Temas de Capa

Povos Indígenas no Canadá: “O ressentimento é real, é forte”

O projeto tem um nome que logo nos revela a sua essência – Project First Nations – e nasceu da vontade de promover uma cada vez maior interação entre os canadianos e os povos indígenas. A reconciliação é, afinal, o grande objetivo e o caminho escolhido é o da educação com vista ao conhecimento mais aprofundado sobre a cultura e história dos povos indígenas. Paulo Pereira é o presidente do Project First Nations e aceitou falar com o Milénio Stadium sobre o trabalho que têm desenvolvido.

Milénio Stadium: Qual o principal objetivo da organização?
Paulo Pereira: Project First Nations é uma organização sem fins lucrativos. A sua missão é de promover interação entre jovens estudantes de diversas partes do país e jovens residentes em comunidades indígenas remotas, cujo acesso é apenas possível por via aérea. Para além de diversos programas que englobam o desporto, as artes, multimédia e atividades sociais, Project First Nations também participa ativamente no apoio à comunidade, seja por meio de donativos de vários itens de alta necessidade, seja através de facultar o auxílio de profissionais relacionados com a educação, a saúde física ou mental, ou outros que possam ser benéficos para o bem-estar da comunidade.

MS: Quais as atividades adotadas pela organização que contribuem para a o apoio à comunidade indigena?
PP: Project First Nations adota um modelo baseado na interação direta dos jovens por meio de atividades que são do seu interesse. Todos os programas são planeados com o auxílio dos jovens participantes e a sua implementação é feita exclusivamente por eles, sob a supervisão de adultos. Acreditamos que este modelo é o mais eficaz no caminho da reconciliação porque promove uma oportunidade de intercâmbio direto relacionado com costumes, História e de experiências de vida distintas. Esta convivência ajuda-os ainda a desenvolver empatia e a compreender diferentes realidades e perceções o que, consequentemente, os une na luta por um Canadá de oportunidades iguais para os todos os seus habitantes. Os jovens de hoje serão os adultos de amanhã. Através deste modelo, acreditamos que o processo de reconciliação se acelera e se consolida, tornando o nosso país cada vez mais unido, cada vez mais forte e menos desigual.
Todos os programas são implementados em comunidades indígenas de acesso por via aérea e contam com grupos de entre 9 a 18 jovens por projeto, dependendo da atividade e dos meios financeiros disponíveis. Desde 2016, Project First Nations levou mais de 120 alunos de Toronto e Vaughan a comunidades indígenas e serviu mais de 1,000 jovens nessas localidades. Tudo isto foi alcançado através da implementação de programas que incluem futebol, basquetebol, dança, música, multimédia, xadrez, teatro, e programas de apoio à comunidade.
Project First Nations tem encetado parcerias com várias organizações, empresas e individualidades de modo a conseguir manter os seus níveis de serviço. Os nossos parceiros incluem as direções escolares católicas de Toronto e de Vaughan, Home Depot, Flying Free Foundation, First Book Canada, e Thunder Airlines, entre muitas outras.

MS: Como está o processo de reconciliação entre os indígenas e os demais canadianos?
PP: O processo de reconciliação é demorado e requer cuidado na forma como é conduzido. Os efeitos das escolas residenciais estão ainda frescos na memória do nosso povo indígena e continuam a ter uma influência preponderante no seu quotidiano, seja na sua autoestima, na sua relação com a família ou na sua perceção do mundo e daqueles que habitam fora das reservas. Foi em 1996 que a última escola residencial fechou no Canadá. Foram diversas as consequências negativas que estas instituições provocaram. Um dos lemas das escolas era o de “retirar o índio” dos alunos indígenas, proibindo-os de falar a sua língua materna, de celebrarem a sua cultura e de aprenderem a sua história. Essas crianças e jovens cresceram sem o carinho dos pais, sem conhecerem a dinâmica de uma família, sendo abusados e vivendo em constante ameaça. Esses jovens tornaram-se adultos e tiveram filhos mas, porque não provaram do carinho de uma mãe ou de um pai, porque não testemunharam exemplos de afeto no seu processo de crescimento, desconheciam como ser pais, como ser mães, como darem o afeto aos filhos, aquele que nunca tiveram.
O ressentimento é real, é forte, habita em cada um daqueles que foi vítima desse sistema desumano e nas gerações que se seguiram, por consequência. Por isso, o processo de reconciliação não se resolve com dinheiro nem com políticas que mantêm o povo indígena afastado do resto do Canadá. O processo de reconciliação exige que haja interação, diálogo, compreensão, empatia e um interesse genuíno nos fatores que afetam o povo indígena. Temos testemunhado passos importantes no relacionamento com o povo indígena, mas o processo de reconciliação continua a progredir a passo demorado e continuará a ser tema de discussão por gerações vindouras. Há ainda muito a fazer para que possamos ser uma nação que engloba o nosso povo indígena num contexto de igualdade no que diz respeito ao bem-estar e à igualdade de oportunidades.

