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Quando a crise também chega aos aviões

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Créditos: andreapiacquadio

 

Nos últimos anos com a entrada das empresas aéreas low cost no mercado mundial o preço das viagens aéreas caiu e viajar deixou de ser um luxo. Mas a COVID-19, as restrições nas viagens e, no caso do Canadá, o atraso na implementação de testes rápidos para os passageiros, podem mudar esta realidade. As empresas aéreas lutam agora para sobreviver e depois da pandemia algumas podem deixar de existir. A britânica Virgin Atlantic foi apenas uma das primeiras a anunciar durante a primeira vaga da pandemia que sem ajuda governamental não ia conseguir sobreviver, mas agora as dificuldades estão a aparecer um pouco por todo o lado porque o tráfego mundial caiu mais de 90%.

Na Europa a gigante Lufthansa que empregava cerca de 138,000 pessoas na Alemanha antes da pandemia, teve um apoio de 9 mil milhões de euros para se conseguir aguentar, mas todas as outras empresas aéreas estão a viver tempos incertos porque as pessoas não estão a viajar e o regresso à normalidade ainda pode demorar porque em Ontário, onde a vacina contra a COVID-19 poderá ser obrigatória para viajar, grande parte da população só a vai receber a partir de abril, isto se correr tudo como está planeado e o calendário do Governo de Ontário não sofrer atrasos. 

Depois das primeiras doses da Pfizer, o Canadá deverá receber ainda este mês as primeiras doses da vacina da Moderna, logo que a Health Canada a aprove e reconheça que é segura e eficaz. A grande maioria das empresas aéreas vai ter de reestruturar-se e para o consumidor isso pode significar aumento de preços, diminuição das rotas e menos qualidade no serviço prestado. 

Na primeira vaga da pandemia, a IATA – Associação Internacional de Transporte Aéreo – antecipava que a indústria da aviação podia demorar entre três a cinco anos a recuperar para os níveis anteriores à COVID-19. Entretanto já todos percebemos que afinal a recuperação pode não ser assim tão rápida porque a cura tarda em chegar.

O Estado vai tentar salvar algumas companhias aéreas, mas o mercado pode não ser suficiente para tantas. Os governos dos EUA, do Canadá e da Europa já fizeram grandes injeções de capital nas transportadoras aéreas e esta semana ficámos a saber que a Air Canada comprou a Air Transat e que, por isso, em breve, vai existir menos um player no mercado aéreo canadiano. O Milénio Stadium tentou obter uma reação do ministro federal dos Transportes, mas numa nota enviada pelo seu gabinete à nossa redação, o Governo faz saber que “seria inapropriado especular sobre o resultado” do negócio, uma vez que ainda não está finalizado. 

Segundo o gabinete de Marc Garneau, o Governo ainda está “a avaliar as implicações de interesse público” e mantém o compromisso de que “uma indústria de transporte aéreo forte e competitiva é vital para a economia do Canadá e para o bem-estar dos canadianos”. 

Na semana passada foi tornado público que a Air Canada foi a empresa pública que mais beneficiou do pacote de assistência financeira COVID-19, mas o Ministério dos Transportes diz que o apoio financeiro vem com regras, nomeadamente de reembolsos aos passageiros. “Antes que os fundos sejam direcionados às companhias aéreas vamos garantir que os canadianos recebem os seus reembolsos”, disse o gabinete ao nosso jornal. 

Saber se o interesse público vai ser preservado e se o consumidor vai ser protegido de uma possível escalada de preços e/ou diminuição da qualidade de serviço são as grandes questões depois de o negócio histórico se concretizar. Sem avançar com muitas informações, Otava esclareceu que “qualquer assistência que o Governo do Canadá forneça virá com condições restritas para proteger os canadianos e o interesse público”.

O Canadá é o único grande mercado do mundo sem uma companhia aérea low cost e os canadianos pagam algumas das tarifas aéreas mais elevadas do mundo, embora as promoções estejam um pouco por toda a parte. 

