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Ontem, hoje e amanhã

Meios de comunicação: são eles que literalmente – e hoje mais do que nunca – nos mantêm em contacto com o mundo. Seja através da magia da rádio, do folhear de páginas de um jornal, do ecrã de uma televisão ou de um simples clique num telemóvel ou tablet, em menos de nada “viajamos”, aprendemos, informamo-nos, socializamos, trabalhamos… são possibilidades quase infinitas! Também eles enfrentam inúmeros desafios: um dos maiores será, com certeza, acompanhar os constantes avanços tecnológicos e o surgimento de novas plataformas digitais, que têm angariado cada vez mais utilizadores.

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Credit: Karsten Winegeart.

Nesta edição conversámos com a professora catedrática Inês Amaral, especialista nos new media, e que é atualmente a diretora da licenciatura em Jornalismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e com Nick Hector, professor assistente da Escola de Artes Criativas / Comunicação, Media e Cinema da Universidade de Windsor para percebermos a evolução dos meios de comunicação ao longo do tempo: como surgiram, como se desenvolveram, como evoluíram e para onde caminham.

Na última década, assistimos ao “boom” das redes sociais, que não só se multiplicaram como também evoluíram bastante, à medida que iam sendo lançadas mais e melhores apps. Nick Hector relembra que “a mudança radical que estamos a viver no nosso consumo e a criação de meios de comunicação social começou há 30 anos com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação digital”. Para Inês Amaral as redes sociais “são uma consequência de uma massificação cada vez maior do acesso ao digital” ainda que existam condicionantes, já que “não temos toda a população à escala mundial com acesso ao digital, mas temos cada vez mais o digital como sendo uma infraestrutura para inúmeros serviços e para as comunidades”. A professora diz ainda que estas plataformas têm a capacidade de alterar a própria comunicação: “alteram também a forma como as pessoas percecionam não só a informação e não só os meios de comunicação, mas como o próprio mundo. Portanto alteram a forma como as pessoas comunicam com os outros, como as pessoas têm imagens dos outros e de si próprios e a forma como as pessoas acabam por receber uma outra mediação do mundo que não é apenas aquela que é habitual, que vem dos media”. Hector alerta para a rapidez do desenvolvimento de novas tecnologias: “ainda não conseguimos recuar e refletir sobre as implicações morais. É difícil refletir sobre as implicações deste tsunami de mudança quando a sociedade é esmagada por ela”.

É inegável, contudo, que as redes sociais são hoje em dia vistas como um veículo importante de mensagens, o que provoca alterações substanciais nos espaços de disseminação e retira a exclusividade de mediação do meio de comunicação. Apesar de tal permitir aos “utilizadores comuns poderem também usar as redes sociais para disseminar conteúdos dos meios de comunicação profissionais, sejam eles online ou offline” e “exponenciar muitíssimo a audiência”, na opinião de Inês Amaral existem também inúmeros perigos: “o primeiro, eu diria, é um perigo que os meios de comunicação conhecem desde que existem mas que com o digital e com a velocidade que o digital permite imprimir, digamos assim, à comunicação e à informação se exponenciou – a desinformação”. Para além disso, Inês é da opinião que, do ponto de vista de modelo de negócio, as redes sociais retiram utilizadores dos sites e que estes se focam “muito nos consumos que fazem a partir das redes sociais – às vezes são consumos que as pessoas clicam no like e abrem o link no site mas muitas vezes as pessoas leem o título e o lead, não saem da rede social e formam opiniões que muitas das vezes não são baseadas em factos verdadeiros mas sim em interpretações que fizeram de um título que pode ser mais catchy, por exemplo”. Esta é, segundo Nick Hector, “uma perigosa espada de dois gumes. Embora permita que as vozes marginalizadas possam ser ouvidas, também cria um mercado que favorece o baixo preço dos meios de comunicação irresponsáveis e agendados. A criação de meios de comunicação responsáveis custa dinheiro”.

Tendo em conta que o número de utilizadores de redes sociais no mundo triplicou nos últimos 10 anos, “os meios de comunicação acabam por estar num ecossistema mediático muito híbrido em que não só há a ideia do local e do global como também a questão do próprio modelo de negócio se transformar cada vez mais e nem sempre em benefício dos meios de comunicação. E, portanto, eu diria que é impossível pensar hoje nos meios de comunicação sem estarem nas redes sociais, digitalizados e sem utilizarem tecnologia – mas não só para chegar às audiências e a potenciar os outros públicos”, afirma a especialista nos new media. 