MS: Acredita que o Governo está a desempenhar um bom papel em relação ao apoio à comunidade indígena canadiana?
PP: O Governo tem um papel complicado neste processo. A política de providenciar fundos para colmatar algumas das dificuldades sentidas nas comunidades indígenas não tem surtido efeito e, infelizmente, a precariedade das infraestruturas é de tal modo elevada que se torna dificilíssimo resolver os problemas de cada comunidade. Por outro lado, se o Governo intervir diretamente em determinados assuntos, poderá correr o risco de criar fricção diplomática com um povo que já está “queimado” por imposições. Por isso, torna-se muito difícil decidir qual a melhor abordagem que o Governo deva tomar já que tem de manter o equilíbrio em relação ao nível de intervenção direta que deva ter com as comunidades indígenas.
Por tudo isto, acreditamos que Project First Nations tem a chave para a reconciliação: interação direta entre jovens que terá consequências positivas no relacionamento dos adultos num futuro muito próximo. Esta é a chave para o aceleramento do processo de reconciliação. Há duas semanas, tivemos a oportunidade de conversar com Justin Trudeau e com membros do Parlamento que acreditam no nosso modelo. Estamos convictos de que, com o apoio do Governo, podemos alargar o conceito ao resto do Canadá, envolvendo milhares de jovens enquanto traçamos um futuro promissor para o Canadá.

MS: Como analisa a situação dos povos indígenas atualmente?
PP: É muito fácil fazer julgamentos ao longe, tais como as queixas relacionadas com os fundos que são divididos pelas comunidades indígenas e cujos destinos desconhecemos. Independentemente dessas apreciações, a realidade é que aqueles que não usufruem do poder – e que são a esmagadora maioria – vivem em condições exageradamente precárias tendo em conta a realidade económica global de um país como o Canadá. A realidade do quotidiano nas reservas é muito diferente daquela que se vive no resto do Canadá. O povo indígena sente-se distante e ignorado, convivendo com problemas que só existem em países do terceiro mundo, como é o caso da falta de água potável, dos preços ridículos dos produtos alimentares, da necessidade de aquecer residências com fogões de lenha em invernos que anualmente atingem os -50 graus celsius, da dificuldade em viajar para outras localidades, da falta de apoios de saúde mental, entre tantos outros. O sentimento de isolamento e do afastamento do resto do país tem um peso enorme em cada habitante das comunidades indígenas remotas, que são a grande maioria, particularmente no Ontário.
Sem modelos ou exemplos de sucesso, os jovens indígenas criam expectativas baixas, quedando-se por projetos de vida que vão aquém dos sonhos que um dia tiveram em criança. Este fator, aliado ao isolamento e à falta de oportunidades de ensino e emprego, obrigam os jovens mais ambiciosos a deixarem a comunidade em busca de locais mais prósperos. O ciclo de separação vivido nas escolas residenciais, assemelha-se a este ciclo de necessidade de desligamento para que projetos de vida possam ser cumpridos. É um ciclo infindável, a menos que sejam acionados mecanismos que facilitem o movimento dos povos que vivem em locais remotos, ou a faculdade de meios que auxiliem a um sistema de ensino adequado.
O povo indígena do Canadá continua a viver uma vida paralela àquela de todos os outros canadianos. Sabemo-lo por experiência própria. Esta desconexão só pode ser concertada através da interação direta, empática e sem julgamentos ou preconceitos. Por isso, acreditamos no modelo de Project First Nations.

