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Os avós são muito mais que só avós

Avós não são “segundos pais”, são mais como uma segunda casa. A casa que nos acolhe e nos aconchega, para onde queremos ir quando o dia corre mal. E demora-nos bastante tempo até percebermos que avós não são só avós, chega até a ser injusto.

Já foram pais e também filhos, já carregaram consigo vários sonhos, uns concretizados e outros guardados na memória, conformados de “que não era para ser”. E se em pequenos mal podíamos esperar que a avó nos fosse buscar à escola já que era sinal que se seguia um lanche delicioso. Toda a gente sabe que as torradas da avó são melhores do que as que temos em casa e na maioria das vezes lá estava um bolo em cima da mesa porque ela sabe que é o nosso preferido. As tardes eram de brincadeira, já que os avós nos gostam de entreter e fazer as vontades até que os autoritários dos pais cheguem para nos vir buscar. E com os avós também se aprendia e muito, como coser roupa e fazer crochê, até se dava um jeitinho na cozinha e começávamos a fazer pão e biscoitos, e ainda nos ensinavam a tomar conta das galinhas, dos gatos e dos porcos.

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Foto: DR

Quando somos adolescentes já as coisas ficam mais difíceis para os avós, nós ainda os amamos e muito, mas já estamos menos disponíveis. E esquecemos que os avós são mais que só avós. Felizmente, depois dessa fase, aprendemos que eles têm histórias incríveis para contar, muito mais interessantes do que as nossas, e aprendemos que depois destes anos todos afinal ainda não os conhecíamos. E é incrível o que acontece quando lhes damos oportunidade de falar mais sobre a vida e quanto podemos aprender com o caminho dos outros.

Os meus dois avôs viveram embarcados em navios piratas – dá para imaginar viver anos a viajar pelo mundo? E as minhas avós em parte acabaram por criar os filhos quase sozinhas porque os maridos estavam no estrangeiro. A minha avó paterna perdeu a mãe muito nova e foi ela que assumiu a responsabilidade de tomar conta dos oito irmãos. A minha bisavó aos sete anos já cuidava dos irmãos e trabalhava, nunca aprendeu a ler porque a vida mostrou-se difícil desde muito cedo e também perdeu o marido muito nova, o que fez com que criasse os três filhos sem muitas ajudas.

E tudo o que eles viveram… numa época em que não se comprava roupa, fazia-se e quando dava. Em que se cultivava o que se comia. Carros, internet, telefone? O que é isso? E para quê? Ir de férias é um conceito que nunca aproveitaram e quase parece que não têm curiosidade. E hoje, olhamos para eles, ainda cheios de energia, com vontade de não parar de trabalhar, e questiono-me como? Têm uma força que não acaba e se há gene que se passe na família, espero que seja esse.

E que as roupas simples – as batas, as camisas e as boinas – não vos enganem, os avós não são só avós. São prova de resiliência de quem já enfrentou tempos muito mais difíceis do que aqueles em que estamos. São o exemplo de que os problemas da vida se superam. Os avós são muito mais que só avós, são fontes de sabedoria e aprendizagem, são erros e conquistas, são anos de trabalho, são a dedicação à família, são o passado e o presente.

Inês Carpinteiro/MS

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