “a dose de sorte” que lhe caiu no colo da governação.

No entanto, internamente, não se livra das acusações de ter aumentado os impostos durante a sua gestão, de ter uma dívida pública superior a 100% do PIB (Produto Interno Bruto), de ter cedido a muitas das chantagens dos seus parceiros da geringonça.

Recentemente, mais concretamente a 6 de outubro, os portugueses fizeram a sua avaliação do trabalho produzido pela “geringonça” e, pelos vistos, gostaram da experiência de governo minoritário. Aquilo que poderia parecer um motor de instabilidade e agitação socioeconómica, veio a revelar-se um importante fator de equilíbrio. E os portugueses, nas urnas, disseram claramente… saia mais uma “geringonça”!

Será que os canadianos querem por a funcionar uma maquineta semelhante? Às tantas também vão dizer na próxima semana “saia uma geringonça para o Canadá!”.

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