MS: Acha que, finalmente, há um fortalecimento e orgulho das próprias origens e da própria cultura da comunidade indígena?
PP: Sim! Há um fortalecimento desse orgulho porque o povo indígena sente urgência em manter vivas as suas tradições, a sua língua e a sua cultura. Foi há 23 anos que a última escola residencial fechou e, com ela, se desenterrou um passado de abafamento cultural. Os mais velhos, que ainda falam a língua materna, sentem urgência em passá-la aos mais jovens. Contam-se histórias dos antepassados, reavivam-se eventos culturais e costumes que antes foram parte integrante desse povo. Há uma reaproximação com a natureza, uma ligação natural com tudo o que os rodeia, mesmo para aqueles que se converteram ao cristianismo. As crenças espirituais dos antepassados confundem-se agora com os novos ensinamentos. Há uma ânsia enorme em retomar essa identidade que os identifica como povo.

MS: Ainda existe algum tipo de preconceito perante o povo indígena? Se sim, em que setores se pode notar essa conduta preconceituosa de forma mais intensa?
PP: Com certeza que sim, especialmente nas províncias onde prevalecem as comunidades indígenas com acesso por estrada. No Ontário, a maioria das reservas indígenas são localizadas no Norte do Ontário, sem acesso por terra, apenas por via aérea. Por isso, não temos tantas oportunidades de nos depararmos com indivíduos indígenas e, por consequência, não formamos preconceitos, embora eles existam muito por fruto das lendas e do cinema. Porém, considero que temos evoluído imenso nesse aspeto e penso que estamos no caminho certo para acabarmos com esses preconceitos que não são mais do que uma forma de generalizar um povo. E todos sabemos, como portugueses, o quanto custa sermos vítimas dessas generalizações. Como comunidade, temos lutado para não sermos vistos como apenas os construtores civis e as mulheres de limpeza (não há nada de mal em nenhuma dessas profissões…a minha mãe fez limpeza e o meu pai trabalhou na construção toda a sua vida). Por isso, mais do que ninguém, compreendemos o quanto é errado julgarmos um povo por um todo. O povo indígena é gente como toda a gente, tem o potencial de atingir tudo o que qualquer outro é capaz. Basta ter oportunidades e a orientação adequada.

MS: Noticiou-se muito a respeito dos suicídios de jovens indígenas. Na sua opinião, este quadro finalmente diminuiu? Qual o balanço que faz dessa triste situação atualmente?
PP: O alerta em relação às tentativas de suicídio por parte de jovens mantém-se. A dificuldade de movimento, o isolamento e a ausência de incentivo para atingir algo de extraordinário na vida são motivos constantes para a tentativa de acabar com a vida. Aliado a isso, as condições de vida e as várias dificuldades que as famílias enfrentam fruto de todo esse desespero são motivos acrescidos. Embora a maioria das comunidades indígenas proíba o consumo de droga e álcool, a realidade é totalmente oposta. Há abuso de ambas as substâncias por parte de jovens e adultos, fruto de todo esse desconsolo, o que afeta toda a comunidade desde crianças a idosos. Project First Nations orgulha-se de contribuir para a diminuição acentuada da incidência de tentativa de suicídio em Attawapiskat First Nation. Através do relacionamento dos jovens e da constante interação mesmo depois do términus da implementação de cada programa, por meio das redes sociais, os jovens criam laços de confiança e ajudam-se mutuamente. Isto vem provar, uma vez mais, que a viragem só pode ser conseguida através do relacionamento direto entre o povo indígena e a generalidade da população canadiana.

MS: Muitas mulheres foram assassinadas ou sofreram algum tipo de abuso. Existe algum tipo de programa de assistência a essas mulheres?
PP: O primeiro-ministro, Justin Trudeau, reconheceu recentemente a inércia do Governo em relação a mulheres indígenas assassinadas, abusadas e desaparecidas. Esse pedido de desculpa oficial é um passo importante para que a mulher indígena goze do mesmo tratamento que todas as outras canadianas usufruem. O Governo Federal tem vários programas de auxílio como é o caso de Indigenous and Northern Affairs Canada e The Justice Partnership and Innovation Program. O Governo do Ontário também participa nessa luta com o programa Walking Together, para além de apoio financeiro a outras instituições. Existem também várias organizações não governamentais que providenciam apoio, embora de forma mais limitada, como é o caso do Indigenous Women’s Program da organização Battered Women’s Support Services.

