Temas de Capa

“Refúgios” leia-se “doença”.

Interview

Ema Dantas é fundadora e diretora da Language Marketplace – empresa dedicada ao mundo das traduções. A antiga jornalista recebeu diversos prémios ao longo da sua carreira, destacando o seu nome em lugares como o “Top 100 Female Entrepreneurs”. E é com esse empreendedorismo que Ema traça o seu caminho. A empresária está também à frente de um projeto que faz todo o sentido ser trazido para a edição desta semana do jornal Milénio Stadium – “Peaks for Change”, uma organização que nos alerta para a Saúde Mental e nos desmistifica uma doença que ainda carrega um estigma demasiado pesado.

Ema Dantas

Esta é uma fundação que encara a necessidade da escalada destas montanhas da vida que, se por um lado às vezes não nos permitem ver o que há mais além, por outro nos fazem percorrer esse caminho difícil de chegar ao topo e perceber que há sempre mais para ver, ser.

E não podia haver momento mais indicado para falar dum assunto tão poderoso quanto este, enquanto Ema Dantas se prepara para escalar mais uma montanha amanhã– desta vez trata-se do Monte Kosciuszko, na Austrália – com o objetivo de nos consciencializar para a importância desta problemática. Apesar de estar em viagem, Ema disponibilizou-se de imediato para nos conceder esta entrevista, partilhando assim connosco a sua perspetiva.

Milénio Stadium: O “refúgio” – que tantas vezes se procura em drogas, em jogos, em sexo – pode tornar-se num vício perigoso que, por sua vez, afetará de forma implacável a saúde mental? Ou será a procura nesses “refúgios” já um sinal de doença?

Ema Dantas: Eu acho que quando a nossa mente procura, necessita de “refúgio”, é o primeiro sinal que a nossa mente precisa de atenção. Que está doente e necessita de tratamento. Podemos fazer a comparação com quando nos estamos a sentirmo-nos com gripe – tomamos mais vitaminas, ou chá, e medicação para nos sentirmos melhor. Repetimos os tratamentos ou as doses da medicação até nos sentirmos melhor ou a gripe passar.

Quando o nosso cérebro procura “descansar”, nós procuramos outras curas. Para alguns de nós tentar descansar o nosso cérebro passa pelo prazer do sexo, ou encontramos alívio numa bebida alcoólica, ou duas, ou então encontramos consolo numa droga qualquer. Quando temos gripe nós não nos acanhamos de ir ao médico, mas quando sentimos a nossa cabeça cansada, a nossa primeira intuição não é ir marcar uma consulta com o médico. Por isso quando a cura é um copo de vinho ou uma cerveja, e mais duas ou três a seguir, ou quando a ilusão que os ganhos monetários no casino irão resolver os nossos problemas, ou quando submergimos nos prazeres sexuais com vários parceiros para esquecer o nosso sofrimento, iremos procurar a mesma “cura” para aliviar o nosso cérebro todas a vezes que sentimos a necessidade de nos “refugiar”. Só que estas curas tornam-se em vícios, e assim ampliam o problema e agravam a doença.

MS: De que forma a saúde mental é camuflada por estas dependências?

ED: Torna-se fácil esconder os problemas, o sofrimento, quando os nossos comportamentos camuflam os nossos sintomas. A bebida, o jogo, ou a droga dão só alívio, não tratam a causa.

MS: Estas são doenças que, numa forma inicial, são “bem vistas” pela sociedade – ninguém critica ninguém por ir de vez em quando a um casino, por exemplo. E de repente a mesma sociedade acaba por reagir mal quando o “de vez em quando” passa a ser dependência – acabando até por rejeitar essas pessoas. Será a sociedade também culpada por se distrair e não ajudar na altura certa, antes da crítica chegar?

ED: Sim, eu acho que a nossa sociedade hoje é responsável pela situação crítica que nos encontramos no que diz respeito à nossa saúde mental. Somos complacentes quando somos confrontados com os sintomas iniciais duma doença mental. Nós temos a tendência de achar várias razões para o comportamento manifestado e temos a tendência de encontrar desculpas.

MS: Terá a população no geral entendido já que estas dependências são também elas, doenças mentais? Porque muitas vezes só se associa à “doença mental” a depressão, a bipolaridade, a esquizofrenia, etc.

Acho que de uma certa forma sim, mas não sabe admitir. Eu acho que a população de uma forma general ainda não tem confiança. Não há coragem de admitir que uma pessoa que é toxicodependente, por exemplo, antes de ser toxicodependente estava a sofrer de outra doença mental que não foi diagnosticada. Ninguém acorda um dia e diz, “eu vou me tornar toxicodependente”.

MS: O trabalho que a Ema Dantas tem desenvolvido ao longos dos últimos anos, tentando chamar a atenção para a problemática das doenças mentais, têm vindo a dar frutos. Mas a sociedade está diariamente a ser confrontada com novas variantes de apresentação da doença mental. Será este um trabalho infinito?

ED: De uma certa forma acho que sim, o que francamente é bastante desmoralizante para mim. Porque cada vez se vê mais sofrimento, os nossos filhos estão a ser intimidados na escola, nas redes socias como no Facebook, em jogos virtuais, etc. Há mais pessoas, jovens e crianças, a cometer suicídio. Nós estamos a isolar-nos cada vez mais como seres humanos, dialogamos cada vez menos pessoalmente, e isto tudo tem afetado a nossa saúde mental.

Como seres humanos eu acho que nós necessitamos de contacto com outras pessoas, necessitamos de carinho, de atenção, compreensão, de exercício físico, de ar livre, da natureza, etc, mas cada vez mais limitamos isto tudo.

Catarina Balça/MS

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