Temas de Capa

Quando mal se pode esperar para cantar “toda a noite”

Há pouco mais de um ano e três meses Toy estava em Toronto a animar a passagem de ano de centenas de pessoas. Hoje o cenário é bem diferente. Como a maioria de nós, tem cumprido este período de isolamento social e, obviamente, como artista, vê-se privado de exercer a sua atividade profissional.
O TV Fest foi um projeto criado pelo Governo no quadro de apoio, no âmbito da crise causada pelo coronavírus, destinado ao setor da música. Em cada um dos programas atuariam quatro músicos, que posteriormente convidariam outros quatro, e daí em diante. O orçamento seria de um milhão de euros, saídos dos cofres do Estado. Uma iniciativa que não foi bem recebida no meio.
Nesta edição, o Milénio Stadium conversou com o cantor português para tentar perceber como tem encarado toda esta situação e também o que espera do futuro.

Milénio Stadium: Esta pandemia tem vindo a afetar todos os setores de atividade – no entanto, o já enfraquecido (por falta de apoios, entre outras coisas) negócio do entretenimento e a própria cultura estarão a sofrer, provavelmente, um dos golpes mais duros…
Toy: Sim, concordo que tenha sido de facto dos mais duros golpes que a nossa cultura tem sofrido… A nossa sociedade toda, como é evidente, mas a cultura por inerência em relação à sociedade, sendo já um parente pobre da política e sendo a música um parente pobre da cultura, claro que esta pobreza toda junta numa fase de pobreza de todos é muito complicado de gerir. Mas vamos sobreviver, como já sobrevivemos a muitos golpes. Vai acontecer uma reviravolta e um renascimento… Num prazo de seis, sete meses estaremos todos dentro da normalidade, espero eu.

MS: Que tipo de “estratégias” se desenham em alturas como esta que vivemos? Como é que um artista sobrevive?
Toy: Não há nenhuma estratégia que seja a estratégia certa. Há variadíssimas ideias e nós temos que ouvir as pessoas que estão diretamente ligadas a um pormenor da cultura e na área do espetáculo, que é uma área que sofre muito porque envolve multidões e envolve, naturalmente, público. Neste momento o Estado tem que estar precavido para estas situações como esteve, por exemplo, na forma de “subsidiar” o Banco Espírito Santo, o BPN e outras situações, que eram situações muito pontuais. Neste momento as situações são muito mais gerais e penso que essa disponibilidade deveria estar agora evidente e iminente perante nós todos. A primeira estratégia seria, obviamente, perceber que a cultura portuguesa tem agentes fundamentais – não são só os cantores, nem são só os compositores. São também os técnicos de som, técnicos de luzes, pessoal que monta as carrinhas, o pessoal que monta as colunas, os condutores, os chauffeurs… Eu teria 1001 estratégias para propor, nomeadamente quando acabasse esta confusão toda que está a acontecer e quando nós estivéssemos já com as energias muito em baixo vir uma nova proposta do Ministério da Cultura – não para nos dar nada em termos financeiros, mas para nos aliviar de impostos e também fazer uma espécie de petição às rádios para que, de uma vez por todas, passem mais música portuguesa para ajudar não só a divulgar a nossa música como também ajudar, em termos de direitos de autor, os autores e compositores portugueses. Esta seria a primeira estratégia.