O professor assistente da Escola de Artes Criativas, Comunicação, Media e Cinema da Universidade de Windsor diz que “há muitas razões para exaltar o desaparecimento de artefactos de meios analógicos, tais como o jornal. Apenas razões ambientais são motivo de celebração”. Inês Amaral aponta para um “gap temporal” provocado pela pandemia que vivemos, que não só veio provocar quebras monstruosas nas tiragens de jornais de todo o mundo como também os “empurrou” para a divulgação de edições exclusivamente online. Já no caso da rádio, Inês diz que o consumo deste meio oscila agora “entre dois tipos de dispositivos:  o carro e o computador, telemóvel ou tablet. A rádio não deixa de ter ouvintes, mas há uma reestruturação naquilo que é o consumo de rádio”. Um fenómeno que não é novo, mas que se veio acentuar ainda mais com a Covid-19, com muitas pessoas a deixarem de utilizar os carros para se deslocarem para o trabalho, por exemplo. “A mesma coisa aconteceu também com a televisão que voltou a ter uma certa centralidade informativa, do ponto de vista dos media, muito pelas suas características, tal como noutros momentos em que foi absolutamente central – olhando para uma escala mundial, estou a lembrar-me do 11 de setembro de 2001”, acrescenta Inês, exaltando, no entanto, que com o regresso às redações e a uma certa normalidade na imprensa escrita deixou de haver essa “centralidade exclusiva da televisão e voltaram a centrar nos media informativos de uma forma geral”. 

E se muitas empresas já tinham nos seus planos a transição digital, parece que a pandemia provocada pela Covid-19 veio acelerar ainda mais esse processo. A título de exemplo, plataformas de streaming como a Netflix e o YouTube perfizeram 51% do consumo televisivo durante este último ano. Nick Hector aponta o mecanismo de entrega como a razão para o sucesso inicial da Netflix. No seu ponto de vista, esta plataforma “começou como uma lixeira para filmes e programas esquecidos e falhados”, mas “canalizou brilhantemente os lucros para uma programação de qualidade que os transformou no gigante das comunicações que são. Eles mudaram o campo de jogo para sempre. Todas as emissoras ‘tradicionais’ passaram ou estão em vias de passar para o streaming”.

Inês Amaral afirma que as plataformas de streaming trazem não só “variadíssimas mudanças do ponto de vista da produção do conteúdo, pensando no entretenimento” e “eventualmente também em questões informativas de maior profundidade, nomeadamente na questão dos documentários, que algumas das plataformas têm vindo a investir muito”, mas também “trazem novos hábitos de consumo audiovisual. Por exemplo a ideia do binge-watching” – ou seja, assistir a uma temporada de uma série de uma vez só, por exemplo, algo que “não acontece nem pode acontecer na programação televisiva”. As plataformas de streaming têm sido apontadas como um dos grandes concorrentes das televisões – até pela capacidade de terem catálogos com uma oferta incrivelmente variada -, mas Inês relembra que também enfrentam vários constrangimentos – entre eles o facto do consumo audiovisual para estas plataformas ainda não ser mainstream e, portanto, não atingir as audiências da mesma maneira que os canais generalistas.

Finalmente, a questão “para queijinho”: será que algum meio de comunicação tem a sua existência, no futuro, comprometida? Inês Amaral não é adepta dessa teoria: “O que eu acho que pode acontecer é uma compactação, digamos assim, dos meios de comunicação. Talvez a especialização possa vir a ser o caminho dos meios generalistas ou de alguns meio generalistas, mas tenho sérias dúvidas primeiro que os meios generalistas desapareçam e segundo que os meios de comunicação ditos tradicionais desapareçam. (…) As pessoas não são capazes de ler informação em bruto, a informação tem que ter um tratamento jornalístico, e eu acho que a pandemia mostrou isso mesmo – as pessoas precisam de informação de qualidade, precisam de estar informadas de facto daquilo que não só se passa no mundo como se passa com elas”. 

 Já Nick mostra-se entusiasmado “com um futuro em que a democratização dos media permita que vozes marginalizadas sejam ouvidas, em que o conteúdo e a representação sejam determinados por criadores e comunidades e não por interesses corporativos. Contudo, a menos que nós, o público, façamos escolhas responsáveis, estaremos condenados a um cenário fragmentado de meios de comunicação social partidários imprudentes”.

Inês Barbosa/MS

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