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Portugal e o sentimento de pertença da sua diáspora!

Portugal e o sentimento de pertença-portugal-mileniostadium
Foto: DR

 

Uma recente visita que fiz a algumas das ilhas açorianas e a um museu da sacrificada história da comunidade da ilha do Pico, entre outras, associada à observação pessoal das nossas dispersas comunidades emigrantes (quando eu também o era…), suscitou-me mais uma vez a interrogação sobre os fatores que influenciam decisivamente o ainda sentimento de pertença às origens lusitanas dos nossos cerca de dois milhões de emigrantes espalhados pelo mundo, sem contar com os lusodescendentes?

Não posso, neste breve comentário, apresentar um estudo rigoroso sobre a matéria, pelo que o que aqui exponho são apenas alguns aspetos da minha observação empírica, relacionados com toda a subjetividade pessoal, que acompanha a minha própria experiência neste domínio.

Assim e para avaliar o que faz dos portugueses emigrados uma comunidade que persiste em valorizar atualmente a sua “pertença” ao país de origem, teríamos de compreender o significado desse sentimento, perante: as diferentes condições que os conduziram à partida de Portugal; a diversidade das sociedades que os acolheram e a temporalidade dessa atitude, proporcionada por diferentes gerações e respetivas ambições.

Se é bem verdade que, de forma geral, a emigração dos portugueses teve e tem por objetivo melhorar as suas respetivas condições de vida, não é menos verdade que nem todos partiram do mesmo estado de vida anterior. Se no início dos anos 50, até à década de 90 do séc. XX, a maioria da emigração era fortemente económica, procurando melhores níveis de sustento pessoal e familiar, a partir daí e até aos nossos dias verifica-se, paralelamente aos mesmos motivos, um crescendo da emigração na procura de novas oportunidades nas sociedades de acolhimento mais desenvolvidas. Situação a que não é estranha a integração de Portugal na União Europeia e os tratados que possibilitam aos portugueses sentirem-se como cidadãos de um mundo mais vasto.

Outro fator que igualmente contribui para manter (ou não) a memória das suas raízes, entre os portugueses emigrados, são as condições que encontram nos países de acolhimento.

Se há países para quem a integração dos portugueses se fez e faz, sem perda da sua identidade cultural, tradições e uso da língua materna, outros existem forçando a sua assimilação completa na sociedade de acolhimento, através de medidas restritivas à sua demonstração identitária. Tais circunstâncias influem necessariamente e através dos tempos na preservação, ou não, da nossa memória coletiva.

Entretanto, as comunidades emigrantes foram-se desenvolvendo de importância económica, social e política local, criando variados elos de ligação às sociedades de acolhimento, reproduzindo-se e reproduzindo responsabilidades para com elas, tornando mais difusa a eventual separação entre uns e outros na simplificação de análise por observadores externos. Ao mesmo tempo, as segundas e terceiras gerações de lusodescendentes, incluídos desde o princípio no desenvolvimento dos processos produtivos, sociais e políticos das sociedades de acolhimento e que mantiveram no seu inconsciente a memória dos seus ancestrais e do seu sentimento de “pertença”, verificam no entanto que ele se vai dissipando à medida da contemporaneidade da sua vivência, criando as suas próprias memórias nas sociedades que os acolheram e definindo o seu próprio destino.

Assim, como é que se pode caraterizar o tal sentimento de “pertença” que tenho vindo a falar e que afeta particularmente as primeiras gerações dos emigrantes portugueses?

Sem rigor científico, eu diria que tal sentimento se pode encontrar em vários parâmetros: num conjunto de relações sociais e afetivas com Portugal, onde se incluem os laços familiares e amistosos, recordações de infância, meios ambientes locais e um grupo de fatores sensoriais de gostos, sabores, cheiros e vivências anteriores, que apelam ao desejo de retornar ao país de origem; na preservação da memória histórica do seu país, enquanto pátria não renegada pela sua emigração e nos valores culturais e religiosos que lhes estão adstritos; nos desejos iniciais à sua emigração, onde se incluem a projeção de novos patrimónios imobiliários e de gestão de bens, no quadro de uma futura vivência familiar, para além do facto de sempre se terem sentido na condição de “passageiros em trânsito” nas respetivas sociedades de acolhimento, assumindo uma atitude de distanciamento.

Naturalmente que, para além de algumas ações diplomáticas pontuais, não incluo no âmbito do tema anterior qualquer ação relevante dos governos ou instituições do Estado português, que acrescessem esse sentimento de “pertença”. A intervenção política do Estado português junto das comunidades portuguesas, para além do “10 de Junho…” (cuja substância lhes é proporcionada pelas nossas associações de emigrantes) e as eventuais visitas de altos dignatários da nossa República às comunidades (realizadas em regime de “diplomacia de croquete”), não têm efeito duradouro e os apelos ao regresso dos emigrantes, entrecortados por diferentes crises económicas nacionais, são de tal forma tímidos que não mobilizam a vontade da imensa maioria daqueles que eventualmente quisessem regressar.

Neste particular e perante um Portugal com o seu interior desertificado e com uma população do litoral urbano pouco propensa aos estímulos para o ocupar, permitam-me salientar que seria de esperar que os governos portugueses, apoiados nas Câmaras de Comércio e Indústria e associações empresariais lusas, que existem em inúmeros países de acolhimento dos nossos emigrantes, graças ao seu desenvolvimento económico e à tenacidade dos mesmos, criassem verdadeiros dispositivos eficazes de investimentos nessas áreas (melhores do que aqueles que já oferecem aos cidadãos estrangeiros…) e não apenas projetos sem coordenação, nem continuidade mediática, capazes de aglutinar as necessidades camarárias locais com os interesses de muitos dos portugueses no estrangeiro.

Assim não sendo, Portugal fica reduzido a um país de férias, entre um vasto lote de outras escolhas competitivas e o sentimento de “pertença” vai-se diluindo na medida em que as velhas gerações vão desaparecendo.

Por tudo isso apelo a todos que, apesar de tudo… gostem do nosso Portugal!

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