MS: Não podemos negar, no entanto, que o português é conhecido pelo “desenrascanço”… E já são várias as iniciativas que vamos vendo surgir na área do entretenimento… Lives no Facebook, no Instagram, “Festivais” organizados por diferente entidades… O próprio Toy vai partilhando alguns momentos musicais com os seu fãs…
Toy: Não podemos evidentemente negar que somos desenrascados! Mas temo-lo sido ao longo do tempo… Como é que é possível um livro pagar 5% de IVA e um CD ou instrumento musical, por exemplo, pagar 23%? É neste tipo de discriminação que a música será o parente pobre da cultura – a cultura por si só já é parente pobre da nossa sociedade… Nós temos que investir porque a cultura é o alimento da alma, do espírito! Nós somos muito mais aquilo que pensamos do que aquilo que somos em termos materialistas – e portanto a cultura é fundamental. Eu tenho feito imensas coisas pro bono para entreter as pessoas, para continuar na minha vida ativa e para me sentir válido nesta sociedade, mas na verdade o Ministério da Cultura poderia ter criado, por exemplo, uma plataforma onde nós pudéssemos cantar e animar as pessoas e ao mesmo tempo usufruir de algumas verbas das visualizações dessa plataforma… por exemplo! Há tantas outras coisas… Eu não vou deixar de fazer aquilo que faço, que é tentar divulgar, animar, ser solidário com as pessoas, dar conselhos daquilo que me parece ser o mais evidente de se fazer neste momento, mas de facto não é fácil. Mas se as coisas forem fáceis isto não tem o mesmo sabor… Portanto vamos lutar, é para o benefício de todos nós!

MS: Gostaria de lhe pedir a sua opinião acerca da iniciativa TV Fest, do Governo português.
Toy: É, obviamente, uma opinião negativa por todos e mais alguns motivos. O primeiro motivo é que sempre fui contra “lobbies” – criar uma sociedade de medos e de pessoas que ganhem força para comandarem todas as outras. Assim, sendo contra “lobbies” não posso aceitar que se organize um evento, seja ele qual for, onde se convidam meia dúzia de amigos e esses amigos convidam os seus próprios amigos para continuar na senda até 100 amigos. Portanto isto não vai atingir as duas mil pessoas ligadas ao setor, vai atingir apenas um, dois por cento. Não é saudável, sou crítico em relação a isso. A partir do momento em que me apercebi que poderia vir a ser convidado disse: “eu não vou!”. Até porque tinha aqui outro problema: é que a seguir a mim eu teria que nomear outra pessoa para me seguir… e eu ao nomear um colega meu ia deixar para trás 20, 30, 40, 100 colegas de quem eu gosto, e portanto não iria nomear só um. Penso que isto é inacreditável sinceramente. Penso que o Ministério da Cultura tem que pensar muito mais em nós numas outras situações como seja, num futuro próximo, num alívio de impostos.

MS: Para terminar, como encara o futuro? Confiante? O que pensa fazer quando tudo isto terminar?
Toy: Eu encaro o futuro com muito otimismo! Aliás, eu sou um otimista de nascença! Eu acho que depois da tempestade vem a bonança e a bonança tem sempre dois fatores positivos: o primeiro é porque, sendo bonança, ficamos todos muito mais felizes e o segundo – e esse o mais importante – é perceber que nas dificuldades que nós ultrapassámos aprendemos uma série de contextos que, provavelmente, não teríamos pensado neles se não tivéssemos passado por lá. E ao passar por estas dificuldades todas a aprendizagem é importante – há que utilizar essa aprendizagem. Aprendizagem número um: união dos músicos e de todos os artistas ligados ao setor – como já disse, desde a senhora que limpa o chão do estúdio até ao artista principal. Depois dessa união perceber que quando se tem que fazer uma lei para ajudar a cultura portuguesa não se pode pensar só no cantor, no guitarrista, na senhora da limpeza, no diretor de estúdio, etc. – temos que pensar em todos, num todo. E portanto também precisamos de criar uma identidade, acabarmos com esta coisa da profissão liberal e passarmos a ter uma estrutura chamada “eu sou músico”, “eu sou técnico de som”, e portanto não sou apenas profissional liberal de recibos verdes. Eu penso que nos trouxe muitos ensinamentos e que o futuro vai ser bastante melhor, que as pessoas vão ter muito mais cuidado e vão estar muito mais elucidadas pela aprendizagem desta crise.

Inês Barbosa/MS

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