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O vírus tem sotaque

Um dia vamos ser obrigados a permanecer em casa o máximo de tempo possível para nos protegermos de um vírus sobre a qual a comunidade científica sabe muito pouco e o isolamento social pode durar semanas, meses ou anos, no pior dos cenários. Se alguém nos dissesse há alguns meses atrás que algo do género ia acontecer provavelmente não acreditávamos, mas o que parecia ficção hoje faz parte da nossa realidade e ninguém sabe quando ou se a vida vai voltar à normalidade.

Foi em dezembro que surgiram os primeiros casos de um novo vírus na China que os médicos não conseguiam tratar. O vírus alastrou-se pelo mundo e hoje já existem mais infetados fora da China do que propriamente naquele país. Se as autoridades encobriram os números ou não, o tempo e as investigações o dirão, mas nesta quinta-feira (23) a China contava com 84,287 casos e 4,642 mortes. Um número pequeno quando comparado com os EUA que já contavam, nesta quinta-feira (23), com 855,250 e 47,974 mortes. Na Europa, em países como a Itália, a Espanha e a França, o número de mortes também supera as que foram declaradas na China. Na Itália morreram 25,085; em Espanha, 22,157 pessoas e em França 21,340, segundo dados divulgados na quinta-feira (23). No Canadá, onde estão infetadas mais de 35,000 pessoas, o número de mortes superou a barreira das 1,000 na semana passada e esta segunda-feira (20) já perfazia o total de 1,608 mortes.

Nas últimas semanas a vida mudou e trouxe novas rotinas. Uma simples ida ao supermercado pode demorar horas e sair de casa sem luvas e máscara não é aconselhável. O dia a dia agora é feito com briefings diários das entidades políticas e da área da saúde que nos atualizam todos os dias sobre a evolução dos números e da eficácia do distanciamento social. Esta segunda-feira (20) fomos confrontados com uma nova projeção para Ontário que nos revelou que a evolução do vírus foi muito menor do que inicialmente se julgava. Notícias que dão conta que a transmissão comunidade baixou significativamente, mas que alertam para o perigo do vírus em lares de idosos.

Há semanas (que parecem meses porque o tempo agora passa mais devagar), numa das minhas idas ao supermercado – que agora são a única atividade social – ouvi que o vírus era culpa dos imigrantes e do país porque pelos vistos tinha deixado entrar pessoas contaminadas. Segundo aquele nativo, que parece saber mais do que qualquer cientista, o vírus ataca de acordo com a etnia. Há dias, numa reportagem difundida por um canal privado de televisão em Portugal, o facto da população do Norte de Portugal ser menos instruída sugeria que essa era uma das razões para o Norte ser mais atingido pela COVID-19. Pouco depois um pivô da concorrência sublinhava que o vírus não tem sotaque…

A ignorância é internacional e pelos vistos é imune à COVID-19, mas o novo vírus tem provado que o ser humano quando quer é capaz de coisas extraordinárias. Embora este fim de semana tenhamos sido surpreendidos com um tiroteio na Nova Scotia que é já um dos piores da história do Canadá…

A Canada Goose deixou de produzir casacos e está a produzir batas para ajudar os profissionais de saúde a combater o vírus; a Bauer de Montreal deixou de produzir equipamento de hóquei e está a fazer máscaras e Ontário vai produzir a N96, a nova geração de máscaras N95. Em tempo de pandemia os heróis estão em todo o lado, desde o hospital até ao supermercado e todos têm provado que cada um tem o seu papel, resta saber como será a vida depois da pandemia.

Joana Leal/MS

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