MS: Qual a importância dos newcomers e dos imigrantes que vêm de outros países para o Canadá no intuito de construir uma nova vida, de terem conhecimento da história da comunidade indígena canadiana?
PP: A maioria dos jovens que participa nos nossos programas é oriunda de outros países ou são filhos e filhas de emigrantes. Um dos maiores choques evidenciados por esses participantes é o facto de se aperceberem que existem comunidades no Canadá que têm condições de vida mais precárias do que aquelas que deixaram para trás, no seu país de origem. Quem imigra para o Canadá, fá-lo porque sabe – ou pensa – que este é um país evoluído e cheio de oportunidades. Porém, desconhece a outra realidade, aquela que é testemunhada diariamente pelo povo que originalmente foi dono desta terra. O conhecimento da História do povo indígena abre a possibilidade para a vontade de efetuar mudança. A História molda o nosso presente e não devemos ignorar o caminho que nos trouxe a este destino, mesmo que ele tenha sido feito à custa do sofrimento de outros. Nas nossas escolas, a História dos povos indígenas continua a ser ignorada, a ser relegada para um plano de indiferença como se em nada contribuísse para o Canadá de hoje. Nós somos produtos da História e ao adotarmos o Canadá como local para vivermos, temos o dever de conhecer a sua História e a partir dela de compreendermos melhor aquilo que nos rodeia.

MS: O que esperar em relação ao futuro? Acredita que as próximas gerações terão o respaldo necessário e que finalmente terão oportunidades igualitárias?
PP: Temos um caminho longo e árduo a percorrer. Vários passos têm sido dados, nestes últimos 20 anos, para que haja uma aproximação mais saudável entre o povo indígena e os canadianos em geral. Acreditamos piamente que Project First Nations vai continuar a desempenhar um papel gradualmente mais importante neste processo através do investimento nos nossos jovens, e consequentemente, no nosso futuro imediato. Estamos convictos de que a interação direta entre povos é o meio mais rápido, saudável e eficaz para efetuar mudanças significativas. Por tudo isso, sim, acredito que podemos sonhar com um Canadá em que a igualdade de oportunidades pode ser uma realidade num futuro não muito distante.

MS: Como representante de uma organização que apoia uma causa tão intensa e que serve de força para pessoas que viram tanto sofrimento dos seus antepassados e que sofrem até hoje com a falta de apoio do próprio Governo e de uma parte da sociedade, qual o sentimento que prevalece?
PP: Sinto-me extremamente privilegiado pela oportunidade de testemunhar um mundo diferente daquele que era antes meu. Hoje, o meu mundo já não é esse. O meu mundo é feito de mundos, de laços de amizade que ultrapassam aqueles que um dia ocuparam a minha imaginação, de experiências que nunca pensei viver. De cada vez que passeio pelas ruas de terra batida, sejam cobertas de neve ou envoltas em pó, sinto-me em casa. Olho nos olhos das pessoas que já não duvidam de mim, atiro um sorriso à criança que me acena do degrau da escada, respondo ao apito de um carro que passa devagar e deixo-me levar pelo som dos cães a latir e pelo cheiro de sálvia a arder. E de cada vez que me despeço, já quero voltar sem sequer ter partido. É um sentimento de vício, de saudades de casa e dos meus, mas de tanta vontade de ali ficar. Já não me questiono mais porquê. Sei que é pelo calor de cada pessoa com que me deparo, pelo simples facto de interagir com um povo que, embora viva num local diferente com realidades diferentes, é povo como eu. A nossa história é diferente e as nossas experiências de vida são radicalmente distintas, mas o sentimento que prevalece é a certeza de que somos tão iguais só porque somos ambos humanos. Não somos mais, nem somos menos. Somos um em tudo, um no todo, um no propósito que nos une.

Paulo Pereira, Presidente e Cofundador
Project First Nations

Nota: Project First Nations depende da generosidade de organizações, empresas e indivíduos que partilham da sua visão. Se pretende contribuir para esta causa ou se quiser obter mais informações, contacte info@project5.ca. Procure também nas redes sociais: Project 5 no Facebook e no Twitter; project5firstnation no Instagram.

Mais do que uma celebração regada a festas tradicionais, encontros e cerimónias culturais, o “National Indigenous Peoples Day”, reflete a importância de um entendimento da história, empatia com a comunidade, e o apoio de todos para a manutenção desta rica cultura.

Adriana Marques

Redes Sociais - Comentários

Tags
Mostrar mais

Artigos relacionados

Back to top button

 

Quer receber a edição semanal e as newsletters editoriais no seu e-mail?

 

Mais próximo. Mais dinâmico. Mais atual.
www.mileniostadium.com
O mesmo de sempre, mas melhor!

 

SUBSCREVER

Close
Close