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Perda de vida desnecessária

Transparência, responsabilidade e justiça da parte do Irão na queda do voo 752.

O Canadá, mais uma vez, encontra-se numa situação sobre a qual tem pouco controlo. O Canadá pode ter um alto nível moral ao exigir respostas, transparência, responsabilidade e justiça do Irão na queda do avião ucraniano, mas isso é o limite da sua influência mesmo que os investigadores canadianos tenham agora acesso ao local do acidente e à análise das caixas pretas.

No final do dia, não houve baixas americanas pela decisão do presidente Donald Trump de matar o General Qasem Soleimani, do Irão, mas 176 outras pessoas morreram, incluindo 57 cidadãos canadianos e muitos mais cidadãos iranianos que estavam a caminho do Canadá. O Irão retaliou o assassinato disparando uma enxurrada de armas contra bases no Iraque. Esses mísseis causaram poucos danos, mas cerca de duas horas depois o exército iraniano chegou à conclusão de que um grande objeto em movimento sobre seu espaço aéreo era hostil e disparou mísseis antiaéreos, derrubando um avião civil e matando todos a bordo.

O Canadá não tem acesso às autoridades iranianas no Canadá porque Otava expulsou diplomatas iranianos em 2012 e fechou a embaixada. Esse ato foi assumido pelo Governo anterior (de Harper), mas embora Trudeau tenha condenado a medida e prometido restabelecer relações, isso nunca foi feito. Os interesses canadianos com o Irão foram tratados por diplomatas italianos. As negociações com o Irão são mais uma questão de relações internacionais sobre a qual o Canadá luta para se fazer ouvir. Para complicar ainda mais as coisas, o Irão não reconhece a dupla cidadania; portanto, no que diz respeito a esses passageiros, o que possuem o segundo passaporte do Canadá, podem não ser reconhecidos pelo Irão.

No entanto, os Estados Unidos não podem culpar somente o Irão pelo desastre humano. Eu quero acreditar que ninguém pretendia que civis morressem. É assim que ocorre com consequências não intencionais – e porque os governos devem pesar cuidadosamente a decisão de usar força mortal. O Governo dos EUA está a contar uma história questionável e possivelmente falsa sobre a decisão de matar Soleimani. Em vez de reconhecer que Soleimani foi morto em represália, os fiéis a Trump argumentam que a morte era necessária para evitar ataques iminentes e que apenas o assassínio do mesmo poderia impedi-los.

Entretanto o Canadá espera que alguém seja responsabilizado, apesar das aparentes detenções dos considerados culpados de causar esta tragédia. Portanto, o Canadá espera nervosamente, observando de fora enquanto outros determinam o destino de questões que são de grande preocupação para nós. É uma consequência dos tempos, mas também da relutância de Otava em se envolver de maneira profunda ou direta demais como força independente nos assuntos internacionais.

Como em muitas outras áreas, o Canadá argumenta diante do seu povo e da comunidade internacional e propõe uma ação conjunta com outros como forma de obter resultados, mas no fim só pode confiar na boa vontade do Irão. Os 57 canadianos que morreram no avião, e os outros 80 com ligações a este país, ainda estariam vivos se os iranianos não tivessem derrubado o avião. Essa é a realidade.

Algum dia, Otava pode aprender que países não ganham respeito apenas com palavras. É preciso agir para além do mínimo apesar de, às vezes, poder ser inconveniente, caro e até doloroso.

Peter Ferreira/MS

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