Como os fundadores da Jetsgo, Roots Air, Greyhound Air e de muitas outras companhias aéreas falidas podem atestar, o Canadá é um país difícil para abrir uma companhia aérea. Os motivos são vários: pouca população, pouco mais de 37 milhões segundo os últimos Census; impostos e taxas elevadas e restrições à propriedade estrangeira.  

Segundo o CAPA – Centre for Aviation, em 2019 a Air Canada representava 50.8% em todo o mercado nacional. Logo depois surgiu a WestJet com 35.3% e a Air Transat com 1.9%. O que significa que se o negócio for aprovado a Air Canada vai ficar com 52.7% do mercado nacional. 

Devido às características geográficas do Canadá aqui as pessoas dependem mais de viagens aéreas do que outros países. E com um grande número de imigrantes, o Canadá precisa de ligações frequentes a outros continentes, nomeadamente à Europa. No caso dos imigrantes portugueses podem existir motivos para preocupação porque caso a Azores Airlines e a TAP não forem bem-sucedidas no seu processo de reestruturação, a comunidade portuguesa que reside no país vai ter mais dificuldades para voar para Portugal. 

A notícia da compra da Air Transat surgiu na mesma semana em que a excelência da Air Canada foi reconhecida com uma classificação de cinco estrelas na categoria Global Airline pela Airline Passenger Experience Association (APEX) e a Air Canada foi eleita a melhor empresa aérea da América do Norte pela Global Traveller pelo segundo ano consecutivo. O prémio avalia áreas como atendimento ao cliente, recursos humanos, responsabilidade social corporativa e relações com investidores. 

A IATA pediu esta semana ao Governo do Canadá para garantir que os funcionários do setor de aviação vão ser considerados trabalhadores essenciais durante a campanha da vacinação contra a COVID-19. A associação quer que Otava vacine os trabalhadores da aviação depois dos profissionais de saúde e dos grupos vulneráveis, mas ainda não existem garantias de que a exigência vai ser atendida.

Já em outubro a IATA tinha comunicado que com uma queda de 92% no tráfego aéreo internacional as transportadoras aéreas acreditavam que com o medo de contrair o novo vírus e com as restrições em vigor, como a quarentena no Canadá, a única forma das pessoas voltarem a viajar seria através da implementação de um sistema de testes rápidos que permitisse aos passageiros embarcar e desembarcar em segurança. 

Um estudo da IATA concluiu que o maior receio dos passageiros num voo de longa distância é sentarem-se ao lado de alguém que tem o novo coronavírus. Mas a Associação defende que embora no início os aviões tenham ajudado a transportar o vírus entre vários países, não existem provas suficientes para garantir que os aviões são locais onde o vírus se espalha facilmente. 

O plano da IATA para avançar com os testes rápidos concentra-se em testar os passageiros antes da partida. As informações sobre o resultado do teste podem estar disponíveis numa aplicação de smartphone e os resultados podem estar apurados em menos de uma hora.

O Governo ainda não aprovou os testes rápidos no setor das viagens e alguns cientistas estão preocupados com a precisão de alguns testes rápidos porque as pessoas podem testar negativo poucos dias depois de terem contraído o vírus. Para além disso, os cientistas explicam que as pessoas podem estar infetadas antes de apresentarem sintomas e essas pessoas também podem testar negativo.

Uma sondagem da McKinsey perguntou a 40 planeadores de viagens corporativas o que lhes daria confiança para reservar viagens. Cerca de 75% disse que queria a vacina e 39% disse que bastava o teste rápido. De acordo com a McKinsey os gastos com viagens de negócios ultrapassaram representaram 21% do setor global de viagens e hospitalidade em 2018. Os passageiros que se deslocam em viagens de negócios e que geram entre 55% a 75% do lucro nas principais companhias aéreas representam menos de 10% dos passageiros.

A Air Canada já era uma das 20 maiores empresas aéreas do mundo, mas a compra da Air Transat vem com certeza reforçar a sua posição no mercado nacional e mundial. Agora fica a dúvida se menos uma empresa concorrente no mercado vai beneficiar o passageiro na hora de comprar um bilhete. 

Joana Leal/MS

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